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Entrevista a João Paulo Guerra sobre o livro "Corações Irritáveis"

O segundo romance do jornalista e escritor João Paulo Guerra conta uma história ficcional baseada numa doença real, a Perturbação Pós-Stresse Traumático. É uma doença crónica e contagiosa, que só foi reconhecida em Portugal em 1995, vinte anos depois do fim da guerra colonial. Entrevista de Joana Louçã.

"Era uma vez uma mulher que viu um filho partir para a guerra. E quando o filho regressou, a mãe não era a mesma mulher e o próprio filho era outro, embora não o soubesse." Assim começa o segundo livro de João Paulo Guerra, que serviu de mote a esta entrevista, que pode ser vista, parcialmente, em vídeo aqui e lida na íntegra em baixo.

Quando a Perturbação Pós-Stresse Traumático foi diagnosticada, chamaram-lhe “corações irritáveis”, nome que deu origem ao título do seu romance. De onde surgiu a ideia deste livro?

A ideia de escrever este livro surgiu a partir de trabalho que fiz como jornalista. Fiz, nos anos 90, uma série de entrevistas em que consegui entrevistar stressados de guerra que tinham muita relutância em falar, eu também não queria violentar a sua privacidade, queria respeitar a sua privacidade. Mas através de contactos com os médicos que os tratavam, escolhemos alguns stressados que podiam falar e aos quais até faria bem da sua doença.

Tive longas conversas com eles, para perceber bem os mecanismos, como é que funcionava, como é que tinham adquirido aqueles sintomas, porque de alguma forma tinha assistido a manifestações primárias daquela doença no tempo em que fiz o serviço militar, em Moçambique. Assisti a cenas que me mostraram que as pessoas se transformam, se transtornam, fica perturbadíssimas. Cenas de pancadaria por coisa nenhuma. Num café em Vila Cabral [atualmente chamada Lichinga] assisti a uma cena de extrema violência com soldados a agredirem-se, a atingirem-se uns aos outros com latas de cerveja que rebentavam e explodiam, uma coisa de uma violência extrema depois saíam todos amigos dali, era só deitar cá para fora qualquer coisa que tinham muito reprimida dentro deles. 

Num café em Vila Cabral assisti a uma cena de extrema violência com soldados a agredirem-se e depois saíam todos amigos dali, era só deitar cá para fora qualquer coisa que tinham muito reprimida dentro deles. 

Tinha esses vislumbres do tempo em que estive em Moçambique, no tempo da guerra colonial, e interessei-me mais ainda por aqueles casos e fiz uma série de entrevistas e de reportagens, algumas das quais dolorosas para os entrevistados e para mim, e provavelmente mais perturbadoras mais para mim do que para eles. Na altura, trabalhava na TSF e fiz uma grande emissão num dia 25 de abril, a TSF tinha adotado o lema para aquele dia de comemorações do 25 de abril o facto de fazer 20 anos de ter acabado aquela guerra e eu perturbava aquela paz, dizendo que a guerra ainda não acabou.

Começava a minha parte naquele programa com uma conversa, e uma montagem, com stressados de guerra, clínicos, terapeutas, pessoas que conviviam com eles, os seus pesadelos. Foi aí que me interessou. E com esta bagagem que tinha, os conhecimentos que tinha, até de pessoas, de escritos, assisti a muitas palestras dos psiquiatras que se dedicaram à doença e de associações que se formaram, como a Apoiar, uma associação de apoio aos stressados de guerra. Assisti a muitas conferências e debates promovidos por eles e tinha muito conhecimento disto. Achei que o conhecimento que eu tinha merecia que eu dedicasse alguma coisa a esta causa, que é falar deste problema, é uma sobrevivência de uma guerra que todas a gente pensa que acabou, mas para estes homens não acabou, continua e entretanto se transmite às mulheres e aos filhos.

A primeira vez que o stress de guerra foi identificado foi no século XIX. Em que circunstâncias se deu o primeiro diagnóstico médico da doença em Portugal?

Em Portugal a doença foi identificada muito tardiamente. Durante a guerra evitou-se sempre classificar estes homens, identificar que doença tinham, eram simplesmente internados no hospital militar. Em Luanda, no hospital, os casos mais graves, que se manifestavam de forma mais exuberante, eram “tratados” com choques elétricos. Foi sempre tentado não levantar ondas com esta doença.

A lei que reconhece a doença do stress de guerra só foi publicada em Portugal em 1995 e tem tantos alçapões, que, um homem que sofra do stress de guerra, desde que se queixa até ao momento em que começa a ser tratado, terão passados 15 anos.

Foi através dos próprios doentes que o Estado foi obrigado a reconhecer a doença. Levou muito tempo, a lei que reconhece a doença do stress de guerra, que já era reconhecida pela Organização Mundial de Saúde e que já era reconhecida nos Estados Unidos desde o século XIX, só foi publicada em Portugal em 1995. E foi publicada com tantos alçapões, com tantas dificuldades que, aplicando aquela lei, um homem que sofra do stress de guerra, desde que se queixa até ao momento em que começa a ser tratado, terão passados 15 anos.

É preciso que ele vá buscar uma certidão de onde esteve e que tipo de serviço militar prestou, depois que vá ao médico de família, depois que vá ao médico militar, depois que vá a uma Junta que nunca mais o chama e com isto passam-se 14, 15 anos. Foi a revelação deste prazo enorme e desumano que tive conhecimento numa sessão de divulgação desta doença e sobre a situação destes doentes, foi uma das coisas que me motivou para ajudar, de alguma forma. E a forma que tenho de ajudar os outros é escrevendo.

A experiência de viver uma guerra, no caso do seu livro a guerra colonial, é algo definidor da vida das pessoas que o experienciam. À pergunta se o marido “fez” a guerra (e note-se a utilização do verbo fazer e não “estar”), a mulher do personagem responde “não, a guerra é que o fez a ele”. A guerra passa a ser “a guerra infinita”, “a guerra dele não acabou” como refere no livro.

Uma personagem diz “esta doença é uma bomba ao retardador. Por vezes manifesta-se ou degenera alguns anos após os acontecimentos traumatizantes. Também acontece que os traumas ficam adormecidos e, por esta ou por aquela razão, despertam.” O que pode levar a este despertar e, uma vez despertos os traumas, as pessoas conseguem levar uma vida independente, quotidiana?

Em primeiro lugar, quero falar sobre a questão se ele fez a guerra ou se a guerra é que o fez a ele. Quando comecei a escrever este livro, achei que já se tinham escrito muitos romances sobre a guerra colonial. O Lobo Antunes, o João Aguiar, muita gente escreveu, as pessoas que passaram por lá deixaram os seus testemunhos, etc. E eu pensei que um dos meus objetivos era não escrever sobre os homens que fizeram a guerra, o sofrimento, o que eles passam. Não, pensei, não vou escrever um livro sobre os homens que fizeram a guerra, vou escrever sobre o que a guerra fez aos homens, que é o que é este livro, o que é que a guerra fez a estes homens, a estes, e a outros. 

E eu pensei que um dos meus objetivos era não escrever sobre os homens que fizeram a guerra, o sofrimento, o que eles passam. Não, pensei, vou escrever sobre o que a guerra fez aos homens, que é o que é este livro, o que é que a guerra fez a estes homens. 

Porque uma das características desta doença é que há um número estimado de doentes, que é grande, são dezenas de milhares de doentes portugueses em resultado da sua participação na guerra colonial. Entretanto, muitos já morreram, mas o número ainda é muito alto. Mas a maior parte deles nem tem consciência que tem a doença. São pessoas de quem a família diz, “ah, ele quando voltou da guerra veio diferente, passou a ser outra pessoa, tornou-se mais irascível, tem menos paciência para mim, bebe mais, dorme menos”. As pessoas começam a referir os sintomas como uma coisa que lhe aconteceu e não como uma doença que ele tem e que se pode tratar ou, pelo menos, que se pode acompanhar e que se pode minimizar. É isso que a medicina faz, porque isto é uma doença e nesse caso deve ser a medicina que trata dela, nesse caso, a medicina mental, a saúde mental que deve tratar estes doentes.

Muitas destas pessoas começaram a dar por isso, porque tinham reações despropositadas a alguns acontecimentos, bate uma porta e atiram-se para o chão, vão na rua e ao estrondo de um escape de um automóvel atiram-se para o chão, aterrorizam-se. Começaram a perceber que isto não era um susto que apanharam uma vez ou outra, é uma coisa sistemática, que está com eles, que reside neles, na cabeça deles. Alguns destes homens começaram a procurar auxílio médico.

Em Portugal, os primeiros foram os primeiros a ser encaminhados para o serviço de psicoterapia temperamental do Hospital Júlio de Matos, com o Dr. Afonso de Albuquerque e a Dra. Fanny Lopes e muitos outros, mas foram estes os primeiros. Ele diagnosticou rapidamente o que tinham porque quando o médico tenta fazer o diagnóstico, não vai só perguntar “de que é que se queixa?”, “queixo-me que quando bate uma porta, eu atiro-me para o chão”. E o médico pergunta “ah, sim, e por onde é que você andou ao longo da sua vida?”. E vai encontrar que esteve na guerra, e que esteve debaixo de fogo, por exemplo, e que ouviu explosões de minas, ou de obuses, ou de outra coisa qualquer. E o médico vai identificar a causa e o que são os efeitos que estão a acontecer.

Foi isto que foi acontecendo em Portugal e depois uns combatentes diziam a outros, há muitas associações de combatentes e muita proximidade. Aquilo foi uma experiência tão violenta na vida das pessoas que elas procuram-se muito umas às outras, é umas com as outras que desabafam, então estas que têm marcas na sua vida, como é este caso. E começaram a falar uns aos outros, houve uma altura em que havia já 200 doentes a receber tratamento médico no Hospital Júlio de Matos em Lisboa.

Muitas destas pessoas começaram notar que tinham reações despropositadas a alguns acontecimentos, bate uma porta e atiram-se para o chão, começaram a perceber que isto é uma coisa sistemática, que está com eles, que reside neles, na cabeça deles. Alguns destes homens começaram a procurar auxílio médico.

Um dos grandes problemas que se deparou é que isto não saía de Lisboa, do Hospital Júlio de Matos, até que esta lei de 1995 criou apoios para os doentes, ligados aos Centros de Saúde, mas há um número ínfimo de serviços a funcionar e, se alguém experimentar ir a um Centro de Saúde e queixar-se, o mais certo é que não havia nenhum serviço organizado para o acolher e o tratar. 

“Na guerra que estes homens travam, os inimigos são agora eles próprios”, afirma uma personagem no livro. “Eles sofrem porque são humanos. A sua humanidade não suporta os horrores que viram”, esclarece outra. O que é que alguém com esta doença pode fazer, que tipo de acompanhamento há?

O tratamento, tal como com outras doenças mentais, é um tratamento de grande persistência, entrar no mais íntimo que as pessoas têm, as suas memórias e recordações, más ou boas, o seu temperamento, a sua maneira de reagir às coisas, de estar com os outros, tudo isto, e tentar corrigir o que está mal por motivo da doença que o doente tem. Claro, também é tratado com meios químicos e com sessões de tratamento de psicoterapia de grupo. Há casos em que é útil que eles falem, há outros em que falar os perturba, portanto, o médico diagnostica o que é melhor para ele e segue esse tratamento.

Ela “não soube, mas a partir daquele dia começou a interiorizar, sem o ter vivido, o estrondo das explosões e o silêncio das esperas, o fogo das armas e o terror de matar, tudo isso e mais todos os delírios e alucinações de uma mente perturbada e de um coração irritável, tudo isso ela veio a assumi-lo com efeitos devastadores”. Os investigadores concluíram que o stress de guerra não só é crónico, como contagioso. Como se dá esse contágio?

Ligando estas duas informações, que o tratamento existe na lei, mas que é muito demorado e que entretanto as mulheres e os filhos vão ficando também contagiados, isto torna esta doença quase uma epidemia.

Isso foi uma das coisas que aprendi frequentando sessões de divulgação sobre a doença e os doentes, concretamente esse foi uma sessão da associação Apoiar, em que uma psicóloga deu esses dados, que na altura eram uma novidade, que é que a doença é crónica e é contagiosa. No caso, inicialmente só havia doentes homens, porque esta guerra foi feita por homens. Naquele tempo a incorporação militar era de homens, as mulheres que participavam na guerra eram voluntárias e participavam como enfermeiras, como enfermeiras paraquedistas, etc. Tinham funções subsidiárias, não propriamente em combate. Portanto, os stressados de guerra conhecidos são homens. Stressados dessa guerra, porque agora já há stressados portugueses das guerras do Afeganistão, e do Kosovo, estamos sempre metidos em todas essas coisas.

Ligando estas duas informações, que o tratamento existe na lei, mas que nunca mais acontece, é muito demorado, que é uma questão de sorte ser tratado, dar com o médico certo e com o tratamento certo. Sendo que isto demora este tempo todo e que entretanto as mulheres e os filhos vão ficando também contagiados, isto torna esta doença quase uma epidemia. Porque não são só uma alguns dos antigos combatentes que apresentam sintomas desta doenças, mas são já as famílias que começam a manifestar os sintomas e a receber tratamento e a viverem com isto.

“O país estava em guerra, uma guerra civil não declarada. Uma guerra quase desconhecida e que o país institucional, o país comodamente sentado, acomodado, amodorrado, conhecia mas ignorava.” Em Portugal, há alguma estimativa da dimensão da doença? 

Os números variam muito, porque não há, verdadeiramente, estatísticas, há estimativas. A primeira que houve foi porque havia estatísticas nos EUA sobre a guerra do Vietname e fez-se uma comparação. Quantos homens estiveram mobilizados para a guerra do Vietname, quantos soldados militares estiveram mobilizados para a guerra do Vietname e quantos estiveram mobilizados para a guerra de Portugal em Angola, Guiné e Moçambique. Em função do numero de estressados que existiam nos EUA, estimou-se um numero que poderia haver para os stressados que haveria em Portugal. E estamos só a falar de Portugal, não estamos a falar do outro lado. A Portugal, provavelmente, já não lhe competia ter atenção aos doentes do outro lado, mas deveria ter atenção aos africanos que combateram no exército português e que eventualmente poderão também sofrer da doença. 

Fazendo a comparação com o número de stressados que havia nos EUA por causa da guerra do Vietname, o número em Portugal seria cerca de 140, 150 mil. Nunca se chegou próximo de identificar esse número de casos.

Os números variam muito, são muito incertos. Houve uma altura em que se falava em 140, 150 mil. Em Portugal tinham sido mobilizados para as três guerras coloniais perto de um milhão de jovens portugueses, ou militares de carreira. Fazendo a comparação com o número de stressados que havia nos EUA por causa da guerra do Vietname, o número em Portugal seria esse. Nunca se chegou próximo de identificar esse número de casos.

O número de casos identificado foi sempre variando, começou a haver mais pessoas a irem ao médico e a queixarem-se desta doença. Isto começou a permitir outras extrapolações para outros números em Portugal. Os últimos números que ouvi são bastante diferentes, um anda à volta dos cem mil, outro anda à volta dos cinquenta mil, mas são todos estimativas, não são estatísticas.

A que tratamento tem acesso quem vive fora de Lisboa?

Quem vive fora de Lisboa tem que vir a Lisboa, se pensar em alguém que vive numa pequena terriola no interior que tenha um Centro de Saúde e que vá lá e que se queixe que não dorme, que diga que acorda com pesadelos, “mas não dorme porquê, tem pesadelos porquê?”. “Ah, estive na guerra”… se lá chegar! Porque não há meios, porque os meios não foram criados. A lei que reconhece a doença deveria ter sido acompanhada pela criação de uma estrutura que seguisse a par do SNS e que permitisse que o SNS atendesse estes doentes, com especialistas.

Porque não há meios, porque os meios não foram criados. A lei que reconhece a doença deveria ter sido acompanhada pela criação de uma estrutura que seguisse a par do SNS e que permitisse que o SNS atendesse estes doentes, com especialistas.

 

Numa sessão em que estive recentemente da Apoiar, em que ouvi falar não só ex militares stressados, mas mulheres stressadas e filhos stressados pela guerra que os pais fizeram, nessa sessão, foi dito por algumas pessoas que chegam a ser tratadas com algum desprezo, as pessoas que se vão queixar a um Centro de Saúde, a dizer “então, ainda não me deram resposta”, “lá vem este”… as pessoas ouvem, lá por estarem perturbadas não deixam de ouvir os comentários depreciativos que fazem a seu respeito. Dizerem isto não só não contribui para a melhoria do seu estado de saúde, como com certeza contribui para que piore.

As pessoas contagiadas, mas que não estiveram na guerra também têm acesso ao tratamento?

Sim, se os ex combatentes da sua família tiverem a ser acompanhados. Mas depois há coisas quase perversas. Se uma mulher apresentar sintomas do stress de guerra e o marido estiver a ser acompanhado, ela tem direito ao acompanhamento. Mas se o marido morrer, a mulher perde o direito ao acompanhamento. Porque o direito não é um direito dela, é um direito do marido, extensivo a ela. E, portanto, morrendo o marido, acaba-se o direito a que ela tem por tabela, não por direito próprio.

No livro há a referência a um jornalista, Carlos Gualdino, é uma representação de si próprio? 

Não, pode ter algumas referências, por exemplo, estar com frequência desempregado, fui despedido tantas vezes ao longo da vida profissional como jornalista! Pode ter alguma coisa de muitos jornalistas que conheci, e conheci muitos. Quando comecei a trabalhar no Rádio Club Português, trabalhava com pessoas que eram os seus fundadores, das primeiras pessoas que falaram ao microfone, estavam ali, trabalhavam comigo. Eu tinha 20 anos e eles 50, 60.

Acho que é bom escrever-se com lágrimas nos olhos, com sentimentos, porque as pessoas não são máquinas, e o código deontológico não pode ser um espartilho para as pessoas deixarem de ter sentimentos e passarem a ser autómatos. Eu sofro com o sofrimento dos outros e ponho esse sofrimento naquilo que escrevo.

 

Nela posso estar eu e podem estar muitos outros jornalistas que conheço e que conheci ao longo da minha vida profissional. Sobre a personagem, usei a frase e atribuí-a a Batista Bastos, o autor, dizendo que “escreveu uma reportagem com lágrimas nos olhos”. Porque acho que é bom escrever-se com lágrimas nos olhos, com sentimentos, porque as pessoas não são máquinas, e o código deontológico não pode ser um espartilho para as pessoas deixarem de ter sentimentos e passarem a ser autómatos, amorfos e indiferentes ao sentimentos dos outros. Não, eu sofro com o sofrimento dos outros e ponho esse sofrimento naquilo que escrevo.

Também fez o serviço militar em Moçambique, o que o levou a focar-se nesta temática?

Não foi tanto por mim, por ter estado na guerra, que até tive uma guerra um bocado “exótica”, a saltar de uns lados para os outros, desde o Grupo Recreativo das Forças Armadas, coisas assim. Não foi tanto por isso, mas porque acho que foi o acontecimento mais importante da segunda metade do século XX em Portugal, para Portugal. A guerra e, depois, o fim da guerra. Com a consequência de o fim da guerra ter trazido consigo a democracia. Para acabar com a guerra, foi preciso implantar a democracia em Portugal.

Estes acontecimentos conjugados, a teimosia da guerra, que foi levar um milhão de jovens para uma guerra que os profissionais chegaram à conclusão que não era possível vencer, que militarmente não tinha solução, e com isto morreram milhares de pessoas, foi um acontecimento muito importante na história de Portugal, que depois se resolveu, quando os próprios militares puseram fim à guerra e puseram fim à ditadura. Isso é um acontecimento importantíssimo em Portugal e eu tenho sempre muito gosto em ser testemunha, naquilo que digo, faço e escrevo, foi um acontecimento que tive a felicidade de viver.

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Sobre o/a autor(a)

Doutorada em sociologia da infância
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