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Câmara Municipal de Lisboa despeja lojistas

Câmara Municipal de Lisboa ordena o desalojamento de lojistas que há dezenas de anos trabalhavam na Rua de São Lázaro, sem lhes oferecer qualquer alternativa de alojamento.
Porta com cadeado. Foto de Karol Franks/Flickr.

No centro de Lisboa, na Rua de São Lázaro, os lojistas receberam ordens de despejo devido à construção de um novo condomínio no quarteirão. Alguns dos lojistas lá trabalhavam há mais trinta anos. O seu senhorio é a Câmara Municipal de Lisboa (CML).

A nova lei das rendas dá a cobertura legal que facilita este processo e a CML não quer fazer nenhuma proposta de espaço alternativo aos lojistas.  O quarteirão será destruído e a nova construção será, ironicamente, para um projeto de arrendamento acessível.

Estou aqui há 42 para 43 anos, agora, em poucos meses, querem-nos por fora. Tenho até ao fim deste mês para me ir embora, deram-me 60 dias para sair e não sei o que hei-de fazer, para onde é que vou trabalhar” afirmou ao esquerda.net Alfredo Carlos da Costa Tomás, estofador, um dos lojistas que já recebeu a carta da CML.

Alguns deles terão acesso a indemnização, mas nem todos, “não tenho direito a nada, é sair sem indemnização, sem nada”, acrescentou Alfredo Carlos da Costa Tomás. “Disseram-me que iam fazer uma proposta de indemnização, e que era uma questão que depois se ia discutir”, disse José Fernandes, outro lojista da rua.

A inflexibilidade da CML está a frustar os lojistas, que precisam de mais tempo para sair das lojas. “Já mandei uma carta registada ao Sr. Vereador a pedir-lhe, pelo menos, que me deixe ficar até ao final do ano. Não é em 60 dias que eu vou organizar uma vida de 42 anos!”, afirmou Alfredo Carlos da Costa Tomás.

A CML não está a oferecer a estes lojistas qualquer alternativa e, para eles, a localização das suas lojas é parte essencial do sucesso. “Indemnizar o quê? Vou para onde? Os clientes que temos aqui há 30 anos na rua, no fundo, esse é que é o nosso património. Eu não quero negociar, eu quero trabalhar, quero trabalhar, é a minha vida, a dos funcionários que trabalham comigo, das pessoas que trabalham comigo”, afirmou José Fernandes.

Assim que receberam a carta de despejo da CML, começaram a procurar outras lojas para  alugar na zona; depararam-se com o enorme aumento das rendas na cidade de Lisboa e perceberam que será impossível manter a loja no centro da cidade. “Aqui, não consigo, não consigo, é uma exorbitância de dinheiro”, afirmou José Fernandes.

Ricardo Robles, engenheiro civil e deputado municipal do Bloco, declarou ao esquerda.net que "o programa anunciado pela Câmara para trazer gente para a cidade, na melhor das hipóteses, estará operacional em 2019, e a primeira medida que a CML toma é expulsar e desalojar lojistas com várias décadas de atividade nas suas lojas. Este programa falha desde o seu início. Expulsar quem vive e trabalha na cidade é um erro em que a CML inisiste em persistir".

Em baixo pode consultar a carta de despejo, que foi facultada ao esquerda.net por Alfredo Carlos da Costa Tomás e pode ser vista uma reportagem sobre turismo e gentrificação na cidade de Lisboa, com os depoimentos de Hugo Mendes, Alfredo Tomás e José Fernandes, três lojistas que vão ser despejados, de Clara Amaro, residente na Baixa há 10 anos a quem foi dado até agosto para sair de sua casa, António Brito Guterres, investigador do ISCTE e Carla Reis, uma das muitas pessoas em Lisboa que pôs a sua casa em Alojamento Local.

+e, ep 2 | Gentrificação e turismo em Lisboa | ESQUERDA.NET

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