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Entrevista a João Paulo Guerra

O seu recente Romance de uma Conspiração conta uma história ficcional com factos verídicos que evoca o período do 25 de Abril, colocando Portugal no centro de uma intriga internacional ligada às redes paramilitares secretas criadas na altura pela NATO, em vários países da Europa.

Os factos que enredam a história são verídicos e resultam do seu trabalho de investigação, publicado no início dos anos 90. O Esquerda.net entrevistou o autor* e falámos sobre o seu romance e as histórias que este revela sobre a NATO.

1. Este é o “Romance de uma conspiração”. Que conspiração é esta que serve de fundo à história que nos conta neste livro?

Há uma determinada altura na minha vida profissional, e pessoal, durante a qual começo a organizar a papelada que tinha em casa. Nos papéis que juntei sobres estes acontecimentos, começo a perceber que há ali uma relação, um fio que passa e que os liga: é a minha ligação, a minha presença como jornalista. Eu, como repórter, estava nos Restauradores, no 1.º de Maio de 64, onde a PSP me apreendeu o gravador, chamando depois os tipos da PIDE à Praça da Alegria que levaram o gravador, identificaram-me e mandaram-me embora... A reportagem não saiu. Em 74, no 25 de Abril, estava entre o Largo do Carmo e a R. António Maria Cardoso. Das duas vezes que houve tiroteio nesta rua, eu estava lá. E depois, estava na Emissora Nacional a 22 de Maio de 74 quando umas mulheres da Madragoa nos avisaram que estava ali a decorrer uma operação, na Madragoa. Então, lá fui e vi os militares a cercar um apartamento onde teria estado instalada uma suposta agência de informação. E por aí fora.

Há um outro momento decisivo que é quando o Primeiro-Ministro italiano, Giulio Andreotti, em 1990, faz uma comunicação no Parlamento a dizer que existiu em Itália uma rede chamada Gáudio, tendo ramos noutros países europeus, organizada sob o chapéu-de-chuva da NATO, e que desenvolvia acções com vista a dominar as pessoas pelo medo. Era uma estratégia que em Itália se denominava “estratégia da tensão”, pois as pessoas viviam num constante pavor de lhes poder acontecer alguma coisa porque rebentavam bombas nos comboios, em bancos, em lugares públicos.

Todos os países da Europa, ou quase todos, declararam depois, por sua iniciativa, que também nesses sítios existiu essa rede, mas adiantando que esses ramos já tinham sido extintos ou iriam ser extintos. O único país que disse categoricamente que aí não tinha existido nada foi Portugal. Este tipo de episódios lembram-me sempre “A Casa de Bernarda Alba”, do García Lorca, quando no fim a Bernarda Alba grita que a filha morreu virgem e que ali não aconteceu nada, “aquí no pasó nada”… Aqui, isto foi uma herança do salazarismo que é a mesma que se manifestou no 16 de Março de 1974, quando havia uma coluna militar a avançar para derrubar o poder e o Governo fez um comunicado a dizer “Reina a ordem em todo o país”.

Nesta altura [1990] colaborava no semanário O Jornal, e a tempo inteiro na TSF. N’O Jornal desafiaram-me a investigar sobre se teria havido em Portugal alguma ligação à tal rede. Com tempo para investigar, eu falei então com algumas pessoas, sobretudo militares ligados à Comissão de extinção da PIDE e da legião portuguesa, e tive acesso a alguns documentos. E encontrei a pista e afinal, espantei-me, podia ter falado mais cedo dela. Mas é que em 74, quando foi descoberto o escritório da Aginter Press na Rua das Praças, na Madragoa, a notícia saiu no dia seguinte. Mas depois já havia muitas mais notícias. Os dias fervilhavam em novidades e por isso as notícias tinham pouca duração, tal como a investigação que acabava por deixar cair alguns assuntos.

Publiquei então as primeiras informações sobre a existência em Portugal da rede, acrescentando dados, conseguindo outros com outras fontes… Foi tudo publicado no semanário O Jornal entre Novembro de 1990 e Abril de 1991.

Entretanto chegaram uns jornalistas italianos que já aqui tinham estado, aquando da descoberta do escritório. Porque enquanto em Portugal, os nomes que surgiram na altura ligados à àquela agência disseram pouco, na Itália soaram como uma sineta de alarme. Na altura, enquanto nós estávamos aqui na “festa” da revolução, em Abril desse ano rebentaram duas bombas mortíferas em Itália, na sequência de atentados em espaços públicos. Para eles era um assunto que estava vivo e por isso vieram cá e aí eu estabeleci ligações com eles e desenvolvi a investigação, tendo tido acesso a novas informações. Fui publicando… Hoje, há livros estrangeiros, de origem americana, inglesa e suíça, alguns muito bons, que relatam a história desta rede Gládio e citam fontes portuguesas que são as minhas reportagens publicadas n’O Jornal.

Portanto, isto é a base real do que de facto existiu sobre a qual eu construo depois uma ficção onde há duas histórias de amor, a de um filho pela memória do pai, e a de um amor entre um homem e uma mulher. A personagem principal é também ficcional, tal como os personagens que orbitam à sua volta. Mas os factos existiram mesmo.

Existiu de facto uma suposta agência de imprensa que era um centro de espionagem, de contra-espionagem, de contra-informação, recrutamento de mercenários, organização de diversas operações militares ocultas em vários países africanos. Muitas destas iniciativas eram desenvolvidas em Portugal por esta agência sob contrato com a PIDE e com os Ministérios da Defesa e do Interior, e com ligações ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Isto, portanto, era uma realidade que nos escapava, como, aliás, nos escapavam muitas outras coisas.

2. Quais eram, em concreto, as actividades da Aginter Press?

A Aginter Press foi fundada em Portugal por um grupo de franceses, todos das OAS, a organização do exército secreto. Alguns deles (os principais) eram fugidos da justiça francesa porque tinham sido condenados por uma tentativa de assassínio do General De Gaulle, devido a este ter-se colocado do lado da independência da Argélia. Eles fugiram primeiro para Espanha, mas depois vieram para Portugal onde foram muito bem acolhidos pela PIDE. Fizeram depois contratos com o Ministério da Defesa, passando muitos deles a ser instrutores dos oficiais portugueses que combatiam em África, instrutores da Legião Portuguesa e das suas organizações paramilitares, como os Centuriões, os Viriatos, etc. Em Portugal organizavam também encontros com outros grupos estrangeiros.

Isto aqui era um paraíso para eles pois tinham a suprema protecção do Governo e da estrutura orgânica da PIDE. Para justificar o nome que tinha palavra imprensa– Aginter Press – tinham um programa de pura propaganda na Emissora Nacional, chamado “Voz do Ocidente”, e colaboravam, do ponto de vista doutrinário, com outros jornais de extrema-direita como o Agora, o Vanguarda, entre outros.

Já muito perto do 25 de Abril, uma época de desespero para o regime português, que via tudo desmoronar-se (as Forças Armadas conspiravam, a Igreja começava a retirar o seu apoio, o movimento social a fervilhar por todo o lado, os estudantes e as greves, proibidas, mas que se faziam), há um jornal francês, Le Nouvel Observateur, que publica uma reportagem sobre Portugal onde falava de acções punitivas, a ser preparadas, contra grupos de esquerda que mantinham alguma acção clandestina em Portugal. Isto para contrariar a oposição que se manifestava em relação ao Governo.

Importantes são também as acções desenvolvidas aqui, pela Aginter Press, mas em relação a África. Sob contrato com a PIDE e com a colaboração dos serviços secretos franceses (e também belgas) planearam golpes de estado nos países limítrofes das colónias portuguesas que acolhiam os movimentos de libertação que combatiam nessas colónias. Portanto, eles procuravam inverter o poder, apoiando alguns dirigentes fantoches que tinham sido apeados do poder por não terem respondido aos anseios das pessoas, como o Tchombé no Congo. Na África Oriental infiltraram um homem disfarçado de jornalista que viveu vários meses junto da organização da FRELIMO, na Tanzânia, onde pode estudar todos os hábitos e possíveis divergências entre os dirigentes daquele movimento. Entregou depois toda a informação à PIDE que tinha um objectivo concreto que era arquitectar um atentado ao Presidente da FRELIMO, que acabou morto em 1969. Na ficha da Aginter Press deste agente infiltrado, um suíço, este era identificado como um oficial de informações da NATO.

Havia, portanto, uma actividade concreta, mas que também nem sempre era muito contínua. Na altura, havia até algumas quezílias internas na PIDE provocadas por aqueles que defendiam uma espécie de modernização da repressão por parte da polícia política.

Isto era uma teia infinda mas que existiu. Em Portugal havia representantes dos Ministérios do Interior, da Defesa e dos Negócios Estrangeiros que contactavam directamente com a rede, para além do contacto directo com os sub-director e director da PIDE, o Barbieri Cardoso e Pereira de Carvalho respectivamente.

Estavam aqui bem instalados e apesar da degradação, recompunham-se com a generosidade do Governo português.

Consultei diversos processos judiciais e parlamentares italianos, pois a Itália foi o país que mais aprofundadamente investigou estes grupos. Nesses processos, a Aginter Press não aparece como apenas uma delegação de Lisboa. Alguns dos seus homens daqui surgem como mentores de alguns daqueles atentados mortíferos em Itália, que a imprensa na altura chamou de “terrorismo negro”. Essas pessoas da Aginter surgem na cadeia de organização e comando desses atentados num ponto de decisão, de preparação ou instrução técnica dos próprios atentados. As outras pessoas eram dos serviços secretos italianos, oficiais norte-americanos estacionados em Roma, principalmente. Eram os chamados “rapazes da Via Veneto” e alguns destes foram mesmo julgados por participação nos atentados.

3. Como e por que surge a Gládio em Itália?

A Gládio é constituída a partir de uma directiva da NATO, a directiva “Stay behind”, que recomendava aos estados-membros que estabelecessem forças que fossem capazes de, no caso de uma invasão dos países ocidentais por forças do Pacto de Varsóvia, funcionar na retaguarda dos invasores. Funcionaria como uma guerrilha de oposição, tentando também organizar a população. Estas unidades foram dotadas de meios humanos, de equipamento e de armamento. Há até um episódio curioso, que se passou em Itália, com um avião que caiu, carregado com armamento. Esta situação embaraçosa ficou por explicar… Tratava-se, portanto, de uma actividade organizada, enquadrada, superiormente dirigida e com um objectivo estratégico.

A suposta possível invasão das forças do Pacto de Varsóvia e a directiva “Stay behind” foram os pretextos. E funcionava… era aquela propaganda do medo - “os russos vêm aí”, diziam. Digo “pretextos” porque posteriormente a estratégia consistiu em (substituindo discretamente a outra) impedir as forças de esquerda de chegar ao poder, mesmo por via eleitoral, principalmente na Itália e na França. Aqui a esquerda esteve por várias vezes, e durante muitos anos, muito perto de chegar ao poder. Esta “estratégia da tensão” era dirigida contra o acesso ao poder por parte dos partidos de esquerda, não só os comunistas. Em Itália, foi o chamado compromisso histórico, a coligação proposta aos comunistas pelos democratas-cristãos para se comprometerem assim com o futuro e a estabilidade do país, que esteve na mira dos atentados protagonizados pela rede Gládio e não, claro, uma possível invasão dos países do Pacto de Varsóvia, pois tal nunca esteve na iminência de acontecer. Criava-se então uma manobra de diversão, atribuindo-se essas acções às forças de esquerda, para alimentar o “papão”, aterrorizando-se as pessoas com o perigo que supostamente aquelas forças de esquerda representavam.

4. Em Portugal, a morte do General Humberto Delgado está também envolta nas ligações a estas redes, como a Gládio. Refere isso no seu romance. A Aginter Press esteve, de facto, envolvida no atentado ao “General sem medo”?

No processo relativo à morte do General Humberto Delgado, que resultou num julgamento onde os responsáveis foram condenados (embora a maior parte deles nem tenha cumprido pena) há referência a um indivíduo nunca identificado, denominado então por “agente X”. Há várias teorias: seria o tradutor que acompanhava os oficiais da PIDE quando estes se deslocavam a Itália para contactos com os serviços secretos italianos; seria um doutor que vivia em Itália e andava próximo do General. Não era nenhum destes e há provas em documentos que excluem estas hipóteses.

Mas este “agente X” foi a primeira pessoa a sugerir ao Governo português – “matem o homem!”. Isto surge em documentos de 62 e aí está a sugestão “Matem-no. Atraiam-no a uma cilada e matem-no, se ele vos cria tantos problemas!”. Este “agente X” tem vários documentos assinados com o seu nome no processo da morte do General. Ele foi muito cauteloso e tinha muito boas ligações com os serviços secretos italianos e franceses, movendo-se bem e com capacidade para influenciar decisões, segundo perceberam os oficiais da Comissão de Extinção da PIDE, que leram todos aqueles documentos e assim definiram o perfil do homem.

Mas ele cometeu um erro: cada documento que enviou, e que depois se concentraram no processo da morte do General, assinou como “agente X”, seguido de uma espécie de sigla. Uma dessas siglas utilizadas foi “Voz do Ocidente”. A “Voz do Ocidente” era o tal programa de propaganda da Emissora Nacional, do qual já falei, cuja programação internacional era produzida pela Aginter Press.

Devo dizer que me custou muito caro escrever isto porque houve muitas pessoas que não acreditaram, levantando dúvidas… Houve até desmentidos publicados. As minhas reportagens saiam n’O Jornal e os desmentidos eram publicados no Expresso. Foi uma guerra curiosa.

Mas houve depois um magistrado, o Santos Carvalho, um dos investigadores do processo sobre o Humberto Delgado, juntamente com o Alfredo Caldeira (que também esteve na Comissão de Extinção da PIDE) e mais tarde alguns escritos do Professor Fernando Rosas, todos deram credibilidade a esta versão, integrando-a naquilo a que chamaram o processo de globalização da PIDE.

4. É público que as forças da NATO cooperam hoje, nos seus terrenos de operações, como o Iraque ou o Afeganistão, com empresas de segurança privadas. Os agentes destas empresas são os novos mercenários ao serviço da NATO. Tem conhecimento da existência de redes activas do tipo da Gládio?

Não, não tenho conhecimento, mas tenho lido coisas, que aliás estão aí, disponíveis para todos: livros, relatórios, notícias, estudos sobre este assunto… Muito disto precisa ainda de ser credibilizado por documentos, enfim. Mas uma organização que nasceu com estes objectivos, não se dissolve na democracia numa determinada fase da sua vida.

Embora não tenha nenhum conhecimento que me permita sustentar que persistem este tipo de organizações… acredito mais facilmente que existem do que acreditaria se me dissessem que o Pai Natal existe ou que existem bruxas.

Entrevista por Sofia Roque.


* João Paulo Guerrapublicou recentemente “Romance de uma conspiração”, o seu primeiro romance. O seu percurso profissional desenvolveu-se em torno da área do jornalismo, tendo-se dedicado também ao jornalismo de investigação. Iniciou a sua carreira no Serviço de Noticiários do antigo Rádio Clube Português, tornando-se depois redactor e editor da TSF. Um jornalista várias vezes premiado, João Paulo Guerra foi correspondente de vários jornais estrangeiros, colaborou com o Público e com O Jornal, foi redactor do Diário e, actualmente, é redactor-principal do Diário Económico. É também autor de outras publicações relacionadas com a Guerra Colonial portuguesa.

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