Está aqui

Enquanto não começa o FSM em Dakar

A poucos dias do início do Fórum Social Mundial, os movimentos sociais senegaleses procuram chamar a atenção para a iniciativa e vão lutando contra inúmeras dificuldades. José Falcão, do SOS Racismo, está no Senegal e partilha com os leitores do esquerda.net as suas notas de viagem.
José Falcão, do SOS Racismo, está no Senegal para participar no Fórum Social Mundial em Dacar. Foto Carla Luís


 

Bonjour Senegal, Dieuredief Dakar!

 

A caminho do Fórum Social Mundial e após 6 horas em trânsito no mais afamado aeroporto de Marrocos, estamos prestes a chegar ao Senegal.

Claro que esta espera é bem diferente das angústias dos refugiados, de todas e todos aqueles que tentavam sair do Continente Europeu passando por Lisboa, fugindo ao genocídio nazi... recordações cinéfilas que nos iam ajudando a passar o tempo... mas bem longe dos dramas da época. Casablanca ia ficando para trás e Dakar começava a ganhar forma, contornos, cheiros, cores, vida.

Claro que agora, a maioria das e dos que querem chegar a Paris, Londres, ou mesmo Lisboa, também não consegue o Livre Trânsito, e muito menos o faz através do Aeroporto. Mas não é de "pateras" que queremos falar agora.

Para nos receber nada melhor que um dos elementos da Associação Luso-Senegalesa (de Lisboa) já regressado ao seu país. E que bem nos soube ter o Paul à nossa espera pois a confusão na saida do Aeroporto, mais não era (ainda não o sabiamos) do que a antevisão dos próximos tempos.

Após conseguirmo-nos desenvencilhar das questões aduaneiras (com a facilidade que poucos senegaleses encontram em Lisboa) e antes de chegar a casa de outro amigo que nos ia albergar nos próximos dias, ainda tivemos que empurrar o carro várias vezes até o convencer a levar-nos a casa. Apesar de serem duas da manhã e sabendo que naquela casa a Alvorada é bem cedo, os sorrisos com que somos recebidos fazem esquecer a preocupação pelo incómodo que  causamos.

No dia seguinte, no "Centro de Operações"  do Fórum Social Mundial. de Dakar, tratamos das inscrições e começamos a sentir o fervilhar da organização. Dezenas de activistas de um lado para o outro, de um computador para outro, de uma conversa para um sorriso ou abraço mais caloroso por ver esta ou aquela pessoa deste ou de outros Fóruns ou reuniões.

E quando, de entre muitas outras especificidades, começam a falar dos cortes de energia, dos problemas de transporte, começamos a perceber que aquilo que vamos fazendo nos nossos paises de origem, quando refilamos com as contrariedades que nos surgem pela frente, nada é comparado com o que passam estas e estes activistas, estes revolucionários, para pôr de pé o segundo Fórum Social Mundial no Continente Africano.

Não é que se queixem, bem pelo contrário. não têm tempo para isso.

Mas quando estamos numa das muitas reuniões preparatórias em que pudemos participar, e falta a luz... e não sabemos se por 5 ou 50 minutos ou mesmo um dia inteiro, começamos a dar-nos conta das dificuldades... À luz da vela esperando que as baterias dos computadores aguentem mais esta contrariedade a acrescentar aos muitos entraves que o Governo tem colocado, muito preocupado com a mossa que o Fórum já esta a fazer, sabemos que não é preciso esperar pelo Forum para perceber que já é um sucesso.

De facto, não temos que esperar pelo início oficial para perceber que este continente tão afastado da vida política quotidiana (a "política" só ocorre nos países "importantes") não se limita às tragédias que as Agências de Informação nos estão sempre a impingir.

Além dos genocídios e das guerras que não acabaram (longe vão os tempos da Grécia antiga), da fome, da miséria (que continua a aumentar), dos atentados diários aos Direitos Humanos (que persistem), as e os habitantes destes países, as e os trabalhadores figurantes de milhares de Telejornais, se tornaram actores efectivos da Historia.

Muitas e muitos revolucionários, sindicalistas, "simples" activistas, estão efectivamente a ser motores de uma outra Historia que tarda a romper o silêncio dos órgãos de informação, mas que se desenvolve mesmo à nossa frente .

Basta querer ver: estes revolucionários estão a tentar levantar um continente inteiro.

Para se ter uma pequena ideia desta coragem: uma simples viagem de 200/250 Kms pode significar uma "estadia" de 8/9 horas dentro do pequeno bus onde vão estar 18 ou 20 pessoas. Autocarros que nem num estaleiro do ferro-velho conseguimos encontrar em tão mau estado, mas que lá vão transportando dezenas de milhares de senegaleses e não só (fizemos uma viagem destas entre duas das principais cidades). Para nós tratou-se de uma viagem "sociológica"; Mas para aqueles que tem que fazer isto todos os dias... e para quem tem feito milhares de Kms a promover o Fórum por todo o pais... E então que dizer das várias caravanas de dezenas de autocarros que tem vindo a atravessar estes países para chegar a Dakar, levando a informação onde seria impossível de outra maneira?

Camarões, Togo, Mali, Marrocos, Gambia, Congo, etc. tem sido atravessados por activistas que, para além de sofrerem com a situação das estradas ainda enfrentam dezenas, sim, dezenas de controlos fronteiriços e policiais.

As Mulheres organizaram nos últimos 3 dias actividades a cerca de 200 Kms, noutra importante cidade (Kaolack) e vão dirigir-se depois para a Capital a tempo de participarem na Marcha de Abertura do Fórum que se realiza no próximo Domingo.

Ao mesmo tempo em Gorée (vila historica por ser o principal porto de embarque dos escravos que vinham do interior do Continente para serem deportados para as Américas) entre 2 e 4 de Fevereiro, as e os Migrantes faziam História: culminando um trabalho de debates e discussão por todos os Continentes, era aprovada a CARTA MUNDIAL DOS MIGRANTES.

Muitos outros Fóruns e reuniões decorreram ou continuam a desenrolar-se até ao dia 6 de Fevereiro. Mas uma das principais novidades para todos aqueles e aquelas que se preocupam com a organização da luta social tem sido o desenvolvimento da organização dos vendedores ambulantes. Esta experiência que junta milhares de vendedores ambulantes e que tem quase um milhar de activistas espalhados por todo o pais agrupados na associação SY.MA.D (Synergie des Marchands pour le Developement), vai desenvolver um programa proprio dentro do Fórum com uma serie de actividades. ..é um exemplo bem forte que as e os pobres do Senegal dão ao Movimento Sindical.

Tivemos também a oportunidade de participar, no Domingo passado, numa reunião que se desenrolou a 20 Kms do Centro da cidade, num dos bairros da periferia desta bem grande cidade - MALIKA. Organizada por revolucionários ligados à 4° Internacional, juntou dezenas de activistas durante 5 horas para discutir as relações entre os partidos e o Movimento Social. Esta reunião era dirigida pelo presidente do Bloco Nacional dos Pastores Autênticos do Senegal.

Mulheres, jovens (assistimos a varias concentrações e manifestações de estudantes no âmbito do Fórum), sindicalistas, revolucionários, intelectuais, migrantes...todas e todos a chamar a atenção para este evento mundial. As e os revolucionários senegaleses partem para todo o pais e vão organizando seminários, encontros, reuniões, marchas e, com os activistas dos outros países, caravanas, como já referimos acima.

O Fórum começa agora... Será um sucesso...só pode ser um sucesso. Se, nestas condições, todas e todos aqueles que tem vindo a trabalhar neste pais, conseguem pôr de pé o FSM, o movimento social no Continente africano não será o mesmo. Se o "resto" do Planeta pode mudar e se outro mundo é possível, não custa "nada" tentar, não "custa nada sonhar", como foi varias vezes afirmado pelos migrantes em Gorée!

É este o solho que é preciso ver com os olhos bem abertos! É este o sonho que é necessário continuar a construir com todas as forças que estão dispostas a fazê-lo! É este sonho que é fundamental manter!

Estaremos dispostos a isso?

 

José Falcao, em Gorée, Dakar

Artigos relacionados: 

Sobre o/a autor(a)

Dirigente da Associação SOS Racismo
Termos relacionados FSM2011, Internacional
(...)