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Em nova reviravolta, Bolsonaro insiste em desvalorizar crise do coronavírus

Presidente do Brasil interrompeu o período de 7 dias de isolamento que anunciara, por ter sido exposto ao coronavírus, e passou duas horas a confraternizar com adeptos, insistindo que pandemia “não é isso tudo que dizem”. Manifestações de extrema-direita foram muito fracas. Por Luis Leiria.
Bolsonaro passou duas horas a apertar mãos e tirar fotos dos telemóveis dos manifestantes. Foto José Cruz, Agência Brasil
Bolsonaro passou duas horas a apertar mãos e tirar fotos dos telemóveis dos manifestantes. Foto José Cruz, Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro rompeu com todas as orientações que o seu governo tem dado para conter o avanço do coronavírus no Brasil e participou da manifestação realizada em Brasília contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal e em defesa do governo de ultradireita. Bolsonaro ficou quase duas horas a cumprimentar manifestantes e pegar nos seus telemóveis para tirar selfies, sem qualquer preocupação com a possibilidade de estar a contaminar os seus apoiantes ou de poder ser contaminado por eles.

A possibilidade de Bolsonaro ter sido contaminado decorre da sua recente visita do presidente aos Estados Unidos e que teve um resultado devastador na sua comitiva. O secretário de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, contraiu a doença e transmitiu o coronavírus a pelo menos mais seis pessoas da comitiva presidencial e ao presidente da câmara de Miami, Francis Suárez. Poderia ter contaminado o próprio Trump, mas o teste deu negativo.

Bolsonaro anunciou sexta-feira que o seu teste foi igualmente negativo. Apesar disso, nunca foi apresentado o relatório médico desse teste e, pior, o filho Eduardo chegou a dizer à Fox News que o resultado fora positivo. A Presidência informou naquele dia que Bolsonaro ficaria em isolamento durante sete dias, quando então faria outro teste.

Bolsonaro, de máscara, ao lado do ministro da Saúde, pediu o cancelamento das manifestações pelo perigo de contágio massivo. A preocupação durou menos de 48 horas
Na sexta-feira, Bolsonaro, de máscara, ao lado do ministro da Saúde, pediu o cancelamento das manifestações pelo perigo de contágio massivo. A preocupação durou menos de 48 horas

O isolamento, porém, não chegou a durar 48 horas. Não contente com descumprir todas as orientações do seu próprio governo, que recomenda explicitamente que se evitem apertos de mão, aglomerados de pessoas, etc., Bolsonaro mais uma vez desvalorizou a gravidade da pandemia, afirmando que esta está superdimensionada. Em São Paulo, manifestantes pró-Bolsonaro afirmaram que o coronavírus é uma mentira usada para cancelar as manifestações de extremaa direita. “Temos medo é do comunavírus”, afirmaram.

Festival de trapalhadas

As manifestações em S. Paulo, Rio, Belo Horizonte, Brasília e outras cidades tiveram dimensão muito reduzida. Claro que os organizadores têm a desculpa de que estas foram desconvocadas pelo próprio Jair Bolsonaro. Na sexta-feira, Bolsonaro apareceu numa transmissão ao vivo pela internet usando uma máscara de proteção e pediu aos organizadores que cancelassem as manifestações devido ao perigo de contágio, evitando “que haja uma explosão de pessoas infetadas, porque os hospitais não dariam vazão a atender tanta gente”.

Foi a primeira vez que pareceu dar importância à pandemia. Nos dias anteriores repetira que “o poder destruidor desse vírus” estava a ser superdimensionado, que era uma “fantasia”, e que “o que eu ouvi até o momento [é que] outras gripes mataram mais do que esta”. Isto foi no dia anterior a ter aparecido com máscara e preocupado com a contaminação nas manifestações. Mas essa preocupação durou apenas um dia. No domingo, o mesmo presidente não só exultava com as manifestações como se misturava com os seus integrantes despreocupadamente.

Diante de tantas intervenções contraditórias, fica a dúvida se o apelo ao cancelamento das manifestações não terá sido motivado pela avaliação de que a mobilização estava fraca.

O apelo ao cancelamento foi criticado pelos bolsonaristas mais fanáticos, que se insurgiram e criaram a tag #DesculpeJairMasEuVou. O próprio inspirador de Bolsonaro, Olavo de Carvalho, manteve a convocatória, dizendo que “cancelava o cancelamento”.


Manifestação em Brasília teve pouca participação

Mas os “canceladores do cancelamento” foram poucos e realizaram manifestações pífias. Em S. Paulo, por exemplo, os manifestantes só ocupavam um quarteirão da Av. Paulista, e mesmo assim bastante espaçados. Mas chamou a atenção o regresso dos cartazes pedindo intervenção militar, e os ataques ao Congresso Nacional e ao STF.

Casos confirmados cresceram 60% num dia

Já tinham terminado as manifestações quando foi divulgada uma atualização da incidência da pandemia no Brasil: subiu para 200 o número de pacientes confirmados com coronavírus. De sábado para este domingo, houve um aumento de 79 casos confirmados, mais de 60%. Ainda há 1.913 casos suspeitos.

A irresponsabilidade de Bolsonaro torna mais difícil a aplicação de medidas efetivas contra o alastramento do coronavírus. Como alguém vai aceitar medidas drásticas para controlar a expansão da doença, se o próprio presidente descumpre as orientações do seu ministro da Saúde?

Para Fernando Haddad, candidato do PT à Presidência que disputou a segunda volta das eleições presidenciais com Bolsonaro, o presidente desconsiderou as recomendações das autoridades sanitárias para celebrar manifestação que pede fechamento do Congresso e do STF. “Se não é caso de impeachment, é de interdição. Postura lastimável!”

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, divulgou nota em que ressalta que no momento em que há “um esforço global para conter o vírus e a crise”, no Brasil, “o presidente da República ignora e desautoriza o seu ministro da Saúde e os técnicos do ministério, fazendo pouco caso da pandemia e encorajando as pessoas a sair às ruas”.

Evangélicos desvalorizam ameaça

O desprezo pelas consequências da pandemia de coronavírus no Brasil não é exclusivo de Bolsonaro. Um vídeo de Edir Macedo, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e dono da rede Record de televisão, mostra atitude semelhante. Diz Macedo no vídeo: “Meu amigo e minha amiga, não se preocupe com o coronavírus. Porque essa é a tática, ou mais uma tática, de Satanás. Satanás trabalha com o medo, o pavor. Trabalha com a dúvida. E quando as pessoas ficam apavoradas, com medo, em dúvida, as pessoas ficam fracas, débeis e suscetíveis. Qualquer ventinho que tiver é uma pneumonia para elas”, diz Macedo no vídeo que circula na rede social.

O pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), afirmou que vai manter as suas igrejas abertas, apesar das orientações de evitar aglomerações. Referindo-se ao coronavírus, disse tratar-se de uma ameaça real, mas: “Você tem que tomar muito cuidado para não entrar numa neura louca”.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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