Lutas

Em Lisboa, uma multitude de causas convergiu na marcha pela libertação de todas as mulheres

08 de março 2025 - 18:07

Marcha pela libertação de todas as mulheres juntou coletivos feministas, antirracistas, migrantes, internacionalistas e pela habitação, pela igualdade entre géneros e com "orgulho feminista".

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Manifestação do 8 de Março em Lisboa
Manifestação do 8 de Março em Lisboa. Fotografia de Rafael Medeiros.

Foi um percurso marcado pelos avanços e recuos da chuva. A marcha pela libertação de todas as mulheres em Lisboa partiu do Marquês de Pombal e foi avançando sem tréguas até ao Rossio. Pelo caminho, diferentes mensagens marcaram os cartazes, pancartas e faixas da manifestação, mas todas convergiram na luta pela igualdade das mulheres.

Logo à cabeça da manifestação há uma faixa onde se lê “Não tirem as crianças a quem não tem casa”. O grupo que ali se junta está em solidariedade com Ana Paula dos Santos, uma mulher que, com três filhos e sem alternativas habitacionais, recorreu à auto-construção para ter um sítio onde habitar. Mas foi despejada pelo Estado e agora vive numa situação de recurso numa pensão.

“Mandaram-me para a pensão, estou grávida, e dizem-me que quando tiver o bebé não posso voltar para a pensão”, diz Ana Paula ao Esquerda.net. Segundo foi avisada, não a deixarão sair do hospital com a criança se não tiver uma casa para voltar, e não deixarão as outras crianças ficar sozinhas na pensão enquanto estiver no hospital. Por isso, a ameaça é de que lhe tirem as crianças.

Ana Paula está à procura de casa. “Quando mando mensagem ou ligo para os senhorios, dizem-me que como não sou portuguesa o imóvel não está disponível”, diz a mãe de três. “Está difícil, ainda por cima querem as rendas, a caução, um fiador português”. Esta situação é “impossível” e “muito estressante”, segundo a própria. “Com o salário que se recebe não consigo arranjar alternativa”.

Manifestação 8 de março
Manifestantes na Marcha pela Libertação de Todas as Mulheres, no 8 de março. Fotografia de Rafael Medeiros.

Por isso se juntaram os movimentos pelo direito à habitação, como a Habita, ao movimento feminista, para dar destaque ao caso de Ana Paula. É o exemplo de uma das intersecções de luta que se vão constituindo ao longo da marcha, onde também estão presentes movimentos anti-racistas, de imigrantes, climáticos e partidos políticos.

Um pouco mais atrás estão os coletivos feministas, articulados com outras plataformas como a Assembleia Argentina Não Se Vende, um coletivo composto sobretudo por mulheres e que marcha em Portugal com uma mensagem internacionalista. A assembleia nasceu em Lisboa, em 2023, e organiza-se para denunciar a situação na Argentina. Marta Fanti, uma das organizadoras, vive em Lisboa há quatro anos e diz que “há coisas que são transversais às culturas”.

“Na Argentina há muita gente em risco porque estão a passar leis por fora do congresso e as leis do aborto e de educação sexual estão em risco”, explica. “São retrocessos contra os quais lutamos”, como em Portugal onde “ainda há muita violência de género e desigualdade”. Essa desigualdade encara-se, segundo Marta, com organização. “Os movimentos feministas têm de crescer, precisam de mais experiência e práticas de intercâmbio, em contacto com outros movimentos sociais, sem medo de ocupar esse espaço político”.

Ao lado desses coletivos marcha Paula Teixeira. Veio à manifestação e trouxe a filha, “que gosta sempre de vir”. “O dia 8 de março é o dia dos direitos das mulheres”, diz. “É hoje mais do que nunca importante estar presente, devido ao crescimento da extrema-direita”.

Paula defende que “é preciso deixar de ter vergonha de sermos livres, de virmos a uma manifestação, de sair à noite”. “Há muito para combater e muito para lutar”, especialmente em Portugal onde “é preciso conciliar o trabalho com a família e com a educação dos filhos, e quem faz isso são as mulheres, que fazem duas ou três jornadas de trabalho”.

“Orgulho feminista contra a extrema-direita”, diz Mariana Mortágua

No final da manifestação, marcham o Bloco de Esquerda e os restantes partidos. A segurar a faixa estão várias dirigentes bloquistas e a coordenadora nacional do partido. “Conquistou-se muita coisa”, diz aos jornalistas Mariana Mortágua. “Mas é preciso garantir igualdade salarial, direitos concretos na habitação, que afeta muito mais as mulheres, na crise dos cuidados, por exemplo”.

“E há direitos que foram conquistados na lei mas que não estão a ser cumpridos”, afirma a dirigente do Bloco de Esquerda. É o caso da lei do aborto onde há uma falta de “garantia de qualidade e de acesso aos serviços públicos”.

Mariana Mortágua na manifestação do 8 de março
Mariana Mortágua na manifestação pela libertação de todas as mulheres, no 8 de março de 2025. Fotografia de Rafael Medeiros.

A coordenadora nacional do Bloco de Esquerda sublinhou que os direitos humanos e os direitos das mulheres são dos primeiros a ser atacados quando a extrema-direita avança. “À medida que a extrema-direita vai avançando, as primeiras vítimas são as mulheres, no acesso à saúde, aos direitos sexuais e reprodutivos, à diversidade”.

Por isso, Mariana Mortágua diz que é importante estar na rua com “orgulho feminista contra a extrema-direita” e contra o avanço do ódio contra a solidariedade.