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Em Caxias, barricámo-nos na cela e iniciámos uma greve de fome

A greve prolongou-se por sete ou oito dias. Recusámos receber comida e pusemos de parte tudo o que nos tinha sido enviado pelos familiares. Era uma coisa “a sério”. Todas as celas aderiram à iniciativa. Por Ramiro Morgado.
Ramiro Morgado à saída da prisão de Caxias, 27 de abril de 1974.
Ramiro Morgado à saída da prisão de Caxias, 27 de abril de 1974.

 

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


Sempre soube que poderia ser preso. Estava ligado ao PCP desde 1958. Fazia trabalho de propaganda e agitação nos bairros operários da zona oriental de Lisboa. Nunca estive na clandestinidade, mas passaram por minha casa clandestinos, como o Manuel Pedro. Também dei guarida a malta do ML. Além de que, tendo participado em iniciativas públicas, a PIDE saberia, pelo menos, que eu era um democrata.

E, quando passei a integrar a A.R.A. (Ação Revolucionária Armada), sabia que corríamos sempre riscos. Na A.R.A. participei diretamente na execução na sabotagem da Base Aérea de Tancos, em março de 1971, com o fornecimento de fardas e o apoio na retaguarda com o carro, porque poderia ser necessário, e nos cortes à rede elétrica primária em Santarém, em junho de 1971, e em Alverca, em agosto de 1972. Em 1970, participei nos trabalhos de reconhecimento e preparação da operação que resultou nas explosões do navio Cunene. Tive as mesmas tarefas em 1972, aquando da operação de destruição de armamento destinado ao navio Muxima, na doca de Alcântara.

A prisão acabou por chegar

Fui preso a 27 de março de 1973, com 33 anos. Foram buscar-me ao trabalho, a Dialap, onde hoje se encontra a sede da RTP, e levaram-me para Caxias. Ao todo estive preso um ano e um mês. Até à madrugada de 3 para 4 de abril estive, em contínuo, de pé. Nunca me deram uma cadeira. Apenas os pides, que se iam revezando de quatro em quatro horas, tinham direito a sentar-se. Eu andava constantemente pela sala, para não adormecer e cair no chão. As torturas endureciam à noite, e estavam a cargo do chefe de brigada daquela altura, o Capela. Apenas na primeira ou segunda noite entrou na sala um homem pequenino, de fato azul, que me disse: “Então, camarada Magalhães, foi lá em Moçambique que aprendeu a ser guerrilheiro?”.

A partir desse momento, passei o tempo a pensar sobre o que é que eles saberiam sobre mim e quem é que lá me meteu. Magalhães era o meu pseudónimo do Partido [PCP] e não o da A.R.A. O Manuel Pedro tinha sido preso cerca de quatro anos antes, quando eu ainda era o Magalhães, e não fui lá parar nessa altura. Entretanto, passou por lá esporadicamente o Lindolfo. Daí concluí que tivesse sido o Lindolfo a denunciar-me, porque ele também só me conhecia por Magalhães. Mais tarde pude confirmar esta suspeita ao consultar o meu processo na Torre do Tombo. Depois a minha preocupação era saber o que é que já lhes tinham dito. O Lindolfo saberia que eu tinha passado para a A.R.A., mas com certeza não saberia mais nada sobre as nossas atividades.

Um dia, os pides apareceram na sala com um texto para eu assinar, garantindo que assim poderia sair dali. Percebi que estavam a tentar incriminar o Raimundo Narciso, por isso, dei uma palmada nas folhas e aquilo caiu logo ao chão. Arraiaram-me de imediato. Os quatro pides levaram-me para a cadeira que estava na sala e voltaram a pedir para eu assinar o documento. Recusei novamente. Arraiaram-me até eu perder os sentidos. Estive cerca de 20h numa espécie de coma. Quando acordei, tinha à minha volta um médico da pide, um tal Barata, que mais tarde vi com um emblema dos Pupilos do Exército, um enfermeiro madeirense e um guarda. Vim depois a saber que me tinham posto gelo na cabeça. A violência a que fui sujeito foi denunciada num relatório da Comissão Nacional de Socorro aos presos políticos, datado de maio de 1973. Fiquei sozinho cerca de três meses naquela cela muito pequena com dois beliches e uma casa de banho que dava para as traseiras de Caxias. Só conseguia ver uma rampa de terra. Não podia comunicar com ninguém, não me deixavam ter nada para ler. Passava os dias e as noites a tentar perceber como é que tinha ido ali parar e o que é que os pides sabiam. Não me entretinha com nada, não me conseguia livrar daquela obsessão.

Entretanto, mudaram-me para uma cela com mais presos onde existia uma janela. Se nos pendurássemos, víamos uma rampa e algumas árvores ao longe. Éramos sempre uns seis ou sete. Passou por lá o António Perez Metelo, o João Duarte Carvalho, o Sebastião Lima Rego, do MRPP, secretário-geral da REPAC, o Rui Rodrigues e um puto, o Ponte, do ML, o Simões, do PCP, o Amado Silva, o Carlos Coutinho, eu e o Manuel Guerreiro da A.R.A, o Armindo, dos comités anticoloniais, o Manuel Abraços e o Ramiro Raimundo da LUAR, entre outros. Entravam uns, saíam outros… Esteve também o Joaquim dos Santos Caetano, de Silves, acusado de ser "ajudante de bombista". Tinha estado preso em Angra do Heroísmo e depois viveu vários anos em Marrocos. Decidiu voltar quando o Marcelo Caetano assumiu o poder, achando que as coisas seriam diferentes. Acabou por ser preso. Quando foi torturado rebentaram algumas veias dos seus pés e os pides, com medo que ele morresse, mandaram-no primeiro para o isolamento e depois para a nossa cela. Depois de dois ou três meses acabaram por libertá-lo. Voltou para Silves.

Neste período fiquei a saber que fui preso um mês depois dos outros membros da A.R.A. E que, inclusive, alguns tinham sido previamente avisados para que pudessem fugir. Fiquei revoltado por ninguém me ter avisado, a mim e ao Manuel Guerreiro. Depois de seis ou sete meses preso, tivemos acesso a livros, porque o Amado estava a estudar, em Agronomia. Eu também comecei a estudar, para fazer o ADOC a Letras. Na altura tinha o curso industrial. Cabia-me quase sempre a mim, e ao Coutinho, assegurar as transmissões. Contactávamos com as outras celas, lembro-me que numa delas estava o Rafael, da LUAR. Em cima, estavam presas a Maria José Morgado e a Helena Vidal, mas com elas não conseguíamos comunicar.

Durante o tempo em que estive preso, os meus colegas da Dialap fizeram uma coleta todos os meses para assegurar o meu salário. E, no Natal, quando a empresa disse que só daria a prenda à minha filha quando eu saísse da prisão, juntaram-se e compraram-lhe um presente. Nunca me esquecerei disso. Da solidariedade de todos eles.

Com o espancamento, e as quedas durante a tortura, fiquei com uma paralisia parcial do lado direito. O relatório enviado ao tribunal diz que eu tinha uma “discopatia degenerativa”, mas foi tudo resultado da violência a que fui sujeito. A Maria Emília, minha mulher, foi ao "República" falar com o José Jorge Letria, que era meu amigo. Ele lançou, lá no jornal e entre os jornalistas, um abaixo-assinado para que um médico me fosse ver. No Técnico exibiram cartazes. Houve uma boa mobilização. Em novembro de 1973, agarraram em mim e levaram-me para o Júlio de Matos para fazer exames. A seguir, puseram-me na Penitenciária. Foi o castigo por pedir para ser visto por um médico.

A Penitenciária era pior do que Caxias

Aquilo era pior do que Caxias. O que vale é que só lá estive onze dias. Pela Penitenciária passaram, noutras alturas, o Cunhal, o Galvão, o Varela Gomes… Fiquei no anexo psiquiátrico da Penitenciária. Era um edifício em L: Tinha um corredor com cinco ou seis pequenos curros, onde eu estava, cujas traseiras davam para o atual Palácio da Justiça. Metade da parede do corredor por onde eu circulava quando saía do curro era preenchida por quadrados em acrílico, e um deles estava meio partido, o que me permitia espreitar para um pátio em forma de triângulo. Do outro lado do pátio estavam instalações da Penitenciária, inclusive, se não me engano, uma oficina de recauchutagem. No final do corredor havia uma porta que dava para o vértice do L, onde estava o guarda. Depois disso, outra porta para a enfermaria. Estávamos isolados dentro da Penitenciária. Na parede do meu curro estava escrito, com letras muito pequeninas, “Esteve aqui Henrique Galvão”. Estava tudo muito sujo. O pequeno espaço tinha uma lâmpada muito fraca lá no alto, que o guarda só acendia durante o dia, quando me ia entregar a comida. A porta era blindada e eu tinha apenas uma fresta para respirar. Havia um lavatório que funcionava com uma mola, só me permitindo lavar uma mão de cada vez, com um pequeno pedaço de sabão. Não tinha direito a toalha, e a “sanita” era um balde sem tampa. Uma vez por dia, o guarda abria a porta e levava-me pelo corredor para eu poder despejar o balde num buraco que lá tinham. Mais tarde, soube que os restantes curros, que estavam vazios, eram utilizados para colocar os doentes mais agressivos ou agitados antes de os passarem para a enfermaria. Duas vezes por semana, o guarda levava-me ainda a tomar banho com água gelada em pleno inverno. Não tinha roupa para mudar, sacudia o que tinha.

Não tinha direito a toalha, e a “sanita” era um balde sem tampa. Uma vez por dia, o guarda abria a porta e levava-me pelo corredor para eu poder despejar o balde num buraco que lá tinham. 

Estava autorizado a ir uma vez por dia para o corredor. Ao espreitar pelo quadrado de acrílico partido, conseguia ver 20 ou 30 homens, que estavam internados na enfermaria, a andar no pátio, o tal espaço em forma de triângulo. A única vez que deixaram entrar algo para mim foi um pacote de maços de tabaco e laranjas. Uma mulher da minha terra, a Emília Silvério, andou a apanhar caracóis para me comprar o tabaco. Acabei por dar tudo ao pessoal. Um rapaz novo, da Força Aérea, que estava preso na Penitenciária e fazia de enfermeiro, ia lá uma vez por dia levar-me os comprimidos. Um dia disse-me que “um gajo da minha terra”, o Sabu (Wilson), estava lá preso. Quando eu estava no corredor, junto ao quadrado de acrílico partido, o Sabu cumprimentava-me a partir da oficina de recauchutagem, do outro lado do pátio. Um homem internado na enfermaria, que andava por ali, falava comigo sempre que podia. Dizia-me que íamos “marar”, porque quem era enviado para ali era para “marar”. Depois seguia. O “mal dos pombos vai passar para a gente”, disse-me noutro dia, olhando para os pombos mortos que estavam num pequeno telheiro. Não parava de andar. Tinha uma lata de ferrugem, muito suja, que me passou pelo acrílico. Ofereceu-ma como sendo um cinzeiro, mas eu tinha-lhes dado todo o tabaco… Quando estavam no recreio perguntavam entre si: “Já foste ver o homem, o político?”, que era eu. Paravam sempre para me cumprimentar através do acrílico. Como tinham rádio na enfermaria, souberam da prisão do Palma Inácio, e vieram avisar-me. Alguns tinham problemas mentais graves. Um deles corria de um lado para o outro e, de repente, atirava-se para o chão. Um dia fui levado para os serviços médicos da Penitenciária. O médico psiquiátrico, Dr. Saraiva ou Miranda (não me recordo bem) perguntou-se se eu era de Moscavide e se conhecia o António Costa e o José Gouveia, ao que lhe respondi que sim, que o primeiro era tio da minha mulher e o segundo tinha uma papelaria lá. Ele disse que me ia tirar dali, porque aquilo era pior do que Caxias. Foi uma sorte. Passados dois dias veio a carrinha buscar-me.

De volta à cela coletiva de Caxias, íamos todos juntos uma vez por dia, não me lembro se durante meia hora ou uma hora, apanhar um pouco de sol no topo do edifício. O espaço tinha cerca de três por cinco metros, creio eu, com um muro largo e alto a toda a volta, por onde circulava o guarda que nos vigiava. Corríamos, fazíamos ginástica ou jogávamos à bola com uns plásticos enrolados. Na cela entretínhamo-nos, essencialmente, a ler e a estudar.

Certo dia, os pides foram buscar o puto, o Ponte, e não o entregaram até à noite. Ele já estava no regime “normal”, mas voltaram a levá-lo para o Reduto Sul, para ser torturado. Barricámo-nos na cela e iniciámos uma greve de fome, que se prolongou por sete ou oito dias. Recusámos receber comida e pusemos de parte tudo o que nos tinha sido enviado pelos familiares. Era uma coisa “a sério”. Todas as celas aderiram à iniciativa. Até gritámos para o Palma, que estava preso num piso superior, a avisar que íamos entrar em greve de fome. Ele alinhou logo, sem saber sequer do que se tratava. Aí já não precisávamos das transmissões, gritávamos para comunicarmos com as outras celas. Durante esse período, chamaram-me para falar com o meu advogado. Recusei-me a ir. Quando devolveram o Ponte à cela, acabou a barricada e a greve de fome.

O dia da libertação. Prisão de Caxias, 27 de abril de 1974. Ramiro Morgado está encostado às grades, de punho erguido e garrafa na mão.

Vivi o 25 de Abril preso em Caxias. Fui um dos que Spínola não queria deixar sair, por fazer parte da A.R.A. Os presos revoltaram-se contra essa discriminação e avisaram que saíam todos ou não saía nenhum. Assim foi, saímos todos. Depois voltei à Dialap e continuei no Partido (onde me mantive até 1990) com responsabilidades na ligação aos militares.

Ramiro Morgado, 21 de maio de 2020. Foto de Mariana Carneiro.

Transcrição do testemunho de Ramiro Morgado, gravado em maio de 2020 por Mariana Carneiro

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