Cinema

Em Cannes, Paulo Carneiro tem ‘duelo ao sol’ com ‘A Savana e a Montanha’

19 de maio 2024 - 15:30

O Festival de Cannes recebe A Savana e a Montanha, terceira longa-metragem de Paulo Carneiro, filme-contestação que promete aquecer a Quinzena dos Cineastas. Em causa, está a dramatização, em modo western,do conflito entre a associação dos Unidos em Defesa de Covas do Barroso e a exploração mineira da britânica Savannah Ressources.

porPaulo Portugal

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Paulo Carneiro
Paulo Carneiro. Foto de Paulo Portugal/Insider.pt.

É clara e natural a ligação que brota do cinema de Paulo Carneiro. Como que registando a sua própria ontologia, devidamente refletida no ambiente natural que o rodeia. Assim foi em Bostofrio, où le ciel rejoint la terre, de 2018, onde o cineasta assumiu o papel de investigador da história do seu avô, procurando respostas entre os silêncios e os segredos do mundo rural de Boticas; veio depois Via Norte,estreado ainda em janeiro passado, onde Paulo retrata a realidade da emigração lusa, ao fim e ao cabo, a dos seus pais, refletida aqui no fascínio reluzente e ruidoso dos automóveis transformados, encarados como um elemento vistoso, mas também como uma como paixão, e até uma forma de superação social.

Em A Savana e a Montanha, Paulo Carneiro regressa ao concelho de Boticas, em Covas do Barroso, a região atualmente alvo de acompanhamento mediático, sobretudo desde a descoberta de minas de lítio, na verdade, as mais relevantes da Europa. É aí que entra em cena a Savannah Ressources, mas também a oposição dos transmontanos, estes muito mais preocupados com os seus terrenos, em risco de serem trocados pela mera possibilidade de potenciarem o aumento de produção de carros elétricos para o mercado europeu. É nessa clivagem que assenta o elemento de género western, por certo inspirado no humor festivo normalmente depositado nas comemorações carnavalescas. Algo ampliado até pelo registo de intervenção das canções e o talentoso acutilante do músico e intérprete Carlos Libo. Isto, por certo, apenas nas pausas do tratamento dos seus cavalos.

Apesar da inspiração festiva e fantasiosa, a verdade é que a comunidade de Covas do Barroso quer mostrar que não está ‘para carnavais’ e acaba por ‘levar a mal’ a dita disputa, assumindo-se, ela própria, como personagem do filme – como sucede aliás, nos filmes anteriores de Paulo Carneiro, em que o suporte documental apenas serve de base a uma história que o cinema suporta com o seu dispositivo. Algo assente em planos rigorosos, apoiados por uma representação natural, onde não parece ficar afastada uma dimensão marcada de representação, próxima a Manoel de Oliveira, de que o próprio Paulo Carneiro sente a devida proximidade. Só que Carneiro está, desta vez, fora da tela. Pois, para ele “a defesa é sempre do cinema”. Ou seja, fica o gesto da teimosia de cinema. Mesmo quando o seu filme não obtém o subsídio do ICA. Vamos ver então como corre este duelo ao sol de Cannes.

Imagem do filme A Savana e a Montanha

 

Estás preparado para o ‘showdown’ no dia 18, na Quinzena dos Cineastas, com A Savana e a Montanha?

Sim, estou. Mas muito lo-fi, muito tranquilo. Não tenho essa pretensão. Sabes que nunca fiz o filme a pensar ”um dia quero estar em Cannes”, percebes? Nunca tive isso. Então é tudo com naturalidade, como apresentar um filme num outro sítio. Claro que Cannes dá outra visibilidade e ajuda a dar voz ao coletivo e ao que se está a passar na região. Claro que estou contente, estamos contentes. Mas com os pés na terra. Vamos ver como são as reações internacionais. Em Portugal têm sido boas, felizmente. Acho que o filme é um bocado universal. Não é apenas um filme contra a exploração do lítio, é contra a burocracia.

 

Achas que este filme e esta presença em Cannes é mais uma conquista tua ou também um gesto de resistência das gentes de Covas do Barroso? Por um lado, é um filme, mas também uma causa. Entendes isso assim?

Sim, esse é um trabalho de equipa e uma forma de ter as pessoas connosco. Mesmo nos outros filmes, trabalho sempre com uma entourage muito pequena. Somos quatro pessoas, comigo incluído.

 

Eles já viram o filme?

Ainda não viram o filme. Estou a guardar a primeira vez para lá. Há uma construção geográfica, que é uma vontade de cinema, no sentido de fazer esse ‘jogo da mentira’. Eu acho que isso é bonito porque eles vão ficar surpreendidos e meio confusos. Mas é isso que é o cinema. É uma construção com eles. Eu tinha a intenção, sabia as ideias para cada cena, os diálogos muito definidos, mas que se iam adaptando. Lembro-me de uma cena em que a Aida diz qualquer coisa como “eles querem explorar para os países do norte andarem e carros elétricos, não querem saber da nossa aldeia”. Essa foi uma frase que foi ela que acabou por dizer. Portanto, há uma grande troca de ideias para a construção dos diálogos. Entra-se na luta e não se sai da luta. É como no cinema.

 

Este lado do western foi algo que foi surgindo ou já era uma ideia tua de partida, de entrar no género?

O filme começa por ser um documentário, mas também com muita ficção. Começo a perceber que há uma certa resistência a mostrar um lado muito frágil das pessoas. Porque esta luta em Covas do Barroso é muito se secretaria e eles já estavam a sentir-se muito impotentes. Foi então que decidimos fazer uma ficção, porque assim conseguíamos mostrar a força das pessoas. O western parte deles. As pessoas em Cova do Barroso são muito irónicas. Este ano, no desfile de Carnaval construíram um avião para criticar a TAP. Então foram eles que propuseram fazer esta alusão dos cowboys contra os indígenas. No fundo, pego nisso e amplifico e faço-o na relação das cenas umas com as outras. E vamos construindo todo esse universo que me interessava, porque, na verdade, no filme não há tiros, não é? É sempre uma ironia, ou seja, tentamos passar a forma de ser deles. Apesar de tudo, é bom conseguirmos rir-nos de nós próprios. Porque toda essa luta de secretaria é muito pesada. Sobretudo para alguém que está habituada a um trabalhão prático.

 

Acho que é isso que dá a força e a originalidade ao filme. Mas sentes que, hoje em dia, o cinema está mais atento a estas causas, por exemplo, temas sensíveis a direitos humanos? No caso do vosso filme e da questão do lítio, parece-me algo bastante contundente. Como vês a abordagem deste tema pelo cinema?

Eu continuo a achar que o que importa é o cinema. E há dez anos atrás, o que importava era isso. Mas hoje, o que importa é o tema, a história, apesar de não gostar nada dessa palavra. Nós tivemos alguma sorte por ser uma coisa do quotidiano, um tema que se está a discutir. Mas, para mim, a defesa é sempre do cinema. Não me interessam esses chamados filmes-tese. Vou sempre acreditar e defender que este filme não está a ser programado pelo tema. Pois, de outro modo, então prefiro que não programem. Acredito que o meu filme tem o cinema que merece ser programado. Acho até que estamos a ir para um lado perigoso com esta questão das quotas. Mas, se calhar, vamos perceber, daqui a vinte ou trinta anos, que é a arte que está a pagar isso. Pois parece que não é a arte que interessa, mas o que aborda a peça.

 

Ainda assim, a dimensão política e humana não pode ser descurada.

É um bocado perigoso o que estou a dizer, mas eu sinto isso. Acho que ainda devia importar o cinema. Parece que, muitas vezes, não importa. Neste caso, por acaso, é as minas do lítio, mas eu não fui à procura disso. Não estou a fazer filme a pensar como vou coser a minha carreira, entendes? Faço filmes porque tenho essa vontade. Tens o caso do Laurent Achard que tinha vontade de cinema e não filmava há mais de uma década, não arranjava meios para fazer os seus filmes, e acabou por morrer; tens também o Philipe Grandrieux, que fez um filme chamado Sombre (1998), muito bom, mas pela temática que aborda, a violência masculina, contra as mulheres. De repente, não tem financiamento, não filma. E é um grande realizador. Por causa desta questão do tema. Mas ele tem gesto, ele tem arte. É preciso começar a ter calma e encontrar um equilíbrio.

 

O que estás a dizer embate de frente com aquilo que queria perguntar. Estamos a falar de cinema e do que te mova para fazer um filme, mas, algo paradoxalmente, percebes que não tens apoio do teu próprio instituto de cinema.

Quando o ICA não apoia um filme que encontra o caminho de Cannes está tudo dito. Cannes não quer dizer que tens mais cinema ou tens menos cinema parece. Acho que estamos perigosamente a ir para o audiovisual. Isto quanto existe um percentual, definido por uma lei de prioridade do audiovisual europeu, que diz que cada país tem de ter um ‘x’ de percentagem para financiamento de obras audiovisuais. As pessoas estão todas muito loucas com esta ideia das séries. Tudo bem, mas as séries apareceram, não por causa da Netflix, mas porque os institutos de cinema começaram a financiar o audiovisual, a televisão. Em relação a isso eu não posso dizer nada, porque apresento um filme montado, praticamente o que Cannes viu, e fico quase em último lugar. Ou seja, não entenderam o filme. Nunca pensei ficar tão mal classificado. Mas começo a entender que é preciso ter alguma sensibilidade para entender este filme em condições e perceber que a personagem é o coletivo. Eu não respeito as normas do cinema ‘by the book’. Perigosamente estamos a ir para o audiovisual. O filme ficou quase em último lugar, 92º, num concurso em que se apresentam filmes que não tiveram apoio do Instituto do Cinema à produção. Acho que se pode ter um bocado de medo do filme, talvez por aquilo que aborda, e se calhar até para garantir a continuidade. Sabiam lá o que ia acontecer. Ainda nem tinha caído o governo.

 

O que acho que é importante é a teimosia…

Terceira longa metragem, sem apoio do ICA…

 

Talvez a quarta seja diferente (risos)

Sim, o próximo (Nha Terra) já tem financiamento para produção, apesar de ter sido dividido. Mas depois ganhei o Luso Francês, ganhei o Ibermedia, o Eurimages… Tenho assistido a várias ironias, porque um filme apoiado pelo Ibermedia e o Eurimages ter em Portugal um subsídio dividido… Tem sido difícil, mas não tenho medo nenhum. Vamos para a frente.

 

Como está o filme? O que faz sentido dizer agora? Quando é que poderemos vê-lo?

Como é que está? Eu queria estrear o filme para o ano. Filmei, fui montar. Como tenho co-produção com o Uruguai e a montagem é no Uruguai, começou-se a montar à distância, e como a montadora e o co-produtor uruguaio vêm a Cannes. Iremos trabalhar nele depois de Cannes, para poder voltar a filmar depois.

Publicado originalmente no Insider.pt.

Paulo Portugal
Sobre o/a autor(a)

Paulo Portugal

Jornalista de cultura e cinema, autor do site insider.pt