Eleições em Espanha: O dia após o dia seguinte

13 de junho 2023 - 21:25

O futuro de Sumar dependerá, em grande medida, do facto de governar ou não. Por outras palavras, a chave da operação Sumar dependerá do dia seguinte a 23 de julho. Nada está fechado. Por Manuel Monereo.

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Apresentação da coligação Sumar.
Apresentação da coligação Sumar. Foto Sumar/Facebook

Esperei pelo acordo entre Sumar e Podemos. A equipa de Yolanda Díaz tem excelentes expetativas eleitorais. O que é bom. Temos de lutar para ganhar, pelo menos tentá-lo. A vida quotidiana dos quadros e militantes das forças aliadas não parece muito feliz: sofreram muito e as feridas ainda estão abertas. Não há que lamentar o passado. O Unidas Podemos era o mesmo que o Sumar: uma coligação parlamentar sem programa e sem organizações de base unitárias. O que mudou foi a hegemonia interna: Sumar é tudo e Podemos é apenas o reforço de uma grande operação política. O paradoxo é que (quase) todos faziam parte do Podemos, a começar por Yolanda Díaz que, finalmente - a muito custo - está a construir a sua própria legitimidade sobre a derrota política de Irene Montero. Como diria um clássico: não viemos aqui para fazer amigos. E é mesmo assim.

Também não é altura de tentar falar da política grande ou de apontar os desafios do país, que, precisamente por isso, estão fora da agenda eleitoral. Espanha ou Sánchez, Feijoó ou Sánchez, estes parecem ser os grandes dilemas de umas eleições que se presumem decisivas. Sei que não é o momento, mas a conjuntura está determinada por três questões interrelacionadas:

a) O fim do ciclo do 15M e o triunfo da enésima restauração, sempre borbónica e constitucional. Já escrevi tanto sobre este assunto que não vale a pena continuar a sublinhá-lo. Apenas uma nota. O Podemos jogou, afinal, nos dois campos: com a rotura e com a restauração; a sua morte política exprime o fim dramático de toda uma geração que quis assaltar os céus e acabou por defender o governo de coligação com o seu principal adversário eleitoral, o PSOE;

b) A mudança lenta e constante da cultura política. O eixo de gravidade está a deslocar-se - a guerra acelera todos os processos - do "neoliberalismo progressista" para o liberalismo autoritário. Uma velha história que tem uma das suas origens num Carl Schmitt que defendia um "Estado forte e uma economia saudável", duramente criticado por um Hermann Heller que antecipava o futuro. Insisto, liberalismo autoritário e a sua incompatibilidade substancial com qualquer esquerda; esse é o modelo político que já está inscrito na "constituição material" de uma União Europeia virada para Leste, organizada e dirigida pela NATO, isto é, pelos EUA.

c) O esgotamento do governo de coligação PSOE/UP. A pandemia mudou muitas coisas. A insegurança e o medo tornaram-se uma segunda pele. As "elites" exigiam liberdade e o "big brother" confinou-nos às nossas casas à espera de uma covid que exigia o sacrifício dos mais velhos, dos nossos camaradas.  O ceifeiro tornou-nos diferentes.

Há que perguntar: ganhou o PP ou perdeu o governo de Pedro Sánchez? Mais uma vez - já aconteceu várias vezes - a direita unificada construiu uma "coligação negativa", juntando desilusões, rejeições, negações e ofensas reais ou imaginárias. Todos contra o governo social-comunista. Fala-se tanto em Gramsci e, na hora da verdade, esquecemo-nos de pensar em termos de blocos sociais, de construção de hegemonias na sociedade civil e de mudanças culturais significativas. O "escudo social" foi muito mais fraco do que o "escudo político" organizado molecular e difusamente pelas direitas nas redes sociais e nos espaços privados-públicos que ressignificavam e invertiam todas as medidas governamentais e as transformavam em matéria-prima para organizar a oposição geral. A (contra)hegemonia já existe em grande parte da sociedade, organizada em torno de uma ideia forte de segurança, de ordem e, sobretudo, de garantia de futuro. Pátria, família e lei. Como pano de fundo, o velho princípio monárquico.

Com o Vox, o eixo estruturante da política vira-se para a direita; todo o sistema se torna mais liberal-conservador e o anticomunismo torna-se a nova ideologia legitimadora. Democracia militante?  Certamente. Polarização? Sim, mas que polarização? Como dizia Page [1] no outro dia: o PP e o PSOE querem acabar com o centro, ou seja, o sistema político polariza-se nos extremos e o centro esbate-se. Um erro crasso: má geometria e má política. Quando todo o sistema se vira para a direita, as posições mudam e a esquerda desaparece do debate. Não é entre a extrema-direita e a extrema-esquerda que se estabelece o debate público. Há direita extrema e extrema-direita, o que não há é uma esquerda social-comunista em nenhuma das suas versões conhecidas. O verdadeiro confronto é entre os liberais-conservadores e os neoliberais progressistas. Polarização sim, mas assimétrica: da direita e contra a esquerda.

As direitas unificadas ganharam as eleições municipais e regionais, transformando-as num plebiscito contra o governo de Pedro Sánchez. A estratégia funcionou, mas o PSOE não só não se desintegrou como deu sinais de solidez e peso eleitoral. A tendência a favor do PP parece consistente, mas o PSOE vê uma hipótese, se não de ganhar, pelo menos de continuar a ser uma força política determinante na vida pública e impedir uma maioria sólida das direitas unificadas. O problema está à sua esquerda, no mundo do Unidas Podemos e no confronto entre Yolanda Díaz e Pablo Iglesias. Poderão as direitas obter uma maioria suficiente nas duas câmaras apenas com uma estratégia baseada na grande reprovação a Pedro Sánchez e num discurso eleitoral impugnador e essencialmente negativo? É possível. O Vox desempenha um papel essencial: branqueia o PP e não o contrário. Levanta os temas chave e coloca-os na agenda pública, defende sem complexos um programa liberal extremo e um nacionalismo espanhol perfeitamente compatível - quando é que não o foi? - com uma clara e férrea subordinação à política externa norte-americana e com a adesão a uma NATO que é sentinela e guardiã do Ocidente. A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni é um exemplo. Pode dizer-se que o Vox é, em muitos aspetos, o programa oculto do PP.

Fala-se muito do espaço comum do Unidas Podemos. Ele nunca existiu, nunca foi desejado. A UP era essencialmente uma coligação parlamentar que nunca chegou a ser uma aliança política estável, organizada e ligada aos territórios e às bases. A luta entre IU/PCE e Podemos aumentou exponencialmente quando o partido de Pablo Iglesias perdeu votos e referências organizativas. A proposta Sumar agravou todos os problemas e dividiu um espaço previamente dividido. As últimas eleições demonstraram-no claramente, ao ponto de Sumar ter sido entendido como uma operação contra a unidade do Podemos com a IU. Há aqui um problema por resolver, e não sabemos que importância terá no futuro: será que a unidade conseguida será capaz de ultrapassar as divisões dramáticas de há poucas semanas? Resta saber e dependerá do tipo de campanha eleitoral que for levada a cabo. Sempre pensei que Sumar é uma operação acordada por Yolanda Díaz e Pedro Sánchez. A chave é conseguir uma maioria suficiente para governar; de facto, o futuro de Sumar dependerá, em grande medida, do facto de governar ou não. Por outras palavras, a chave da operação Sumar dependerá do dia seguinte a 23 de julho. Nada está fechado.


Manuel Monereo é um advogado, cientista político e político espanhol. Foi militante do PCE e da IU e deputado da Unidas Podemos. O seu último livro é "Oligarquia ou democracia. España, nuestro futuro" (El Viejo Topo). Artigo publicado no blogue Otras Miradaslink is external). Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.

Nota:

[1] NT: Emiliano García-Page, líder do PSOE em Castilla La Mancha, um dos poucos governos que os socialistas não perderam nas eleições de 28 de maio.