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Yolanda Díaz: Quem é a ministra que quer ser alternativa ao PSOE?

Em duas intervenções públicas nas últimas semanas, em Valência e Barcelona, a ministra do Trabalho juntou figuras de várias organizações políticas e está a ser apontada como a líder de uma nova confluência à esquerda dos socialistas espanhóis.
Yolanda Díaz.
Yolanda Díaz. Foto La Moncloa/Flickr

Quando Pablo Iglesias abandonou o Governo espanhol para ir a eleições em Madrid, fez questão de sublinhar no vídeo de despedida que seria Yolanda Díaz a tomar o seu lugar na liderança da coligação. Nascida perto da Corunha em 1971, Yolanda nunca pertenceu ao Podemos mas foi ativa politicamente desde a juventude. Filha do antigo secretário-geral das Comisiones Obreras na Galiza, Suso Díaz, torna-se militante do PCE aos 14 anos. Licenciou-se em Direito em Santiago de Compostela e abriu escritório em Ferrol, onde foi autarca desde 2003, marcando o regresso do PCE à vereação. Quatro anos depois volta a encabeçar a lista à Câmara e duplica a representação para quatro vereadores, o que lhe permite assinar um acordo com o PSOE, com o apoio do Bloco Nacionalista Galego e tornar-se vice-presidente do município. Candidata da Esquerda Unida ao Governo da Galiza em 2009, só foi eleita nas eleições seguintes, em 2012, numa coligação com forças nacionalistas chamada Alternativa Galega de Esquerda. Aqui trabalhou com Pablo Iglesias, então assessor da coligação e que mais tarde contaria que aquela foi precursora do projeto do Podemos. Em 2015, Yolanda concorre às legislativas espanholas como candidata na coligação En Marea, com o Podemos e a Anova de Xosé Manuel Beiras. Quatro anos depois deixa a Esquerda Unida por divergências quanto à estratégia nas negociações para a viabilização do Governo, mas mantém-se no PCE. A crise obriga a novas eleições e a posição de Yolanda, favorável à presença da Unidas Podemos no Governo, concretiza-se com a sua nomeação para ministra do Trabalho.

À imprensa, diz que as palavras do dirigente máximo do Podemos no dia da demissão a apanharam de surpresa. “Sou amiga pessoal de Pablo Iglesias e não gosto nada da vida interna dos partidos”, afirmou na altura. Procurou sempre manter-se afastada da luta fratricida que desgastou a organização e que culminou na saída de Iñigo Errejón para fundar um novo partido. Essa distância revela-se agora útil para captar apoios por entre a formação do antigo nº 2 do Podemos, como Monica Garcia, a líder da oposição a Isabel Díaz Ayuso em Madrid, que apareceu ao seu lado no comício de Valência, tal como a anfitriã do encontro e nº2 do Governo valenciano, Monica Oltra, do Compromís, a edil de Barcelona Ada Colau e a deputada do Movimento pela Dignidade e Cidadania em Ceuta, Fátima Hamed.

“É o começo de algo que vai ser maravilhoso”, anunciou Yolanda ao milhar de pessoas que se juntaram no Teatro Olympia no passado dia 13. As dirigentes políticas sublinharam estar “fartas da crispação” na política espanhola e a sua vontade em “ouvir o país” longe do ruído das campanhas. Mas ao mesmo tempo tentaram afastar leituras sobre eventuais planos eleitorais para as próximas legislativas. Uma tarefa difícil e abafada pelos gritos de “Presidenta! Presidenta!” que ecoavam no Olympia. No entanto, era inevitável que uma outra leitura sobressaísse: a ausência de dirigentes do Podemos ou da Esquerda Unida no palco. Para Juan Carlos Monedero, politólogo e ex-dirigente do Podemos, “as ausências em Valência não são ausências do projeto. Isso queriam o Vox, o PP e os setores neoliberais do PSOE”. Monedero diz que ela está a fazer, “à sua maneira, a tarefa que lhe sugeriu Pablo Iglesias e que a atual direção de Unidas Podemos ratificou sem fissuras: Yolanda Díaz é candidata à Presidência do Governo e cabe-lhe a ela articular a resposta a esse desafio”.

Na semana seguinte, em Barcelona, a anfitriã foi Ada Colau no encerramento do Congresso do Catalunha em Comum. A imprensa diz que foram feitos convites às ministras Irene Montero e Ione Belarra, mas o Podemos fez-se representar pela secretária da organização, Lilith Vestrynge, a única das principais oradoras sem um cargo institucional. Pela Esquerda Unida, esteve o seu coordenador e ministro Alberto Garzón.  As atenções continuaram voltadas para Yolanda: “Se deres o passo para liderar o projeto de país, os comuns estarão contigo”, prometeu a “alcaldesa” a Yolanda Díaz, sossegando em seguida os militantes que a elegeram líder da organização ao prometer que o seu compromisso “é hoje e para sempre com a cidade de Barcelona”. Na resposta, Yolanda prometeu ser uma aliada “para sonhar um país que seja diverso, plural e que não deixe ninguém de fora”, elogiando a posição dos Comuns de apostar no diálogo. O partido encontra-se agora na posição decisiva para a aprovação do orçamento catalão - após a CUP ter anunciado o voto contra - tendo como possível moeda de troca a aprovação do orçamento municipal de Barcelona pela Esquerda Republicana.

A favor das suas aspirações políticas, Yolanda Díaz conta com um trunfo importante: a simpatia do eleitorado que a vê como uma negociadora eficaz, ao conseguir fechar vários acordos com patrões e sindicatos ao longo deste mandato com a pasta do Trabalho. Uma simpatia que supera mesmo a que os espanhóis têm pelo líder do Governo Pedro Sánchez (este tem 4,45 pontos numa escala de 10, atrás dos 4,76 da sua vice-presidente, segundo a sondagem do Centro de Investigações Sociológicas). Outra má notícia para o primeiro-ministro é que a popularidade da ministra comunista se está a aproximar da sua entre o eleitorado do PSOE (Yolanda com 6,10, Sánchez com 6,69) e há mesmo 18,6% de eleitores socialistas que declaram preferir que Yolanda estivesse neste momento à frente do Governo.

Dentro da coligação Unidas Podemos, já há quem coloque a questão se neste contexto não seria melhor para Yolanda sair do Governo. Num artigo de opinião, o ex-deputado Manuel Monereo diz que “cada vez que o fenómeno Díaz se fortalece, aumenta a preocupação no PSOE”, o que em negociações futuras trará mais dificuldades, numa altura em que a pressão europeia aumenta e os poderes económicos se reforçam. Nesse contexto, o conflito passa para dentro do Conselho de Ministros, o terreno menos favorável à Unidas Podemos. “Se intervéns publicamente, desacreditas o Governo e se te calas, acabas por fortalecer o PSOE. Isto já viveu Pablo Iglesias e no fim não teve outra escolha senão sair do Governo e até da política”, afirma o veterano politólogo, concluindo que a vice-presidente do Governo está obrigada a ganhar os debates da reforma laboral e das pensões e ao mesmo tempo construir programa, alianças sociais e eleitorais, “um projeto que requer dedicação, tempo e uma forte autonomia do PSOE”.

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