Espanha: Podemos entra na coligação à esquerda para as eleições de julho

10 de junho 2023 - 0:16

A coligação Sumar, liderada pela atual ministra do Trabalho Yolanda Díaz, apresenta-se como "o acordo mais amplo e plural entre forças progressistas e verdes" na história da democracia espanhola.

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Yolanda Díaz num comício da coligação entre Podemos e IU para as regionais valencianas
Yolanda Díaz num comício da coligação entre Podemos e IU para as regionais valencianas. Foto publicada na sua conta Twitter.

Esta sexta-feira terminou o prazo do registo de coligações para as legislativas espanholas de 23 de julho. E foi preciso esperar até ao último dia para se desfazer a dúvida que persistiu desde que Yolanda Díaz apresentou o projeto político Sumar num pavilhão em Madrid a 2 de abril. Nesse dia a intervenção da ministra do Trabalho a assumir que queria presidir ao próximo governo de Espanha teve de dividir atenções nos noticiários com uma ausência de peso: o Podemos não aceitou participar nessa festa de lançamento sem estarem definidas algumas condições, a começar pela sua exigência de se realizarem primárias abertas para as listas de candidatos da futura coligação.

Com o calendário eleitoral a ditar eleições municipais e regionais no final de maio, muitos dos partidos que integram agora a coligação Sumar - Podemos, Izquierda Unida, Catalunya en Comú, Más Madrid, Más País, Compromís, Chunta Aragonesista, Més per Mallorca, Més per Menorca, Verdes Equo, Alianza Verde, Batzarre, Proyecto Drago, Izquierda Asturiana e Iniciativa del Pueblo Andaluz - concorreram em listas diferentes, obrigando Yolanda Díaz a ter presença reduzida na campanha eleitoral.

O resultado da eleição fez acelerar o calendário, com a vitória da direita a levar o primeiro-ministro socialista a convocar eleições antecipadas. À esquerda do PSOE, o mau resultado do Podemos fez soar o alarme no seu eleitorado para a necessidade de unidade. Na consulta online realizada esta semana votaram 50 mil militantes e 92% a favor de avançar com um acordo. O prazo apertado para o registo das coligações impediu debates muito aprofundados e depressa se afastou a hipótese de realizar primárias, pois as listas terão de ser entregues até ao dia 19 de junho.

Mas o anúncio da entrada do Podemos na coligação foi tudo menos alegre. Numa declaração gravada em vídeo, a secretária-geral do partido, Ione Belarra, disse que o Podemos entraria na coligação, mas que o seu "principal ativo político", a ministra da Igualdade Irene Montero, tinha sido excluída das listas pela equipa de Yolanda Diaz, e no resto das listas nem sequer estava assegurada a presença do Podemos no próximo parlamento espanhol. O clima de tensão nas negociações ficou bem patente nos últimos dias, com acusações de vetos a candidatos do Podemos por parte de outros partidos.   

No momento de anunciar o acordo, a plataforma Sumar prefere sublinhar que ele "é o reflexo do esforço e da generosidade de forças políticas muito diferentes entre si".

"Trata-se do acordo mais amplo e plural alcançado em toda a etapa democrática em Espanha entre as forças progressistas e verdes. A pluralidade de Sumar é a pluralidade do país e queremos fazer disso um sinal de identidade desta coligação eleitoral, que constitui a principal alternativa para que a cidadania progressista recupere a esperança", afirma o comunicado que anuncia a coligação.

"Esquerdas pela Independência": bascos e catalães coligam-se para o Senado

O EH Bildu e a Esquerda Republicana da Catalunha anunciaram que irão concorrer coligados nas eleições para o Senado sob a sigla "Esquerdas pela Independência". Trata-se na prática de consolidar a experiência da legislatura que agora termina, em que os quatro senadores dos dois partidos constituíram um grupo próprio no Senado. Já no Parlamento, cada um dos partidos constituiu o seu próprio grupo, ao ultrapassar a barreira dos 15% dos votos nos círculos onde se apresentaram.

Em comunicado, apresentam a decisão de prosseguir um acordo "que significou avanços no bem-estar social dos nossos cidadãos e ma resolução dos conflitos catalães e bascos com o Estado espanhol que continuam abertos nos nossos povos".

"Todos os votos que recebemos, toda a confiança depositada em nós, fizeram com que os nossos deputados e senadores fossem decisivos ao longo desta legislatura. Mostrámos que a união política nos permite ganhar e oferecer avanços nos direitos e liberdades aos nossos cidadãos e cidadãs", afirmou o Presidente da ERC, Oriol Junqueras.

"Fomos as forças úteis e decisivas para a realização das conquistas sociais que, embora sem a profundidade e o alcance que gostaríamos, alcançámos melhorando a vida da maioria social e trabalhadora. E estamos certos de que voltaremos a sê-lo", afirmou por seu lado o coordenador geral do Bildu, Arnaldo Otegi.

Nas eleições municipais de maio, os dois partidos tiveram resultados diferentes: enquanto a ERC saiu penalizada pelo voto de protesto por estar à frente do governo catalão, o EH Bildu viu aumentar bastante a sua influência nos grandes municípios bascos.

Na Galiza, o Bloco Nacionalista Galego também teve bons resultados nas municipais de maio e apresenta-se com listas próprias às legislativas como "uma garantia de levar até Madrid a agenda galega". A sua coordenadora Ana Pontón diz que "é preciso dar um salto em frente para fazer valer os interesses da cidadania galega no parlamento e uma ferramenta para o conseguir é condicionar a política estatal a favor da Galiza, como fazem bascos e catalães, tendo um grupo galego forte". E tal como a esquerda basca e catalã, o único deputado do BNG nesta legislatura fez parte da base parlamentar de apoio ao atual executivo.