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As Dores Morais no país das ‘arbolatas’

Acaba de ser lançado em Portugal “Já ninguém chora por mim” do escritor nicaraguense Sergio Ramírez. Trata-se de um livro policial que nos fala da Nicarágua de hoje com um humor corrosivo e personagens muito próximos da realidade. O Esquerda.net foi ao lançamento. Por Luis Leiria.
As "arbolatas" na avenida Bolívar, Manágua. Foto de Byralaal, wikimedia commons
As "arbolatas" na avenida Bolívar, Manágua. Foto de Byralaal, wikimedia commons

Dolores Morales (“dores morais” em português) é um detetive privado com escritório em Manágua, capital da Nicarágua. Ex-militante da Frente Sandinista de Libertação Nacional, durante a revolução combateu na frente sul, foi ferido em combate e teve uma perna amputada, sendo-lhe implantada uma prótese num hospital de Cuba.

Após a vitória da revolução, foi um dos fundadores da Polícia Sandinista (mais tarde Polícia Nacional), trabalhando na Direção de Investigação de Drogas. Em 1999 esteve à frente de uma bem-sucedida operação que capturou dois capos dos cartéis de droga de Cali e de Sinaloa, entregando-os à DEA dos Estados Unidos.

Foi essa operação que catapultou a sua fama e, ao mesmo tempo, e contraditoriamente, pôs fim à sua carreira, pois a ação policial não agradou às “altas esferas” do governo. Com o pretexto de não ter consultado previamente os superiores antes de se meter a prender traficantes, Morales viu a sua carreira no serviço público terminar abruptamente e, para não morrer de fome, foi para a atividade privada.

Circula no seu velho carro Lada, de fabrico russo, que, apesar da vetusta idade, ainda o transporta pelas ruas de Manágua. Sonha em comprar um Subaru de segunda mão mas em bom estado. Nunca quis, quando podia, aproveitar a oportunidade de comprar os modernos carros importados com que outros colegas se autopresentearam, impedido pelos seus princípios morais.

Já ninguém chora por mim”

O texto acima é o resumo do prólogo do livro “Já ninguém chora por mim”, do escritor nicaraguense Sergio Ramírez, ele próprio também ex-militante da Frente Sandinista. Escrito como se fosse um verbete da Wikipedia sobre o detetive Dolores Morales, o prólogo apresenta também os principais colaboradores do investigador, e refere-se ao próprio Sergio Ramírez, que descreve como escritor e conterrâneo do detetive, “com quem conserva uma excelente relação de amizade”.

O verbete é literatura e não existe realmente na Wikipédia. Foi uma forma artificiosa que o autor usou para relembrar o livro “El Cielo Llora por mi”, o primeiro da série protagonizada pelo inspetor Morales, editado em 2008 e que narra as aventuras do protagonista nos seus tempos de luta contra os traficantes de drogas.

Sergio Ramírez e Pilar del Rio na Fundação Saramago
Sergio Ramírez e Pilar del Rio na Fundação Saramago

“Já ninguém chora por mim”, publicado em 2017, foi agora lançado em Portugal, com tradução de Helena Pitta, pela Porto Editora. Aproveitando a presença do autor nas Correntes de Escrita, a Fundação Saramago promoveu, na segunda-feira 25 de fevereiro, uma conversa entre o autor e o público mediada por Pilar Del Rio.

“Não sou um escritor de romances policiais e escrevo habitualmente noutros géneros, mas neste caso era a melhor forma de chegar à vida contemporânea do meu país”, esclarece Sergio Ramírez. “É o melhor método para o que queria contar, e ainda pretendo escrever um terceiro romance deste género”.

O autor afirma ser um leitor de policiais clássicos – Dashiel Hammett ou Georges Simenon – e confessa-se fascinado por esse género. “Davam-lhe um estatuto de segunda categoria literária. Eu não concordo e acho que é uma grande literatura”. A escrita do género policial, admite, requer uma outra técnica que é preciso aprender.

Hammet e Simenon estão presentes no texto de Ramírez, é verdade, mas este livro evoca uma tradição mais recente de policiais latinos, com protagonistas boémios e gourmets, amantes da literatura, escritores fracassados e com tendência à depressão, de que o escritor catalão Manuel Vázquez Montalbán foi precursor, com o seu detetive Pepe Carvalho, e que tem um dos seus expoentes mais conhecidos no Mário Conde do escritor cubano Leonardo Padura.

A urgência da escrita

“Este homem é um escritor, mas um escritor com um cidadão dentro”, assim o apresentou Pilar del Rio. “Escreve com a mesma urgência que também o levou à política. A mesma urgência que o fez fazer uma revolução. A mesma urgência que o fez estar num governo ou abandonar um governo.”

Sergio Ramírez foi um dos principais dirigentes da revolução que em 1979 derrubou a ditadura de Anastasio Somoza e levou ao poder a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Foi vice-presidente no governo de Daniel Ortega entre 1984 e 1990, ano em que a FSLN perdeu as eleições para a oposição, liderada então por Violeta Chamorro. Em 1995, devido a divergências com a FSLN, fundou o Movimento de Renovação Sandinista e em 1996 retirou-se da atividade partidária, depois de uma fracassada candidatura presidencial.

“Não sou político. Sou cidadão”, explica Sergio Ramírez. “Saí da política orgânica em 1996, há 23 anos e fiquei com a palavra de cidadão. Se falo de política não é por apego, mas porque vivo num país difícil. Se fosse norueguês, ou sueco, não falaria tanto…”

Uma nova ditadura

Na Nicarágua há neste momento 700 presos políticos, acusados de terrorismo, de associação ilícita para delinquir, a mesma acusação que Somoza fez, no seu tempo, contra os jovens sandinistas. Há 50 mil exilados políticos nicaraguenses na Costa Rica, entre os quais 50 ou 60 jornalistas.

Daniel Ortega é hoje de novo presidente, eleito em 2006 e reeleito sucessivamente em 2011 e 2016. Mas o Ortega de hoje já nada tem a ver com o jovem líder da revolução sandinista. O presidente atual pavimentou o acesso ao poder firmando um pacto com o seu antigo rival Arnoldo Alemán, pacto esse que permitiu benefícios institucionais para os partidos de ambos e, mais tarde, a anulação das condenações de Alemán por corrupção.

Além da aliança com o anterior inimigo, Ortega aproximou-se também da ultrarreacionária Igreja católica nicaraguense. Apresentou desculpas formais pelo tratamento dado à Igreja durante o processo revolucionário, converteu-se ao catolicismo e pediu ao cardeal Miguel Obando y Bravo que celebrasse o seu casamento com a companheira Rosário Murillo. Seguindo a sua orientação, a FSLN apoiou poucos meses antes das eleições de 2006 uma alteração da lei do aborto, que passou a proibir a interrupção da gravidez até em casos de risco de vida para a mãe ou de gravidez em consequência de violação. As campanhas eleitorais de Ortega passaram a ter como lema “Pela graça de Deus!”, e a esposa do presidente é hoje também a sua vice-presidente.

Cartaz de campanha de Ortega e Murillo: "Pela graça de Deus"
Cartaz de campanha de Ortega e Murillo: "Pela graça de Deus"

“Daniel Ortega tem mais anos na presidência do que qualquer membro da família Somoza. Somando os anteriores e os atuais já são 20 anos de poder. Além disso, nenhum membro da família Somoza teve a esposa como vice-presidente”, observa Sergio Ramírez, que define o poder atual como familiar, um poder que controla os principais negócios do país, como o petróleo e a eletricidade. E conclui: “A ditadura que derrubámos foi substituída por uma nova ditadura.”

O 18 de abril

Mas desde abril do ano passado o regime de Ortega foi abalado por manifestações multitudinárias a pedir a sua renúncia. O governo reagiu com a repressão mais extrema, usando franco-atiradores para matar manifestantes indiscriminadamente, até mulheres e crianças. No dia em que mais de meio milhão de pessoas se manifestaram em Manágua, foram assassinadas por tiros à distância 30 manifestantes. Desde então, Ortega sobreviveu à custa de impor o terror. Além das 700 prisões, houve 330 mortes e mais de 2500 pessoas feridas. Grupos de paramilitares criados pelo governo impõem a lei do terror em cidades do interior.

“Já ninguém chora por mim” foi publicado em 2017. “A mobilização espontânea do 18 de abril ocorreu no ano seguinte e a verdade é que os motivos do 18 de abril já estão todos no livro”, diz Ramírez.

O autor não duvida de que se houvesse eleições, Ortega seria derrotado. Mas para isso teria de ocorrer uma mudança política. “É possível chegar a uma saída política que obrigue o governo a chamar eleições, porque ninguém quer uma guerra civil. Todos querem uma saída pacífica, todos querem que sejam libertados os presos políticos e que volte a haver liberdade, depois de meses de mobilizações, de prisões e de exílios forçados.”

O realismo mágico é… real

Em “Já ninguém chora por mim”, o detetive Morales circula pela Nicarágua dominada por um governo das “altas esferas” que impõe um regime repressivo orquestrado por um personagem sinistro, Tongolele, o homem que puxa os cordéis da repressão nos bastidores sem nunca ser mencionado, e que só responde pelas suas ações às ditas “altas esferas”.

Entre os personagens que contracenam com Morales, há um especialmente marcante. Trata-se de Bert, aliás, Lord Dixon, o ex-parceiro do protagonista, morto no combate contra os traficantes de drogas, e que aparece apenas em espírito dialogando com o detetive, uma espécie de alterego que exibe um humor particularmente corrosivo e “diz” tudo aquilo que Dolores não pode dizer.

Outros personagens são o jurista Vademécum ou o mendigo Rambo, que na verdade se chama Serafín e que depois de aplicar uma sova em Dolores Morales o reconhece dos tempos da revolução sandinista, da qual ele fora também integrante, e passa a acompanhar o detetive como uma espécie de guarda-costas. Há também um secretário político local do partido que enriqueceu à custa de controlar a recolha do lixo e que ostenta o sugestivo título de Rei dos Abutres (Rey de los Zopilotes).

A trama gira em torno do desaparecimento da filha de um grande empresário, um caso que evoca uma acusação de abuso sexual feita a Ortega por uma sua enteada, processo de que ele se conseguiu livrar pela influência que exerce sobre os tribunais.

Para além do humor sempre presente, o livro apresenta elementos do tão falado realismo mágico, característico da literatura latino-americana. Porém, alguns dos mais marcantes, por incrível que possa parecer, não são invenções do autor mas existem na realidade.

Há "arbolatas" por toda a parte. Foto de Leon petrosyan, wikimedia commons
Há "arbolatas" por toda a parte. Foto de Leon petrosyan, wikimedia commons

Um exemplo: a floresta de árvores metálicas que o inspetor Morales atravessa no seu Lada no início da história existe mesmo. “Eu gostaria muito de ter inventado isso. Mas a verdade é que já estava inventado”, ironiza Sergio Ramírez. “Num país tropical que tem florestas belíssimas, com uma enorme variedade de árvores de sombra, a primeira dama e agora vice-presidente decidiu encher a capital de árvores de ferro, a que ela chama “árvores da vida” e o povo logo lhes deu a alcunha de arbolatas. São estruturas de aço que chegam a custar 50 mil dólares cada uma, com milhares de luzinhas que se acendem de noite.” Símbolos de um poder corrupto, dezenas dessas árvores foram derrubadas pelos manifestantes depois do 18 de abril.

Um livro não lhes causa dano”

Apesar da sua crítica impiedosa ao regime e do seu humor cáustico, “Já ninguém chora por mim” foi publicado sem problemas na Nicarágua. Ortega não se sentiu incomodado com a crítica?

Já ninguém chora por mim
A edição portuguesa, recém-lançada.

“O governo preocupa-se muito com o jornalismo, com os canais de televisão, e por isso há cerca de 50 ou 60 jornalistas que de tão intimidados tiveram de exilar-se”, explica Sergio Ramírez. “Mas o governo não teme a literatura, que tem um alcance limitado. Os livros são caros. Um livro meu pode custar 15-17 dólares. E um professor do Ensino secundário ganha 180 dólares. Um livro meu pode vender, se vender muito, três ou quatro mil exemplares. Não lhes causa dano.”

Já é diferente se o autor dá uma entrevista e fala de política: “Caem-me em cima todos os trolls das redes montadas pelo governo que se dedicam ao insulto e a desacreditar as pessoas que os combatem.”

Não compraria um livro escrito pelo vice-presidente”

Quando Sergio Ramírez venceu o Prémio Cervantes, o maior prémio literário de língua espanhola, em 2017, a resposta foi o silêncio absoluto do governo. “Nos meios oficiais, foi um momento que não existiu”. E isto apesar de na América Central nunca antes um escritor ter recebido tal prémio.

Mas Ramírez não se preocupa com a fama e rejeita qualquer possibilidade de voltar a ocupar cargos políticos, sublinhando ser um homem de 73 anos. A nova geração, que se pôs à frente das mobilizações contra Ortega, tem todas as condições para liderar o processo, assegura, insistindo na espontaneidade com que o movimento surgiu. A ligação orgânica à política, volta a dizer, terminou há 23 anos.

Por isso, quando chegou o momento de inserir na contracapa do livro um perfil do autor, ele pediu ao editor: “Não ponhas lá que eu fui vice-presidente.” E explicou: “Eu não compraria um livro se soubesse que tinha sido escrito pelo vice-presidente da República”.

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Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
Termos relacionados Crise na Nicarágua, Cultura
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