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Sérgio Ramirez: “O tempo de Daniel Ortega esgotou-se”

Ao ambicionar o poder absoluto e permitir que paramilitares atirassem contra o povo, o presidente tornou o seu governo insustentável, defende nesta entrevista o escritor e antigo vice-presidente da Nicarágua.
Foto Centroamérica cuenta / Mejía + Bendaña Fotografía.

Sergio Ramírez Mercado é um homem que já viu de tudo. Escritor desde que nasceu, recentemente laureado com o Prémio Cervantes, Ramírez foi peça angular no momento do triunfo da revolução, em 19 de julho de 1979, e durante os onze anos em que os sandinistas estiveram no poder, já como vice-presidente.

Nunca se afastou da política, e distanciou-se rapidamente do neo-sandinismo implantado pelo seu ex-companheiro de estrada Daniel Ortega, hoje presidente da Nicarágua. Mas afirma ser sandinista e não deixa de lamentar que na Nicarágua de hoje a figura do general Augusto C. Sandino não seja reconhecida pela maioria dos opositores de Ortega.

Homem tranquilo, reflexivo, Sergio Ramírez (nascido na localidade de Masatepe, em 1942) olha com não pouca preocupação a profunda crise que atravessa seu país desde 18 de abril passado. São mais de 200 mortos, além de feridos e presos. Nada nem ninguém parece capaz de deter o seu ex-amigo Ortega na sua deriva destruidora. Mas ele não perde o ânimo nem a esperança. Sustenta que o que cai, cai. O que apresentamos a seguir é a síntese de uma extensa conversa com esse homem que, além de ser premiado por sua obra literária, é amigo e há muitos anos colaborador regular do “La Jornada”.

O que está a acontecer na Nicarágua?

Estamos a viver dores de parto, do nascimento de um novo país, uma nova realidade política que está a emergir. O tempo de Daniel Ortega esgotou-se. Olhando para o futuro, não poderia dizer quanto tempo ainda dura, mas olhando para o passado poderia assegurar que não há passado, não é possível retroceder ao passado. Quer dizer, é impossível reconstruir a situação em que nos encontrávamos antes de abril. Essa convivência mais ou menos silenciosa, forçada, ou meio à vontade, ou de algumas pessoas que estavam confortáveis, não existe mais. Isso rompeu-se totalmente. Somos um país de apenas 6 milhões de habitantes, e em dois meses foram mortas 250 pessoas aqui.

Que fatores levaram as coisas a esse ponto?

Acredito que o erro de cálculo de Daniel Ortega ao usar as forças repressivas, como se acostumou a fazer. Com a tese absolutista de que as ruas são do povo, e quando diz povo quer dizer os seus partidários. Aqui ninguém podia fazer uma manifestação numa praça, desfilar pelas ruas, por nenhuma causa. Qualquer pequena manifestação, e eram pequenas as manifestações aqui, 20-30 pessoas que se punham a protestar, por exemplo, pela fraude nas eleições municipais. As suas tropas paramilitares vinham para espancar as pessoas, para dispersá-las com correntes, com paus, e a polícia sempre que parava ali era só para contemplar o trabalho sujo que faziam essas forças. Foi assim que ficou famoso o movimento Ocupa Inns, que saiu para defender os velhinhos de quem tiravam as pensões de reforma. Uma noite chegaram essas turbas e levaram-nos, atingiram os jovens, eles tiveram de refugiar-se na catedral, roubaram os seus computadores, os telemóveis, essas mesmas turbas lumpen. Disfarçadas de forças paramilitares ou vestidas como forças paramilitares. Os jovens sairam às ruas depois que bateram num velho na cidade de Leon. Então, creio que quando ocorrem factos como esses do 18 de abril, em que sem consultar ninguém o governo decreta 5% de imposto sobre a pensão de reforma dos idosos e aumenta as cotas do empregador e as cotas de trabalho…

Esse vídeo, desse homem já velho, espancado, ensanguentado no chão, tornou-se viral. Os jovens saem da Universidade de Manágua. Voltam essas turbas. Espancam-nos, mas já sem conseguir que se retirem. Chegam mais, arma-se a batalha. E então o protesto começa a crescer e crescer e começam a matar. O momento em que foi produzido o primeiro morto é o fim deste regime.

Por que um homem como Daniel Ortega decide tomar esse caminho?

Pela absoluta confiança que tem em si mesmo, em seu poder. Coloque-se na posição de alguém que controla o Poder Judiciário, que supõe controlar o exército, controla a polícia, as forças paramilitares, controla os fiscais do Estado, o procurador do Estado, o Tribunal  de Contas, controla a Assembleia Nacional. E então começam as repressões. É um ato natural do poder absoluto, e a bola de neve começa a crescer e já não pode mais ser detida. Não sei se por soberba ou por uma má compreensão do que está a ocorrer. Mas quando há 30 mortos em três dias já não é mais possível entender. E então a repressão continua e as pessoas continuam a sair às ruas, e penso que há uma coisa que ele não percebe. São uns cartazes que me chamam muito a atenção. Estava na Espanha no Prémio Cervantes quando vi um jovem que segurava um cartaz a dizer: “tiraram-nos tanto, que até nos tiraram o medo”. Eu disse nesse momento que tudo mudou na Nicarágua. Quando se perde o medo já não há nada a fazer.

Por que é tão importante o papel que desempenha Rosario Murillo [a vice-presidente e esposa de Daniel Ortega]?

Penso que desde que chegou ao poder, Daniel Ortega se satisfazia muito em dizer: eu tenho 50% do poder e as mulheres têm os outros 50. A minha mulher tem 50% do poder — porque ela era chefe de comunicação. Depois foi para o gabinete do governo, para a administração do partido, ele entregou-lhe também as rédeas do partido. Ela destruiu o partido que herdou, o partido que tinha órgãos de governo, esse acabou. Tornou-se um partido clientelista, sem estruturas, feito na medida do que ela pensava, que era a forma de administrar o poder. Expulsaram muita gente dos quadros históricos tradicionais. Era uma maneira de demostrar: “eu estou aqui”.

A OEA pronunciou-se sobre a crise na Nicarágua, e primeiro conhecemos o relatório da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos). Em que isso prejudica ou beneficia Daniel Ortega?

Vejo Daniel como um jogador de póquer que não tem na mão nenhum ás nem uma única rainha. Então está a jogar com cartas muito baixas, está a jogar com muito poucas oportunidades. A correlação de forças, como gostávamos antes de dizer, voltou-se contra ele. Ele tinha um pacto com as empresas privadas, muito vantajoso para ele e supostamente para as empresas também. Controlava ferreamente as universidades, a ponto de não me deixarem entrar numa delas. A universidade onde me licenciei estava fechada para mim, sob férreo controle político. Ele controlava as universidades, os poderes públicos, o exército, a polícia, o pacto com a empresa privada — e a sociedade civil passiva. Mas hoje, de todas essas cartas não lhe resta nenhuma. O que lhe resta? A polícia e os paramilitares, porque com o exército não creio que conte.

A ajuda da Venezuela era tão vital?

Bem, esse é um antecedente que também não se deve perder de vista. Ortega recebia da Venezuela uns 600 milhões de dólares por ano livres de poeira e palha, porque tinha os créditos de longo prazo: a conta do petróleo era paga metade à vista e metade a crédito de 50 anos. Agora a Nicarágua tem de comprar petróleo a preço de mercado, e é uma drenagem constante das reservas financeiras, que estão a cair — porque além de tudo os levantamentos bancários estão a multiplicar-se. O relatório mais recente revela que há 10 ou 11% de levantamentos bancários sobre todos os depósitos em dólares. Então as pessoas estão a escolher a liquidez, quer dizer, guardando o dinheiro no colchão ou levantando-o. Isso leva os bancos a entrar em crise, porquê?, porque não vão ter capacidade de crédito e o Banco Central vai ter cada vez mais reservas. O desemprego está a crescer de maneira brutal, as pequenas e médias empresas estão a fechar, estão fechar hotéis, hostels, restaurantes, bares, toda a indústria turística foi-se. E a pequena e média empresa têxtil, tudo o que significa atividade económica caiu num enorme, total desastre.

Amanhã Daniel Ortega vai-se embora, e o que acontece no dia seguinte?

Pois veja, aqui joga-se muito com a ideia da instabilidade, do vazio de poder, da anarquia, e parece-me que isso é um lero-lero para assustar as pessoas. Creio que aqui entra a política tradicional dos Estados Unidos, que é um jogador nesse tabuleiro. Se você observar a história ao longo do século XX, eles sempre estiveram aqui, metidos na situação política interna. Há uma frase que define a busca da estabilidade: é preciso fazer uma transição suave, porque senão vem a anarquia. Se Ortega reconhecer: “em março do próximo ano, eu vou-me embora”, esse círculo que está ao redor dele começa logo a cuidar da própria vida. Porque não querem ficar na condição de culpados, não querem enfrentar um julgamento. Então, é preciso saber: quanto Ortega vai  anunciar que tem esse compromisso? Pois tudo faz crer que um acordo já foi estabelecido.

A outra coisa que creio é que os Estados Unidos pretendem que Ortega continue até março, e então se faça a transição ordenada de poder, o presidente passa a faixa presidencial ao vencedor eleições livres, limpas e justas. Isso parece muito bom na teoria. Tenho essa experiência porque a mim coube negociar pessoalmente com o embaixador estadunidense, enviado especial do presidente Carter, a saída suave de Somoza. Quantas vezes não me sentei com o embaixador, sozinhos os dois, e ele me dizia: “tem de ser transição pacífica, nós vamos reconhecer a Junta de Governo de que você participa, mas queremos que o presidente Somoza renuncie formalmente; que passe a faixa presidencial ao vice-presidente Urcuyo; que este a entregue ao monsenhor Obando y Bravo; e ele a entregue a vocês”. “Está bem”, dizia a ele, “mas o importante é que vão entregar a faixa presidencial à Junta de Governo, quer dizer, vai haver uma transição de poder. Qualquer que seja a ideologia do presidente que se vai, esta é a primeira vez que vamos ver, na história em que os Estados Unidos são parte da transição, um presidente que se diz revolucionário. Isso é uma novidade”.

Você conhece Daniel muito bem: acredita que ele é capaz de chegar a março, ou crê que é mais capaz de sacrificar-se?

Creio que Daniel Ortega vai fazer o que as circunstâncias e as pressões determinarem. Não é o que ele quer — isto é, se pudesse ele ficaria até 2021. Mas não, são as circunstâncias que estão a mandar nesse momento.

Por falar em eleições, não são poucos neste país os que apontam Sergio Ramírez como eventual candidato presidencial.

Isso é uma brincadeira, não? Veja, penso que neste país deve haver uma mudança de geração. A mudança geracional está atrasada. Somos governados por um homem de 73 anos, e isso não pode ser. Há aqui gerações que se queimaram sem ter a oportunidade de revezamento natural que deve existir na vida. Ali, na mesa de diálogo, há gente supercapaz, jovem. Eu poderia mencionar 10 ou 15 nomes que formariam um governo de luxo, que daria estabilidade ao país, com inteligência política, com capacidade técnica para gerir a economia e os assuntos sociais. Quer dizer, existe essa mudança, é a que eu aspiro, é meu conselho. Se me pedirem, eu o darei com muito gosto, mas a partir da bancada.


Entrevista de Josetxo Zaldua, em La Jornada | Tradução: Inês Castilho, do portal Outras Palavras.

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