É mesmo espantoso como as ilusões podem resistir diante de uma realidade implacável. A reunião da última segunda-feira entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu — a sexta entre os dois no último ano, o primeiro do segundo mandato de Trump — levou mais uma vez os comentadores a manifestarem a esperança de que o presidente dos EUA exerça pressão sobre o primeiro-ministro israelita para avançar com a segunda fase do “plano de paz” de Trump.
Muitos desses otimistas pertencem à oposição liberal a Netanyahu, seja na forma de sionistas liberais, como se vê nalguns artigos do Haaretz, ou de um liberalismo mais amplo e generalizado, refletido na frustração que alguns governos europeus têm em relação a Netanyahu, expressa em artigos do Financial Times. Esses comentadores, mesmo antes do início do segundo mandato de Trump, têm-se agarrado à crença de que o presidente dos EUA está genuinamente em busca da paz, uma vez que tem vindo a ambicionar o Prémio Nobel da Paz. Na verdade, porém, Trump busca acordos de paz apenas quando eles o beneficiam a ele, à sua família e aos seus aliados, ao mesmo tempo que se transforma num belicista agressivo noutras circunstâncias, como se vê na sua postura em relação ao Irão e, mais recentemente, à Venezuela.
As ilusões sobre Trump vão além dos círculos liberais, mesmo entre aqueles com visões políticas bastante diferentes das mencionadas. Muitos no Médio Oriente projetam os seus próprios desejos no presidente dos EUA. O Hamas chegou a expressar o seu “apreço” pelas iniciativas dele. Além disso, certos governantes árabes acreditam que presentes luxuosos podem ser suficientes para influenciar Trump a alinhar-se com os desejos da ordem árabe predominante. No entanto, a verdade é que os interesses comerciais da família Trump no Golfo, juntamente com os interesses mais amplos das empresas dos EUA na região, são precisamente o que torna Israel um aliado tão valioso aos seus olhos. Desde que derrotou o Egito de Nasser, então principal inimigo regional de Washington, em 1967, Israel tornou-se a principal linha de defesa dos Estados Unidos no Médio Oriente, protegendo os interesses dos EUA.
A ascensão do Irão enquanto principal adversário regional, após a criação da República Islâmica na costa do Golfo em 1979, apenas aumentou a importância do Estado sionista aos olhos de Washington, especialmente após o fracasso da Operação Eagle Claw em 1980 — uma tentativa das forças americanas de libertar reféns americanos detidos na embaixada dos EUA em Teerão.
As reuniões de Netanyahu com Trump — a quem Netanyahu chama repetidamente de “o maior amigo que Israel já teve na Casa Branca” — contrastam fortemente com as interações deste último com o presidente da Ucrânia, Zelensky, por exemplo. Enquanto Trump se apresenta como um mediador entre Zelensky e Putin, chegando a declarar abertamente a sua preferência pelo presidente russo, ele vê Netanyahu como um aliado de longa data e confiável. As suas reuniões são colaborativas, destinadas a coordenar políticas e determinar os próximos passos.
Mesmo quando surgem pequenas divergências, elas são muito menos importantes do que as que atormentavam as relações anteriores de Netanyahu com o governo Obama, especialmente no que diz respeito à expansão contínua dos colonatos na Cisjordânia. Apesar do crescente interesse do atual governo israelita de extrema-direita em anexar formalmente a Cisjordânia, Trump apenas afirmou, após a sua reunião com Netanyahu, que as suas posições sobre esta questão não estavam “cem por cento” alinhadas, embora se mostrasse confiante de que chegariam a uma “conclusão”.
O resultado da reunião foi o anúncio de um roteiro conjunto EUA-Israel para 2026. Os seus dois pontos mais significativos podem ser resumidos da seguinte forma: em primeiro lugar, o desarmamento do Hamas — e, por extensão, do Hezbollah — foi colocado no topo da agenda, que era o que Netanyahu pretendia desde o início. Trump deu a Israel o seu aval pelos esforços de “paz”, apesar da violação contínua do cessar-fogo em Gaza, colocando a culpa diretamente no Hamas. Ele também ameaçou transformar Gaza novamente num inferno se o Hamas não completasse a sua rendição.
Ele não fez as mesmas ameaças ao Líbano, provavelmente porque os seus aliados árabes estão certamente mais interessados em apoiar o governo libanês do que em preservar o Hamas, que alguns governantes árabes consideram um inimigo. O interesse árabe em apoiar o governo sírio de Ahmed al-Sharaa é ainda maior, razão pela qual Trump publicamente, embora indiretamente, pediu a Netanyahu que poupasse o novo governante de Damasco, o homem certo no lugar certo, segundo o presidente dos EUA.
O segundo ponto-chave da agenda conjunta foi o Irão. Trump advertiu que os EUA e Israel considerariam uma nova ação militar conjunta se o Irão retomasse o seu programa nuclear ou o desenvolvimento de mísseis de longo alcance. Netanyahu ficou tranquilo com a disposição de Trump de renovar a participação direta dos EUA em ações militares contra o Irão — um objetivo fundamental da sua viagem à Flórida. Trump não mostrou reservas em contribuir para uma nova campanha de bombardeamentos contra o Irão, exceto pelo seu pesar pelo combustível que os seus aviões de guerra consumiriam na longa viagem até aos alvos iranianos!
Além destas duas questões importantes e de alguns outros assuntos relativamente menores, o sexto encontro entre os dois homens foi uma nova oportunidade para adulação mútua. As exageradas declarações típicas de Trump estiveram em evidência, ao afirmar que Israel teria deixado de existir sem Netanyahu, ao mesmo tempo que reiterava o seu apelo para que fosse concedido um perdão presidencial ao primeiro-ministro israelita. Por sua vez, Netanyahu concedeu a Trump o “Prémio Israel”, a primeira vez que este foi atribuído a um não israelita. Sem dúvida, Trump merece muito mais este prémio do que o Prémio Nobel da Paz — um galardão que ele continua a reclamar por não ter recebido — ou mesmo o Prémio da Paz da FIFA, uma honra inventada pelo presidente da Federação de Futebol, que a maioria das pessoas considera embaraçosamente bajuladora.
Traduzido do original em árabe publicado em Al-Quds al-Arabi em 30 de dezembro de 2025. Publicado no blogue do autor