Docentes de Coimbra pedem averiguação ao afastamento de professor russo

07 de junho 2023 - 19:12

Uma centena de professores e investigadores da Universidade de Coimbra dizem ser "inaceitável alguém ser despedido sem a realização de um inquérito" e exigem que os factos que levaram ao despedimento sejam averiguados.

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Universidade de Coimbra
Foto Serge Laroche/Flickr

Num abaixo-assinado, cem docentes e investigadores da Universidade de Coimbra criticam a decisão do reitor da instituição, Amílcar Falcão, de demitir o responsável pelo Centro de Estudos Russos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra sem qualquer inquérito ou processo disciplinar.

"É inaceitável, num Estado democrático de direito, garantidor da liberdade de consciência e pensamento, bem como numa universidade pública que repudia o pensamento único, alguém ser despedido sem a realização prévia de um inquérito para apuramento dos factos, sem a instauração de um eventual processo disciplinar", lê-se no abaixo-assinado enviado à agência Lusa.

Vladimir Pliassov trabalhou durante 35 anos com a Universidade de Coimbra no ensino da literatura, história e cultura russa, criando em 2012 o primeiro centro de estudos russos da Península Ibérica. Atualmente mantinha a colaboração a título gracioso como Leitor Convidado, uma ligação interrompida a 10 de maio por um email enviado pelo Reitor a afastá-lo das suas funções.

O afastamento terá tido origem nas acusações de "propaganda russa" feitas por dois ativistas ucranianos num artigo de opinião publicado no Jornal de Proença e depois replicado pelo jornal Observador, que alegaram posteriormente, na Rádio Renascença, que o docente russo seria um ex-agente do KGB.

Os subscritores do abaixo-assinado consideram que "esta decisão do Reitor não foi explicada de modo claro e completo à comunidade universitária, nem mesmo depois da polémica pública e da reunião do Conselho Geral em que o tema foi debatido". E que "ao proceder como procedeu, o Reitor da Universidade de Coimbra não respeitou princípios e valores como a presunção de inocência, ou o direito de o acusado conhecer as razões objetivas da acusação para poder efetivar o direito ao contraditório".

Por essa razão, os docentes e investigadores exigem a "urgente abertura de um processo de averiguação dos factos imputados àquele docente que respeite escrupulosamente os seus direitos", pois "só assim a Universidade de Coimbra honrará a sua história centenária".

Entre os signatários deste abaixo-assinado estão a ex-ministra e docente da Faculdade de Direito (FDUC) Anabela Rodrigues, a docente e deputada do PS Cláudia Cruz Santos, o ex-diretor da Faculdade de Medicina Duarte Nuno Vieira, o antigo deputado do Bloco de Esquerda e docente da Faculdade de Economia (FEUC) José Manuel Pureza, o ex-secretário de Estado e professor da FEUC José Reis, a antiga juíza do Tribunal Constitucional Maria João Antunes e o capitão de Abril e docente da FEUC Pedro Pezarat Correia.

Também se juntaram a esta tomada de posição conjunta o antigo diretor do Departamento de Arquitetura José Bandeirinha, o antigo diretor do Museu da Ciência da UC Paulo Gama Mota, o subdiretor do Colégio das Artes, António Olaio, o coordenador científico do consórcio Ageing@Coimbra, João Malva, o catedrático e regente da cadeira de Direito do Trabalho na FDUC, João Leal Amado, e os membros do Conselho Geral Adérito Araújo, Ana Paula Arnaut e Lina Coelho, entre outros.