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Dez teses sobre a contribuição de Walter Benjamin para a teoria crítica

“Ao contrário da maioria dos membros da Escola de Frankfurt, Benjamin apostou, até ao seu último suspiro, nas classes oprimidas como força emancipadora da humanidade”, destaca Michael Löwy neste seu artigo publicado no 80º aniversário da morte de Walter Benjamin.
Walter Benjamin (Berlim, 15 de Julho de 1892 - Portbou, 27 de Setembro de 1940)
Walter Benjamin (Berlim, 15 de Julho de 1892 - Portbou, 27 de Setembro de 1940)

Como se sabe, Walter Benjamin morreu em Portbou há 80 anos, em setembro de 1940, após uma tentativa de fuga da França de Vichy para Espanha. Como milhares de outros refugiados judeus e/ou antifascistas alemães, ele foi internado num campo no verão de 1939, no início da Segunda Guerra Mundial, como cidadão de um país inimigo.

Este foi um dos capítulos mais infames da história pouco gloriosa da Terceira República. Libertado do campo graças à intervenção de escritores e intelectuais franceses, ele tentou desaparecer em Marselha, mas após o armistício e o estabelecimento do Estado francês de Vichy sente-se preso numa ratoeira: sucedem-se as rusgas contra estrangeiros indesejáveis e a Gestapo, com o título eufemístico da Comissão do Armistício, está em toda parte. Foi então que bateu à porta de Lisa Fittko, uma refugiada alemã (judia) antifascista, que estava a organizar uma fuga para Espanha para as pessoas mais ameaçadas através da rota Lister, um caminho estreito nos Pirenéus. Com a ajuda de Fittko, Benjamin chegou, com muitas dificuldades devido à sua saúde, à fronteira e à povoação espanhola de Portbou.

Preso em Portbou pela polícia (franquista) que, a pretexto de não ter visto de saída francês, decide entregá-lo à polícia de Vichy –ou seja, à Gestapo–, Benjamin optou pelo suicídio. Era meia-noite no século1, o Terceiro Reich hitleriano tinha ocupado metade da Europa com a cumplicidade da União Soviética estalinista. Mais do que um ato desesperado, foi um último ato de protesto e resistência antifascista.

Nas breves teses que se seguem, algumas notas sobre a contribuição de Walter Benjamin à Teoria crítica marxista.

I - Walter Benjamin faz parte da Teoria Crítica em sentido amplo, isto é, daquela corrente de pensamento que se inspira em Karl Marx e que, a partir ou no contexto da Escola de Frankfurt, questiona não só o poder da burguesia, mas também os fundamentos da racionalidade e da civilização ocidentais. Bom amigo de Theodor Adorno e Max Horkheimer, não há dúvida de que influenciou os escritos de ambos, principalmente na obra capital que é a Dialética do Esclarecimento, onde encontramos numerosas ideias suas e até, ocasionalmente, citações sem referência à fonte. Ele também era sensível aos principais temas da Escola de Frankfurt, mas diferencia-se dela por certas caraterísticas que são suas e que constituem a sua contribuição específica para a Teoria crítica.

Benjamin nunca conseguiu dar aulas numa universidade; a rejeição da sua habilitação - com uma dissertação sobre o drama barroco alemão - condenou-o a uma existência precária como ensaísta, homem de letras e jornalista freelancer que, claro, deteriorou-se notavelmente durante os anos de exílio em Paris (1933-1940) . Exemplo ideal-típico da freischwebende intelligenz [intelectualidade flutuante]2 de que falou Karl Mannheim, ele era por excelência um Aussenseiter, um outsider, um marginal. Essa situação existencial talvez tenha contribuído para a agudeza subversiva do seu olhar.

Benjamin é, neste grupo de pensadores, o primeiro a questionar a ideologia do progresso

II - Benjamin é, neste grupo de pensadores, o primeiro a questionar a ideologia do progresso, essa filosofia "incoerente, imprecisa, carente de rigor", que não percebe no processo histórico mais que "o ritmo mais ou menos rápido com que a humanidade e as épocas avançam no caminho do progresso” (A vida dos estudantes, 1915). Ele foi também quem foi mais longe na tentativa de libertar o marxismo, de uma vez por todas, da influência das doutrinas burguesas progressistas; assim, em As Passagens de Paris3 propôs-se o seguinte objetivo: “Deve considerar-se como finalidade perseguida metodologicamente nesta obra a possibilidade de um materialismo histórico que tenha suprimido no seu próprio seio a ideia de progresso. É precisamente na oposição aos hábitos do pensamento burguês que o materialismo histórico encontra as suas fontes.”

Benjamin estava convencido de que as ilusões progressistas, em particular a convicção de "nadar com a corrente da história" e uma visão acrítica da técnica e do sistema produtivo existentes, contribuíram para a derrota do movimento operário alemão contra o fascismo. Incluía entre estas ilusões nefastas a surpresa de que o fascismo pudesse existir na nossa época, numa Europa tão moderna, fruto de dois séculos de "processos de civilização" (no sentido que Norbert Elias deu a este termo): como se o Terceiro Reich não fosse, precisamente, uma manifestação patológica desta mesma modernidade civilizada.

III - Se a maioria dos pensadores da Teoria Crítica partilhava do propósito de Adorno de pôr a crítica romântica conservadora da civilização burguesa ao serviço dos objetivos emancipadores do Iluminismo, Benjamin foi talvez quem mostrou o máximo interesse pela apropriação crítica dos temas e ideias do romantismo anti-capitalista. Em As Passagens de Paris4, ele refere-se a Karl Korsch para destacar a dívida de Marx, contraída através de Hegel, com os românticos alemães e franceses, incluindo os mais contra-revolucionários. Ele não hesitou em usar os argumentos de Johannes von Baader, Johann Jakob Bachofen ou Friedrich Nietzsche para demolir os mitos da civilização capitalista. Encontramos nele, como em todos os românticos revolucionários, uma dialética surpreendente entre o passado mais remoto e o futuro emancipado; daí o seu interesse pela tese de Bachofen - na qual se inspiraram tanto Friedrich Engels como o geógrafo anarquista Elisée Réclus - sobre a existência de uma sociedade sem classes, sem poderes autoritários e sem patriarcado no alvor da história.

Esta sensibilidade também permitiu a Benjamin compreender, muito melhor do que os seus amigos da Escola de Frankfurt, o significado e o alcance de um movimento romântico/libertário como o surrealismo, ao qual atribuiu, no seu artigo de 1929, a tarefa de captar as forças da embriaguez (Rausch) para a causa da revolução. Herbert Marcuse também perceberá a importância do surrealismo como uma tentativa de associar arte e revolução, mas isso aconteceu quarenta anos mais tarde.

Tal como os seus amigos de Frankfurt, Benjamin era partidário de uma espécie de pessimismo crítico, que assumia nele uma forma revolucionária

IV – Tal como os seus amigos de Frankfurt, Benjamin era partidário de uma espécie de pessimismo crítico, que assumia nele uma forma revolucionária. No seu artigo de 1929 sobre o surrealismo, ele afirma mesmo que ser revolucionário é atuar para "organizar o pessimismo". Ele manifesta a sua desconfiança em relação ao destino da liberdade na Europa e acrescenta, numa conclusão irónica: "Confiança ilimitada apenas na IG Farben e no aperfeiçoamento pacífico da Luftwaffe". Claro, nem mesmo ele, o pessimista por excelência, pôde prever as atrocidades que a Luftwaffe infligiria às cidades e às populações civis europeias; ou que o conglomerado químico IG Farben se destacaria, apenas uma dezena de anos mais tarde, na fabricação do gás Zyklon B, usado para racionalizar o genocídio de judeus e ciganos. No entanto, ele foi o único pensador marxista daqueles anos que teve a intuição dos desastres monstruosos que a civilização burguesa em crise podia gerar.

V - Mais do que os outros pensadores da Teoria Crítica, Benjamin soube mobilizar de forma produtiva os temas do messianismo judaico para o combate revolucionário dos oprimidos. Não faltam motivos messiânicos em certos textos de Adorno - em particular Minima Moralia - ou Horkheimer, mas é em Benjamin, e especialmente nas suas teses Sobre o conceito de história, que o messianismo se torna um vetor central de uma refundação do materialismo histórico para evitar o destino de um autómato como aquele em que se tornara nas mãos do marxismo vulgar (social-democrata ou estalinista). Há em Benjamin uma espécie de correspondência (no sentido baudelairiano da palavra) entre a irrupção messiânica e a revolução como interrupção da continuidade histórica, a continuidade da dominação.

Para o messianismo tal como ele o entende - ou melhor, inventa - não se trata de esperar a salvação de um indivíduo excecional, de um profeta enviado pelos deuses: o messias é coletivo, pois a cada geração foi-lhe dada um “força messiânica fraca” que tenta exercer da melhor maneira possível.

Entre todos os autores da Teoria Crítica, Benjamin foi o mais apegado à luta de classes como princípio de compreensão da história e da transformação do mundo

VI - Entre todos os autores da Teoria Crítica, Benjamin foi o mais apegado à luta de classes como princípio de compreensão da história e da transformação do mundo. Como escreveu nas Teses de 1940, a luta de classes “não deixa de estar presente no historiador formado pelo pensamento de Marx”; de facto, não deixa de estar presente nos seus escritos, como vínculo essencial entre o passado, o presente e o futuro e como lugar de unidade dialética entre teoria e prática. A história não aparece, para Benjamin, como um processo de desenvolvimento das forças produtivas, mas sim como uma luta de morte entre opressores e oprimidos; rejeitando a visão evolucionista do marxismo vulgar, ele entende o movimento da história como a acumulação de conquistas e insiste nas vitórias catastróficas das classes dominantes.

Ao contrário da maioria dos restantes membros da Escola de Frankfurt, Benjamin apostou, até ao seu último suspiro, nas classes oprimidas como força emancipadora da humanidade. Profundamente pessimista, mas nunca resignado, não deixa de ver na “última classe escravizada” - o proletariado - aquela que “em nome das gerações vencidas leva a cabo a obra de libertação” (Tese XII). Se não partilha de forma alguma do otimismo míope dos partidos do movimento operário em relação à sua base de massas, não deixa por isso de ver nas classes dominadas a única força capaz de derrubar o sistema de dominação.

ele define [a revolução] não como a locomotiva da história, mas como uma interrupção do seu curso catastrófico, como ação salvadora da humanidade que puxa o travão de emergência

VII - Benjamin foi também o mais obstinadamente fiel à ideia marxiana de revolução. É certo que, ao contrário de Marx, ele a define não como a locomotiva da história, mas como uma interrupção do seu curso catastrófico, como ação salvadora da humanidade que puxa o travão de emergência. Mas a revolução social continua a ser o horizonte da sua reflexão, o ponto de fuga messiânico da sua filosofia da história, a pedra angular da sua reinterpretação do materialismo histórico. Apesar das derrotas do passado - da revolta dos escravos dirigida por Spartacus na Roma antiga até ao levantamento da Spartakusbund de Rosa Luxemburgo em janeiro de 1919 - "a revolução como Marx a concebeu", aquele "salto dialético ”, continua a ser possível (Tese XIV). A sua dialética consiste em operar, graças a "um grande salto no passado", uma irrupção no presente, no "tempo de agora" (Jetztzeit).

VIII - Ao contrário dos seus amigos da Escola de Frankfurt, zelosos da sua independência, Benjamin procurou aproximar-se do movimento comunista. O seu amor pela artista bolchevique letã Asja Lacis teve sem dúvida a ver com esta tentativa ... Num dado momento, por volta de 1926, ele até considerou, como escreveu ao seu amigo Gershom Scholem, aderir ao Partido Comunista Alemão, o que ele não fará ... Em 1928-1929 visita a União Soviética: no Diário da sua estadia encontramos observações críticas, que revelam uma certa simpatia pela oposição de esquerda. No entanto, na década de 1930 - sobretudo entre 1933 e 1935 - ele parece alinhar-se com o marxismo soviético, mas isso será um breve parêntese. A partir de 1936, começa a distanciar-se, embora ainda acredite, como atestava a sua correspondência, que a URSS, apesar do seu caráter despótico, era a única aliada dos antifascistas. Esta crença desaparece em 1939, com o pacto Molotov-Ribbentrop: nas suas teses Sobre o conceito da história (1940) denuncia a “traição à sua própria classe” pelos comunistas stalinistas.

IX - Walter Benjamin não era trotskista, mas repetidamente manifestou grande interesse pelas ideias do fundador do Exército Vermelho.

X - O pensamento de Benjamin está profundamente enraizado na tradição romântica alemã e na cultura judaica da Europa Central; corresponde a uma conjuntura histórica precisa, a da época das guerras e revoluções, entre 1914 e 1940. No entanto, os principais temas da sua reflexão, e em particular das suas teses Sobre o conceito da história, são de uma assombrosa universalidade: proporciona-nos instrumentos para compreender realidades culturais, fenómenos históricos, movimentos sociais em outros contextos, outros períodos, outros continentes.

Artigo de Michael Löwy, traduzido para espanhol por Viento Sur e para português por Carlos Santos por esquerda.net


Notas:

1 “Meia-noite no século”, romance de Victor Serge.

2 Nota de Viento Sur

3 As Passagens de Paris, de Walter Benjamin, tradução: João Barrento, edição Assírio & Alvim, abril de 2019

4 Idem

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