Nos dias que se passaram desde os trágicos acontecimentos em Odessa, ouvimos dezenas de versões do que aconteceu. Todas elas foram, de uma forma ou de outra, dedicadas a identificar a “mão escondida” que enviou dois grupos armados de manifestantes para combater um com o outro, e empurrou um deles para o matadouro da Casa dos Sindicatos.
A maioria destas versões – das oficiais de Kiev às dos propagandistas russos – apontam o dedo para a polícia local, que de uma forma consciente e organizada se absteve de tentar evitar a violência crescente.
Estas versões dos acontecimentos, regra geral, oferecem um cenário “explicativo” que funciona a favor de um ou do outro lado: Yulia Timoshenko [ex-primeira-ministra ucraniana] quer sabotar as eleições de 25 de maio para assegurar a sua própria vitória no futuro; o governo de Kiev vai intimidar os “separatistas” e atirar sobre eles as responsabilidades pelo banho de sangue; o governo russo terá mais que convincentes argumentos para desacreditar a “Junta” [de Kiev]; o clã do [ex-presidente] Ianukovich vai empurrar a Rússia para a intervenção [militar] aberta.
Qualquer que possa ter sido a intenção inicial dos que organizaram a tragédia de Odessa, haverá – ou, mais provavelmente já há – outro resultado: a lógica da guerra civil está à solta, e agora é quase impossível detê-la.
De certa forma, cada uma destas versões soa convincente a nós – povo russo e ucraniano – porque sabemos que nenhuma das forças mencionadas não hesitaria em praticar qualquer crime para obter os seus fins. Esta disponibilidade para fazer vítimas entre os seus próprios concidadãos sempre foi uma condição necessária para selecionar os membros da elite pós-soviética. Nessa elite, não há ninguém, ninguém mesmo, que não seja moralmente capaz de assassinato em massa.
Mas qualquer que possa ter sido a intenção inicial dos que organizaram a tragédia de Odessa, haverá – ou, mais provavelmente já há – outro resultado: a lógica da guerra civil está à solta, e agora é quase impossível detê-la. No último mês – com a expectativa de ações militares, ocupações de edifícios, tomada de reféns, escaramuças locais na bacia do Donets – muitos ainda mantinham a tímida esperança de que todo o processo fosse gerido por alguém, o que significaria que poderia ser detido. A base principal para tais expectativas era não só a vontade de Putin, das potências ocidentais ou do governo de Kiev – mas o facto de que a maioria dos ucranianos simplesmente não estavam preparados para se matarem uns aos outros.
Mas temos de recordar a história não tão distante de 1990, quando tivemos aquele horrível sentimento de estar a cruzar uma fronteira: vizinhos amigáveis, “povo soviético”, que durante décadas tinham-se esquecido de como fazer para se dividir entre “inimigos” e “amigos”, subitamente, em poucos dias, perder quaisquer características humanas e tornarem-se bestas, a possível existência das quais era conhecida apenas nos filmes patrióticos acerca da invasão fascista.
Foi assim que, depois de ter surgido a questão da “língua oficial”, começou a guerra na Transnístria. Foi assim que sérvios e croatas chegaram a um ponto de não retorno, naquele jogo de futebol em Split. Tudo isto é por demais conhecido para não se compreender que os derrotados nestas guerras são todos os participantes, sem exceção. Vingar as primeiras vítimas apenas produz outras mais – e fornece a base para novos e justos atos de retaliação. Este é o mais terrível resultado dos acontecimentos de Odessa: para ambos os lados, tornaram a vingança, mesmo a mais brutal, justificada e inevitável.
Nas chamas que irromperam na Casa dos Sindicatos não foi difícil distinguir as profundidades do barbarismo no qual a Ucrânia pode facilmente cair, cuja extensão não parece ser perfeitamente compreendida por um único dos canalhas que coreografaram os confrontos do dia 2 de maio.
Não há muito tempo, a exigência de “manter-se humano” pareceria um desejo completamente abstrato. Agora, depois do massacre de Odessa, transformou-se num programa político.