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Defesa de Rui Pinto vai chamar Snowden e Deltour a testemunhar no julgamento

Em conferência de imprensa realizada em Lisboa, o advogado do português que expôs os “Luanda Leaks” e “Football Leaks” sublinhou que "não há nenhum lançador de alertas como o Rui Pinto que esteja preso no resto da Europa.
William Bourdon
William Bourdon em Lisboa. Foto Tiago Petinga/Lusa

A defesa de Rui Pinto, o lançador de alerta português que se encontra preso há quase um ano, trouxe reforços internacionais para a conferência de imprensa desta sexta-feira em Lisboa. Para além de William Bourdon, que representou Rui Pinto no processo de extradição em Budapeste e já defendeu Snowden e Assange, estiveram também presentes o editor do jornal online francês Mediapart, Edwy Plenel, o diretor da Plataforma de Proteção dos denunciantes em África, Henri Thullier, o diretor do Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação, Gerard Ryle, o coordenador da European Investigative Collaborations, Stefan Candea e a diretora da organização norte-americana Signals Network, Delphine Halgand-Mishra.

Francisco Teixeira da Mota, o advogado de Rui Pinto no processo em que responde pelos crimes de tentativa de extorsão e acesso ilegítimo a sistemas informáticos, afirmou que o lançador de alerta “está aberto” a colaborar com as autoridades portuguesas e estrangeiras no combate à criminalidade económica. Ante a aparente falta de vontade do Ministério Público em solicitar essa colaboração, “é impossível dizer o que vai acontecer", disse Francisco Teixeira da Mota, citado pela Lusa.

William Bourdon afirmou que a defesa está a tentar que Edward Snowden possa testemunhar no julgamento a partir da Rússia e já confirmou a presença de Antoine Deltour, o lançador de alerta dos acordos fiscais secretos do governo luxemburguês com multinacionais, que ficou conhecido por “Lux Leaks”. A lista de testemunhas contará ainda com “eurodeputados e outras figuras de interesse para apoiarem Rui Pinto em tribunal”, adiantou Bourdon.

“Acreditámos que os motivos que motivaram Rui Pinto são tão puros quanto os de Snowden. Ele não tem interesse algum por dinheiro. No caso da Doyen, participou num jogo infantil e tentou perceber se o fundo de investimento mordia o isco”, afirmou o advogado, citado pelo Público. Para Bourdon, "o lugar dele é em liberdade", pois "não há nenhum lançador de alertas como o Rui Pinto que esteja preso no resto da Europa".

A diretora da organização norte-americana Signals Network fez as contas ao montante já recuperado em vários países da Europa graças aos documentos expostos por Rui Pinto no “Football Leaks” sobre os negócios da indústria do futebol: 35 milhões de euros. "Os procuradores estão a investigar as informações de Rui Pinto enquanto ele está preso", afirmou Delphine Halgand-Mishra, citada pelo Expresso.

Para o jornalista do Mediapart, um dos sites que colaborou com o consórcio de jornalistas de investigação, Rui Pinto "não é um criminoso, mas sim um herói da democracia, que permitiu à população conhecer aquilo que lhe vem sendo escondido”. Para Edwy Plenel, o segredo bancário e o segredo profissional "não podem ser álibis para proteger crimes" graves.

A ex-eurodeputada Ana Gomes também participou na sessão para defender que as revelações de Rui Pinto sejam investigadas e os crimes revelados não passem impunes.  "Só se as autoridades estivessem efetivamente a colaborar no encobrimento de organizações criminosas é que poderiam ignorar os elementos que estão no domínio público, independentemente de quem os colocou ou teve acesso a eles, pela via legal ou não", sublinhou Ana Gomes, citada pela Lusa.

Stefan Candea, coordenador da "European Investigative Collaborations" (EIC), a plataforma de jornalistas que publicou reportagens com base em documentos do “Football Leaks”, afirmou que o resultado dessa investigação apenas possível com os documentos revelados por Rui Pinto foram  "mais de 1500 histórias" publicadas por órgãos de comunicação ”em mais de 20 países".

Uma dessas notícias foi dada pelo Der Spiegel em novembro de 2018, poucos meses antes da justiça portuguesa ter conseguido a detenção e extradição de Rui Pinto a partir da Hungria, e teve consequências esta sexta-feira. Um dos maiores clubes do futebol mundial, o Manchester City, foi proibido pela UEFA de participar nas competições europeias de futebol e condenado a pagar 30 milhões de multa por quebra das regras de “fair play financeiro”. Os documentos revelados pelo português mostraram como o dono do clube, o  Sheikh Mansour bin Zayed al-Nahyan, da família no poder em Abu Dhabi, injetou cerca de 70 milhões de euros no clube à margem da lei. Para contornar as regras da UEFA, o patrocínio das camisolas da equipa em 2015 foi vendido por cerca de 78 milhões de euros anuais à companhia de aviação Ethiad. Mas a companhia aérea nacional dos Emirados Árabes Unidos só pagou realmente 8 milhões, com o resto a ser pago pela empresa que detém o clube.

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