David Harvey: as causas de longo prazo da invasão da Ucrânia

02 de março 2022 - 11:12

O geógrafo marxista analisa as humilhações da terapia de choque neoliberal na Rússia e da expansão da Nato. Pensa que não justificam a invasão nem ressurreição do militarismo da Nato. A lei da competição, entre empresas ou blocos de poder, é receita para desastre, apesar do capital a querer como caminho para a acumulação infinita.

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Centro de Kharkiv depois de um bombardeamento. Foto de SERGEY KOZLOV/EPA/Lusa.
Centro de Kharkiv depois de um bombardeamento. Foto de SERGEY KOZLOV/EPA/Lusa.

O deflagrar de uma guerra total na sequência da invasão russa da Ucrânia marca um profundo ponto de viragem na ordem mundial. Como tal, não pode ser ignorado pelos geógrafos aqui reunidos (pelo zoom) no nosso encontro anual. Apresento assim alguns comentários de um não-especialista como base para uma discussão.

Há um mito de que o mundo tem estado em paz desde 1945 e de que a ordem mundial construída sob a hegemonia dos Estados Unidos contribuiu amplamente para conter as tendências bélicas dos estados capitalistas em competição uns com os outros. A competição inter-estados na Europa que produziu duas guerras guerras mundiais foi largamente contida e a Alemanha Ocidental e o Japão foram pacificamente reincorporados no sistema capitalista mundial depois de 1945 (em parte para combater a ameaça do comunismo soviético). Foram montadas na Europa instituições de cooperação (o mercado comum, a União Europeia, a Nato, o euro). Ao mesmo tempo, desde 1945, as guerras “quentes” (tanto guerras civis como inter-estados) continuaram a ser abundantes, a começar pela da Coreia e do Vietname, seguida pelas guerras jugoslavas e pelo bombardeamento da Sérvia pela Nato, pelas duas guerras contra o Iraque (uma das quais foi justificada por mentiras patentes dos EUA acerca do Iraque possuir armas de destruição massiva), pelas guerras no Iémen, na Líbia e na Síria.

Até 1991, a Guerra Fria providenciava um pano de fundo razoavelmente constante para o funcionamento da ordem mundial. Era frequentemente manipulada pelas empresas dos EUA que constituem aquilo que Eisenhower há muito tempo atrás designou como o complexo industrial militar para sua vantagem económica. Cultivar o medo (tanto falso como real) dos sovietes e do comunistas era fundamental para esta política. A consequência económica tem-se materializado em ondas sucessivas de inovações tecnológicas e organizacionais no equipamento militar.

Grande parte delas acabou por ter usos civis generalizados, como a aviação, a internet e as tecnologias nucleares, contribuindo assim de maneira importante para apoiar a acumulação infinita de capital e a crescente centralização do poder capitalista relativamente a um mercado cativo.

Para além disso, recorrer ao “keynesianismo militar”, tornou-se uma exceção favorecida nos tempos de dificuldades dos regimes de austeridade neoliberal administrados periodicamente às populações até mesmo dos países capitalistas avançados depois de 1970 ou à volta disso. O recurso de Reagan ao keynesianismo militar para orquestrar uma corrida de armamento contra a União Soviética desempenhou um papel contributivo no fim da Guerra Fria ao mesmo tempo que distorceu as economias de ambos os países. Antes de Reagan, a taxa máxima de impostos nos EUA nunca desceu abaixo dos 70% enquanto que, desde Reagan, a taxa nunca ultrapassou os quarenta por cento, refutando assim a insistência da direita de que impostos elevados inibem o crescimento. A crescente militarização da economia dos EUA após 1945 também foi acompanhada pela produção de uma maior desigualdade económica e a formação de uma oligarquia dominante dentro dos EUA, bem como noutros locais (mesmo na Rússia).
A dificuldade que as elites políticas ocidentais enfrentam em situações do tipo daquela que se vive na Ucrânia é que os problemas imediatos e de breve prazo precisam de ser lidados de formas que não exacerbem as raízes que subjazem aos conflitos. Pessoas inseguras muitas vezes reagem violentamente, por exemplo, mas não podemos confrontar alguém que nos ataque com uma faca com palavras tranquilizadoras para mitigar as suas inseguranças. É preciso desarmá-las de preferência de forma a não aumentar as suas inseguranças. O objetivo deve ser lançar as bases para uma ordem mundial mais pacífica, colaborativa e desmilitarizada, ao mesmo tempo que se limita urgentemente o terror, a destruição e a desnecessária perda de vidas que esta invasão implica.

Aquilo a que estamos a assistir no conflito da Ucrânia é, de várias formas, um resultado dos processos de dissolução do comunismo realmente existente e do regime Soviético. Com o fim da Guerra Fria, foi prometido aos russos um futuro brilhante com os benefícios do dinamismo capitalista e da economia de mercado livre a supostamente espalhar-se a todo o país gotejando a partir do topo. Boris Kagarlitsky descreveu a realidade desta forma: com o fim Guerra Fria, os russos acreditaram que estavam a ir de jato para Paris mas a meio do voo ouviram “sejam bem-vindo ao Burkina Faso.”

Não houve nenhuma tentativa de incorporar o povo e a economia russas no sistema global, como aconteceu em 1945 com o Japão e a Alemanha Ocidental e o conselho do FMI e dos principais economistas ocidentais (como Jeffrey Sachs) era para aceitar uma “terapia de choque” neoliberal como a poção mágica para a transição. Quando isso pura e simplesmente não funcionou, as elites ocidentais jogaram o jogo neoliberal de culpar as vítimas por não terem desenvolvido o seu capital humano adequadamente e não terem desmantelado as muitas barreiras aos empreendedorismo individual (culpando tacitamente os próprios russos pela ascensão dos oligarcas). Os resultados internos para a Rússia foram horríveis. O PIB colapsou, o rublo deixou de ser viável (o dinheiro era medido através das garrafas de vodka), a esperança de vida desceu abruptamente, a posição social das mulheres degradou-se, houve um colapso social da Segurança Social e das instituições do Estado, um aumento de políticas mafiosas construídas à volta do poder oligárquico, tudo isto coroado por uma crise da dívida em 1998 para a qual parecia não haver outro caminho a não ser implorar algumas migalhas na mesa dos ricos e submeter-se à ditadura do FMI. A humilhação económica foi total, exceto para os oligarcas. Para completar, a União Soviética foi desmembrada em repúblicas independentes sem muita consulta popular.

Em dois ou três anos, a Rússia sofreu uma diminuição da sua população e um encolhimento da sua economia com a destruição da sua base industrial a níveis proporcionalmente maiores do que aqueles vividos com a desindustrialização nas regiões mais velhas envelhecidas dos EUA nos 40 anos anteriores. As consequências sociais, políticas e económicas da desindustrialização da Pensilvânia, do Ohio e por todo o Centro-Oeste dos EUA foram de longo alcance (abrangendo tudo desde a epidemia de opiáceos, ao aumento de tendências políticas tóxicas que aumentam o supremacismo branco e Donald Trump). O impacto da “terapia de choque” na vida política, cultural e económica russa foi naturalmente muito pior.

O Ocidente não fez nada para além de se vangloriar pelo suposto “fim da história” nos termos decretados por si.

Para além disso, há o tema da Nato. Originalmente concebida como uma aliança defensiva e colaborativa, tornou-se numa força militar primária de guerra apostada em conter a propagação do comunismo e impedir a competição inter-estatal na Europa, assumindo uma viragem militarista.

De um modo geral, ajudou marginalmente como um dispositivo organizacional de colaboração, mitigando a concorrência inter-estatal na Europa (embora a Grécia e a Turquia nunca tenham resolvido as suas diferenças sobre Chipre). A União Europeia foi, na prática, muito mais útil. Mas, com o colapso da União Soviética, o objetivo principal da Nato desapareceu. A ameaça da população dos EUA de se aperceberem do “dividendo da paz” com um corte acentuado no orçamento da defesa era uma ameaça real para o complexo industrial militar dos EUA.

Talvez como resultado disso, o conteúdo agressivo da Nato (que sempre esteve presente nesta organização) tenha sido ativamente afirmado nos anos Clinton muito em violação das promessas verbais feitas a Gorbachev nos primeiros dias da Perestroika. O bombardeamento da Nato em Belgrado, liderado pelos EUA, em 1999, é um exemplo óbvio (a embaixada chinesa foi atingida, embora não esteja claro se por acidente ou projeto).

O bombardeamento norte-americano da Sérvia e as outras intervenções dos EUA em violação da soberania de estados-nação mais pequenos é evocada por Putin como um precedente para as suas ações.

A expansão da Nato (na ausência de qualquer ameaça militar clara) até às fronteiras da Rússia durante estes anos foi fortemente questionada até nos EUA, com Donald Trump a atacar a lógica da própria existência da Nato. Tom Friedman, um comentador conservador que escreveu recentemente no New York Times, evoca a culpa dos EUA pelos acontecimentos recentes devido à sua abordagem agressiva e provocadora à Rússia devido à expansão da Nato na Europa de Leste. Nos anos 1990, parecia que a Nato era uma aliança militar à procura de um inimigo.

Putin já foi provocado o suficiente, obviamente irado com as humilhações do tratamento económico da Rússia como se fosse um caso perdido e a arrogância desdenhosa ocidental quanto ao lugar da Rússia na ordem global.

As elites políticas nos EUA e no Ocidente deveriam ter percebido que a humilhação é uma ferramenta desastrosa nas relações externas, conduzindo muitas vezes a efeitos catastróficos e duradouros. A humilhação da Alemanha em Versalhes desempenhou um papel importante no fomento da IIª Guerra Mundial.

As elites políticas evitaram a repetição disso no caso da Alemanha Ocidental e do Japão depois de 1945 através do Plano Marshall apenas para repetir a catástrofe de humilhar a Rússia (tanto ativamente quanto inadvertidamente) depois do fim da Guerra Fria. A Rússia precisava mais e merecia mais um Plano Marshall do que sermões sobre a probidade das soluções neoliberais nos anos 1990.

A humilhação de um século e meio da China pelo imperialismo ocidental (que se estende à das ocupações japoneses e da infame “violação de Nanjing” nos anos 1930) desempenha um papel significativo nas lutas geopolíticas contemporâneas. A lição é simples: humilhem por vossa conta e risco. Isso voltará para os assombrar ou para os morder.

Nada disto justifica as ações de Putin, não mais que quarenta anos de desindustrialização e supressão do trabalho neoliberal justificam as ações ou posições de Donald Trump. Mas estas ações na Ucrânia também não justificam a ressurreição das instituições do militarismo global (como a Nato) que contribuíram tanto para a criação do problema. Da mesma forma que a competição inter-estados na Europa precisava de ser desmilitarizada depois de 1945, também as corridas aos armamentos precisam de ser desmanteladas hoje e suplantadas por instituições de colaboração e cooperação fortes. Submeter-se às leis coercivas da competição, quer entre empresas capitalistas quer entre blocos de poder, é a receita para futuros desastres, apesar de ser visto lamentavelmente pelo grande capital como o caminho de apoio à acumulação infinita de capital no futuro.

O perigo numa alturas destas é que o menor erro de julgamento em qualquer um dos lados possa facilmente escalar para um confronto decisivo entre potências nucleares, no qual a Rússia se possa aguentar contra o poder militar dos EUA, até agora avassalador. O mundo unipolar que as elites norte-americanas habitavam nos anos 1990 já é agora superado por um mundo bipolar. Mas muito mais está em curso.

Em 15 de fevereiro de 2003, milhões de pessoas em todo o mundo saíram às ruas para protestar contra a ameaça da guerra naquilo que até o New York Times admitiu que foi uma expressão surpreendente da opinião pública global. Infelizmente, falharam, seguindo-se duas décadas de guerras esbanjadoras e destruidoras no mundo. É claro que o povo da Ucrânia não quer guerra, que o povo da Rússia não quer guerra, que o da Europa não quer guerra, que os povos da América do Norte não querem mais uma guerra.

O movimento pela paz precisa de ser animado para se reafirmar. Os povos de todo o mundo precisam de afirmar o seu direito a participar na criação da nova ordem mundial, baseada na paz, cooperação e colaboração em vez de na competição, na coerção e no conflito amargo.


David Harvey é geógrafo e professor emérito de Antropologia e Geografia da City University of New York (CUNY).

Palestra dada a 27 de fevereiro no Encontro Anual da Associação Americana de Geógrafos. Reproduzida pelo blogue da Verso. Tradução de Carlos Carujo para o Esquerda.net.