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Cuidados intensivos: “Situação ainda não é de catástrofe, mas já estamos em rutura”

O coordenador da Resposta em Medicina Intensiva à covid-19 diz que existe o risco de não conseguir receber todos os doentes que precisem de cuidados intensivos.
João Gouveia
João Gouveia, Presidente da Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva para a covi-19, numa conferência de imprensa em junho. Foto Miguel A. Lopes/Lusa

Na reunião desta quinta-feira que juntou políticos e profissionais de saúde no Infarmed, o responsável pela Coordenação da Resposta em Medicina Intensiva, João Gouveia, deixou alguns alertas sobre o que podemos esperar no próximo período.

“Estou preocupado, não acho que estejamos em situação de catástrofe, ainda, mas estamos já em situação de rutura”, resumiu o também presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Intensiva.

“Neste momento, temos 84% de taxa de ocupação das camas de unidades de cuidados intensivos dedicados à covid-19. Temos o risco de já não conseguir receber todos os doentes que precisem de Medicina Intensiva com covid-19 e esta situação tem uma variedade regional enorme”, afirmou João Gouveia, citado pela agência Lusa. Por exemplo, há serviços no Norte do país que estão com 113% da capacidade e outros, que “na verdade, são serviços mais pequenos” noutras regiões, entre os 40% e os 60%.

O presidente da Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva respondia às questões de Marcelo Rebelo de Sousa na reunião acerca da evolução de casos e internamentos. E avisou os presentes que o atual aumento da expansão na oferta de cuidados intensivos, com o objetivo de chegar às 967 camas, está a ser feito com “sacrifício da assistência aos outros doentes”.

“Isso é uma fatura que vamos pagar depois no fim. Vamos ter de conviver com este vírus durante bastante tempo, e não podemos manter a expansão, porque não é compatível com uma atividade médica normal”, sublinhou João Gouveia, dizendo-se preocupado com a questão de “haver ou não uma terceira, uma quarta” vaga da pandemia.

O responsável adiantou que está em marcha “um projeto de expansão mais duradouro da medicina intensiva” com vista a “conseguirmos aproximarmo-nos da média europeia e conseguirmos trabalhar em níveis europeus”, mas isso “infelizmente também demora tempo, as pessoas demoram tempo a formar-se, as obras demoram tempo, etc..”.

João Gouveia prevê que o país atinja o pico de casos em cuidados intensivos dentro de dez dias. Até agora, os números entre março e agosto mostram que a maioria dos 917 internados foram na maioria homens e “ligeiramente mais novos” do que os doentes internados nas enfermarias gerais. Quatro em cada cinco doentes que recorreram a ventilação mecânica invasiva estiveram em mediana 10 dias ventilados, “o que é francamente superior a uma pneumonia”, aponta o especialista. Embora essa duração tenha vindo a baixar, “isto ainda é uma carga muito importante em termos de serviço de saúde porque (…) nós não precisamos ter as camas apenas para os doentes que chegam, mas também os que já lá estão”, recorda João Gouveia.

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