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Críticas à precariedade marcam Gala da SPA

Com Marcelo Rebelo de Sousa na primeira fila, a atriz Inês Pereira leu o comunicado subscrito por centenas de atores contra os atrasos dos apoios da DG Artes. E Sandra Felgueiras dedicou o prémio aos jornalistas do “Sexta às Nove” que trabalham a recibos verdes.
A atriz Inês Pereira lê o comunicado contra a precariedade e os atrasos nos apoios da DG Artes que recolheu 650 assinaturas de atores em menos de 24 horas.

A Gala anual SPA Prémio Autores 2018, realizada esta terça-feira no Centro Cultural de Belém e transmitida em direto pela RTP2, distinguiu várias figuras do panorama cultural português, mas ficou também marcada por fortes críticas à situação de precariedade hoje vivida por atores e jornalistas.

Na entrega do prémio para melhor espetáculo de Teatro à peça “A vertigem dos animais antes do abate”, dos Artistas Unidos, a atriz Inês Pereira leu o comunicado sobre os atrasos da DG Artes, que em menos de 24 horas juntou a assinatura de 650 atores e atrizes.

“Fazemos teatro em condições cada vez mais precárias: sem contrato de trabalho, a recibo verde, sem previsão, muitos de nós com vencimentos em atraso”, diz o comunicado que denuncia o atraso na divulgação dos resultados do concurso dos apoios às artes.

“Continuámos em 2017 a mesma situação de miséria que se instalou no quadriénio anterior. E nada sabemos sobre 2018, 2019, a não ser que não temos vencimentos “por agora””, prossegue o comunicado, concluindo que “a maior parte de nós passará o ano de 2018 sem trabalho, sem saber se as futuras produções para as quais fomos convocados se vão manter, com salários em atraso constante ou com remunerações muito baixas”.

Jorge Silva Melo, diretor artístico dos Artistas Unidos, não esteve presente para receber o prémio, mas foi citado pouco depois por outro premiado da gala, João Pedro Mamede, autor do texto “A Marcha Invencível”, num post de Facebook em que o encenador se congratula com o anúncio do reforço de 1.5 milhões de euros no apoio às artes para 2018, feito esta terça-feira pelo primeiro ministro, na esperança de que “assim serão reparadas algumas injustiças flagrantes e evitadas outras tantas”.

“Mas não esqueçamos que o tremendo disparate começou com o tão anunciado "Novo Modelo de Apoio" (um ano de "estudos" para uma coisa daquelas?), com a confusão entre iniciativas de Estado e iniciativas fora do Estado, entre criação e programação, entre companhias e salas, entre salas e teatros... e tanta palavra incompreensivel só para ficar bem no retrato”, lembra o fundador dos Artistas Unidos, defendendo um “novo modelo de apoio - mas mesmo novo e mesmo de apoio, sem ressentimentos nem desculpas”.

Ao longo desta gala, outros premiados declaram a solidariedade com a tomada de posição dos artistas precários. Foi o caso de Rita Cabaço, vencedora do Prémio de Melhor Atriz, afirmou que “é desconsolador e perigoso a desconsideração que é dada à comunidade artística”. Rodrigo Guedes de Carvalho, premiado pelo melhor livro de ficção narrativa,  dirigiu-se ao Secretário de Estado da Cultura e ao Presidente da República para afirmar que “tudo o que aqui foi dito sobre o apoio às artes, assino por baixo e reafirmo.”

“Sr. Presidente, na minha equipa de jornalismo de investigação ainda temos três pessoas a recibos verdes”

A precariedade na RTP também foi mencionada nesta Gala da SPA pela jornalista Sandra Felgueiras, que recebeu o prémio de melhor programa de informação para o “Sexta às 9”. Nos agradecimentos, a jornalista solidarizou-se com as críticas dos atores e aproveitou a presença na primeira fila de Marcelo Rebelo de Sousa para denunciar a precariedade na empresa pública de rádio e televisão.

“Senhor Presidente, aproveitando a sua presença, quero dizer-lhe que na minha equipa, uma equipa de jornalismo de investigação, ainda temos três pessoas a recibos verdes”, alertou Sandra Felgueiras.

“Isto é verdade e eu espero que se corrija, porque não é possível fazer jornalismo de investigação com pessoas que não sabem se amanhã vão ter trabalho”, afirmou a jornalista, dedicando-lhes o prémio.

José Jorge Letria: "Não há dinheiro para a Cultura, mas há para cobrir falências de bancos"

As críticas à falta de apoios à Cultura foi reafirmada no fim da Glaa pelo presidente da SPA, José Jorge Letria, lamentando que seja “deste setor que surgem as queixas mais sentidas de abandono, de negligência, de falta de apoio e de reiterado e inaceitável esquecimento”.

“Não havia nem há dinheiro para a Cultura e para quem a cria e difunde Mas há para cobrir as escandalosas falências dos bancos, que geram a liquidação de milhares de postos de trabalho e tornam a nossa vida quotidiana cada vez mais incerta e inquieta”, prosseguiu o líder da Sociedade Portuguesa de Autores, por entre aplausos.

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