Havia um prazo pendente sobre o primeiro-ministro demissionário Sébastien Lecornu. O presidente da República francesa tinha-lhe dado 48 horas para resolver a situação depois de se ter demitido na sequência de divergências com a direita no seio do governo recém-formado. Terminado o prazo esta quarta-feira, parece que se põe de fora da tentativa de solução política da crise. Mas continua sem se saber qual esta possa ser.
Macron escolheu não falar ao país. Foi Lecornu quem deu uma entrevista à France 2 na qual diz “não voltarei a algo em que as condições não mudaram” e conclui “sou um monge soldado, esta noite a minha missão terminou”. Para ele, a situação permite ao presidente da República nomear um primeiro-ministro nas 48 horas seguintes.
E a missão não terminou sem defender que “este não é o momento para mudar o Presidente da República porque ele é, por definição, a voz da França no exterior” e “esta instituição presidencial deve ser protegida, preservada”. E anunciou que deixa um projeto de orçamento para 2026 pronto a ser apresentado ao Conselho de Ministros na segunda-feira, a data limite para a sua apresentação. Diz que este “não será perfeito” e “tem muito para debater porque foi concebido para permitir o debate”. Acrescentou ainda que tirando a França Insubmissa (LFI) e União Nacional, de extrema-direita, “todas as forças políticas que me vieram consultar disseram-me que seria muito perigoso não ter um orçamento antes de 31 de dezembro”.
O governante demissionário mantém porém algum grau de ambiguidade, insistindo que "existe um caminho possível", que "a maioria da Assembleia Nacional rejeita a dissolução, pois vê claramente que uma dissolução conduziria aos mesmos resultados" e que "há vários grupos dispostos a acordar um orçamento comum".
Nas mãos de Macron estará agora acreditar nesta via e nomear um novo governo ou destituir a Assembleia Nacional e convocar, mais uma vez, eleições legislativas, depois de das últimas não ter saído uma maioria clara.
As saídas para esta crise dividem também a esquerda.
LFI quer destituir Macron…
Quando se soube que o governo de Lecornu fracassara em menos de um dia, a França Insubmissa avançou logo com um pedido de reunião entre as forças políticas que tinham constituído a Nova Frente Popular (NFP). Mas as divergências entre estas só ficavam por essa altura ainda mais à vista do que já estavam.
A LFI insistiu na sua linha de destituição do Presidente. Uma moção nesse sentido tinha sido apresentada na Assembleia Nacional ainda antes da queda do governo, sem qualquer hipótese de alcançar a maioria de dois terços que a efetivasse. Depois, a reação de Jean-Luc Mélenchon continuou essa linha, insistindo que, caso Macron não saísse da Presidência pelo seu próprio pé, se deveria votar a destituição o mais depressa possível.
Esta quarta-feira, a mesa do parlamento francês parece ter acabado com esse caminho, tendo declarado inadmissível a proposta. Mathilde Panot, deputada dos insubmissos, notou que foi a abstenção da extrema-direita que “salvou” Macron de ter de fazer um debate que mostraria que o “problema está no Eliseu”.
...os outros querem coabitar com ele
A linha política dos seus anteriores aliados face à crise foi muito diferente. Para a maior parte, a exigência é que o Presidente chame as forças que fizeram da Nova Frente Popular o campo mais votado nas últimas eleições para formar governo.
O PS foi desde logo o mais vocal nesse sentido, tendo Pierre Jouvet, secretário nacional do Partido Socialista, dito imediatamente que “neste momento, não estamos a apelar à dissolução ou a saída do Presidente da República. Apelamos a soluções. A nomeação de um primeiro-ministro de esquerda, aberto a compromissos”. Mas Marine Tondelier, secretária nacional dos Ecologistas, também o defendeu expressamente na BFMTV: “preferimos a coabitação”. E Fabien Roussel, secretário nacional do PCF, também se lhes juntou na ideia de que “a prioridade é apelar ao Presidente da República para que nomeie finalmente um primeiro-ministro e um governo de esquerda”.
De acordo com várias análises, a linha da destituição é vista por estes partidos como meramente propagandista. Outros temem que as eleições que podem efetivamente acontecer, as legislativas antecipadas, resultem numa vitória da extrema-direita. Só que a solução de uma coabitação com a esquerda que fosse promovida por Macron também parece ser igualmente pouco realista por estar muito distante das intenções de Macron e por não conseguir reunir a maioria necessária na Assembleia Nacional.
O redator-chefe do L´Humanité, Stéphane Sahuc, jornal que já foi órgão oficial do Partido Comunista Francês e que hoje em dia se mantém muito próximo deste, defende que a esquerda não deve dar pretexto a Macron que este possa usar como desculpa para não nomear um governo de esquerda e “se o Presidente voltar a recusar e se pronunciar a favor de outra opção (dissolução, demissão, poderes excecionais), é porque a burguesia terá optado por empurrar a França para uma viragem autoritária. E a questão colocada à esquerda será de natureza diferente”. Ou seja, se alguns juram pela viabilidade de um governo à esquerda neste quadro político, outros pretendem apenas passar o ónus deste não acontecer para Macron, ao mesmo tempo que sublinham que o seu propósito seria implementar medidas populares como a revogação da reforma das pensões e a aplicação de um imposto para os ultra-ricos.
Faure, por exemplo assegura que um governo de esquerda se manteria em funções em minoria através de “compromissos”. O deputado socialista Jérôme Guedj acredita que é preciso e possível “conduzir negociações transparentes com aqueles que têm um último ponto em comum: a Frente Republicana” porque “o bloco central não deseja a dissolução”. Aurélien Rousseau, deputado do Place Publique, apela mesmo a suavizar “linhas vermelhas” para um governo de esquerda de forma a resistir até ao fim do mandato parlamentar.
A LFI, em comunicado, contrapõe a quem defende propor uma coabitação que o Presidente se tinha “recusado reconhecer o resultado das eleições legislativas anteriores” e que “apenas uma eleição presidencial antecipada permitiria ao povo soberano fazer ouvir a sua voz sem que o monarca republicano possa usar o seu direito de veto”. Os insubmissos apoiam-se em sondagens que dizem que 75% dos franceses acreditam que Macron devia renunciar ao cargo e, como diz o deputado Antoine Léaument, que “ninguém pode ainda acreditar que Macron nomeará a esquerda”.
Reunir sem a LFI
PS e LFI estão de costas voltadas até na questão de se reunirem. Arthur Delaporte, porta-voz do PS, na BFMTV, reagiu à proposta de reunião de Mélenchon com a ideia de que não cabia a este “convocar” o resto da esquerda. Mais tarde, o secretariado do partido fez saber que este iria encontrar-se com “parceiros de esquerda e ecologistas, da Place publique ao Partido Comunista, que partilham a mesma vontade de governar e de agir”.
A LFI não estava incluída no apelo e não foi convidada para a reunião que as outras forças fizeram na manhã de terça-feira. Desta resultou um comunicado comum que assumia: “estamos prontos para governar em conjunto para prosseguir uma política de justiça social, ecológica e fiscal, onde iremos repor o Parlamento no seu devido lugar”.
Os apelos à dinâmica de unidade e o ziguezague verde
Contudo, alguns apelos à unidade da esquerda foram surgindo. O mais simbólico é de Lucie Castets, à volta da qual a esquerda se tinha unido para a apresentar como candidata a primeira-ministra, e que apelou a que “todas as forças de esquerda dialoguem e estejam prontas”.
Sandrine Rousseau, deputada dos ecologistas, tinha dito por seu lado que “se os ecologistas defendem realmente a unidade, então devem pressionar para uma reunião de toda a NFP”. A sua colega de bancada Pouria Amirshahi também se pronunciou, considerando que se deve “evitar que o confronto democrático dentro do campo progressista se transforme numa paralisia”.
A desunião parece grassar no campo político verde de cima a baixo. O senador ecologista Yannick Jadot dispara: “a nossa linha não é clara, numa altura em que precisamos de assumir a responsabilidade e evitar a dissolução”. Assim, “ao ziguezaguear demasiado, os Ecologistas não estão a influenciar a saída da crise”.
A sua crítica vai diretamente para Tondelier que tanto esteve na reunião com os insubmissos a preparar o cenário da dissolução como na reunião com o PS a apelar à governabilidade.
Do lado dos comunistas, também há quem seja crítico das escolhas da sua direção. O partido escolheu não estar presente na reunião promovida pela LFI mas o deputado comunista Nicolas Sansu esteve lá, em nome do grupo parlamentar GDR, Esquerda Democrática e Republicana, o grupo dos comunistas, e afirmou a sua “discordância” com a estratégia da direção de Roussel de romper a Nova Frente Popular e aproximar-se da estratégia do PS.
De fora do parlamento, o NPA enviou uma carta aberta aos integrantes da NFP na qual afirma que “perante o perigo da extrema-direita chegar ao poder, temos o dever de fazer tudo o que for possível para a impedir e construir uma alternativa”. Para os anticapitalistas, “é essencial reavivar a dinâmica da Nova Frente Popular: uma dinâmica de unidade, que congregue as esferas social e política, ou seja, todas as forças do nosso campo”.
O cenário Borne, divisão no macronismo, falta de clareza no PS
À medida em que o prazo não vinculativo dado por Macron a Lecornu para encontrar outra solução governativa se ia esgotando, este prometia um governo menos apostado na austeridade. Mas outra possibilidade ocupou todo o campo mediático: um governo do campo macronista que suspendesse a reforma das pensões.
A proposta foi deixada pela ex-primeira-ministra Elisabeth Borne e ministra da Educação no governo anterior numa entrevista ao Parisien: “se esta é a condição para a estabilidade do país, devemos examinar as modalidades e as consequências concretas de uma suspensão até ao debate que terá de ser realizado durante a próxima eleição presidencial”, afirmou.
As declarações agitaram as águas do seu campo político. Muitos dos macronistas afastaram a possibilidade porque que iria “delapidar a herança” do seu movimento e “colocar em perigo as finanças públicas. Por exemplo, um dos autores da reforma, o ex-ministro do Trabalho Olivier Dussopt, veio dizer não acreditar “que se possa construir um acordo sobre uma negação contabilística, económica e demográfica”.
Porém, outros têm assumido que é o preço a pagar para se manter no poder. A deputada Céline Calvez defende que “não restará nada” desse legado “se perdermos esta última hipótese de compromisso antes da dissolução” e Ludovic Mendes que minimiza que seria “um compromisso” e uma “mensagem ao povo francês”.
Com a extrema-direita a dizer que a partir de agora vai inviabilizar sistematicamente todas as propostas de governo até que hajam novas eleições legislativas, os olhos do centrão que acredita nesta via viram-se para o PS.
Apesar de continuar a jurar querer ser governo, o dirigente socialista Faure considerou aquela proposta “um avanço” e dizia pretender assegurar-se que “não é simplesmente uma cortina de fumo”. Para ele, “não quero dar a impressão de que é tudo ou nada. Por vezes, há pontos que precisam de ser abordados, e reconheço o gesto que foi feito, mas coloquei-o no tempo condicional”. E acrescentou: “podemos ter uma vitória para anunciar hoje, mas ainda não é o caso”.
Estas declarações foram feitas ainda antes do seu encontro com o candidato do macronismo a fazer novo governo. Depois de hora e meia com Lecornu, o tom deste era ainda mais incerto: “não temos garantias de que uma suspensão ocorra realmente”.
Os dirigentes do PS dizem que continuam a querer um primeiro-ministro de esquerda mas também que “precisamos de encontrar uma saída para esta crise” e que estão “dispostos a ser os seus arquitetos”. Nas mesmas declarações, recusam abertamente irem para o governo com os macronistas.
Depois de também ter reunido com Lecornu, a líder ecologista reforça por seu lado que “só resta uma solução: a coabitação” porque um novo primeiro-ministro do macronismo “não duraria um minuto”. O comunista Roussel na mesma circunstância sublinhou que a revogação da reforma das pensões “seja submetida à votação dos parlamentares de uma vez por todas”.
A diabolização da LFI
Esta desunião à esquerda não é propriamente uma novidade. Parte dos antigos parceiros da NFP estão a trabalhar desde há algum tempo numa candidatura presidencial comum sem a LFI e o caminho para as autárquicas tem sido semelhante.
Para já, um caminho de unidade à esquerda parece estreito. Resta saber o que cada força decidirá fazer se confrontada com um cenário de eleições antecipadas. Há quem espere que estejam condenados a entenderem-se mas sobretudo quem sublinhe que o divórcio entre PS e LFI é definitivo.
Há algum tempo que o afastamento está consumado. Com todo o centro, direita e extrema-direita a diabolizar constantemente a LFI, tantas vezes mais do que a extrema-direita, aquele partido optou por se afastar dos insubmissos e procurar levar consigo resto da antiga frente popular, preferindo à unidade à esquerda o discurso da “responsabilidade” e flirtando com a ideia de uma frente republicana que apresenta esquerda e extrema-direita como se representassem o mesmo tipo de perigo para o país.