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A criação e a distribuição de valor na agricultura

Atualmente, entre os agricultores, a principal dificuldade identificada e de permanente indignação prende-se com a valorização da produção no mercado. Por Ricardo Vicente
Tomate fresco: Ao longo dos anos 90, mas em especial durante a última década, as transformações foram muito grandes e contínuas: a área de culturas em estufa cresceu bastante - Foto de Sarmale / Olga/flickr

A questão da quantidade e da qualidade da produção parece ser secundária aos olhos de quem vive e constrói a agricultura. Assim sugerem os agricultores com quem diariamente contacto na Região Oeste.

Consideremos dois exemplos: a produção de tomate para consumo em fresco e a produção de abóboras, culturas cuja produção nacional se concentra em cerca de 80% na Região Oeste, com áreas aproximadas de 400ha de tomate (em estufa) e 1.500ha de abóboras, com um valor total de produto comercializado, à saída das centrais hortícolas, de 50 milhões de euros, aproximadamente. Ambas as culturas têm uma história de sucesso produtivo na região:

- Abóboras: No final da década de 90 a importância da cultura era residual, poucos agricultores a praticavam e aqueles que o faziam cultivavam áreas muito pequenas, num sistema de cultivo em sequeiro. Durante a última década tudo se transformou: surgiram novos produtores e armazenistas que criaram redes de comercialização; a área cultivada aumentou brutalmente; melhoraram as técnicas de produção, com surgimento de novas variedades, mecanização de práticas culturais, implementação de regadio e de equipamentos de adubação localizada; duplicou-se a produção por hectare; surgiram alguns produtos processados; e a cultura iniciou expansão para outras regiões do país.

- Tomate fresco: na década de 90 a produção era muito baixa e quase exclusivamente dedicada ao mercado nacional. Ao longo dos anos 90, mas em especial durante a última década, as transformações foram muito grandes e contínuas: a área de culturas em estufa cresceu bastante e a cultura do tomate ganhou hegemonia; implementaram-se sistemas de fertirrega automatizados em quase toda a área cultivada; em 1997 surgiu a primeira área de cultivo sem solo (1.500m2); após uma intempérie que destruiu a quase totalidade das estufas da região em 2009, a reconstrução possibilitou a modernização, com implementação de estufas metálicas com sistemas de ventilação automatizados por toda a região; a produção / ha disparou; em 2015 existem cerca de 200ha de cultura sem solo; algumas práticas de Proteção Integrada como a largada de auxiliares tornaram-se vulgares; e estão a surgir os primeiros ensaios de implementação de sistemas de climatização.

Apesar dos elevados níveis de produção e da razoável qualidade do produto obtido, a viabilidade económica destes sistemas de produção, tal como os conhecemos, pode estar em causa. Se por um lado os custos de produção são muito elevados, com os consumos intermédios a representar em média 50%, mão-de-obra 26% e amortizações 20%, por outro o valor de comercialização da produção é frequentemente demasiado baixo. As dificuldades com que estas duas culturas se confrontam são comuns a muitas outras localizadas em todo o país. Assim, é urgente intervir sobre a cadeia de valor, gerando novas formas de valorização e uma mais justa repartição ao longo da cadeia, mas também ao nível da otimização do consumo de fatores de produção. Segue-se uma breve análise ao que considero serem as duas principais limitações para prosseguir este caminho.

Investimentos desproporcionais

Nos últimos anos a linha de pensamento dominante sobre a evolução da agricultura e sobre a sua capacidade para responder aos desafios do futuro, nomeadamente às necessidades alimentares da crescente população mundial e na resposta às alterações climáticas e preservação de recursos naturais, aponta para a evolução e aplicação tecnológica como a principal solução. Cresce a ideia de uma agricultura de precisão. Numa análise ao nível das explorações agrícolas, é fácil perceber que a tecnologia tem um papel relevante, mas também claramente insuficiente, mesmo em condições em que o acesso seja garantido.

Por facilidade, imaginemos um esquema em que a maximização do valor gerado por uma exploração agrícola ou conjunto de explorações, corresponde à área de um triângulo, em que os seus lados representam os investimentos: tecnologia pós-colheita; tecnologia de produção e conhecimento técnico-científico. A maximização do valor gerado pela atividade exigirá assim a proporcionalidade dos investimentos realizados.

Se aplicarmos este modo de visualização aos dois casos de estudo anteriormente abordados encontraremos triângulos com configurações bastante diferentes, decorrentes da desproporcionalidade dos investimentos realizados:

- Tomate fresco: é vulgar encontrar explorações agrícolas com investimentos tecnológicos superiores a 200 mil euros por hectare, tenham elas dimensões inferiores a 1ha ou superiores a 5ha. A maioria das explorações, talvez a totalidade, tem um acompanhamento técnico insuficiente ou inexistente e, em consequência, não conseguem a rentabilização do investimento tecnológico realizado (ex: instalaram-se sistemas de fertirrega capazes de realizar monitorizações ajustadas ao ciclo cultural e época do ano, mas não são devidamente utilizados). Nesta situação, por mais que a tecnologia possa evoluir, os seus benefícios estão altamente limitados por um fator humano e a otimização do sistema depende essencialmente da incorporação de conhecimento.

- Abóboras: houve um investimento razoável em tecnologias de produção, tendo-se alcançado produções médias de 30 a 40 toneladas em muitas explorações agrícolas, mas o fraco investimento ao nível das tecnologias pós-colheita e do conhecimento técnico-científico tem como consequência perdas anuais de 30% a 60% da totalidade da produção durante o período de armazenamento. Nesta situação, a otimização do sistema e a maximização do valor gerado depende do investimento combinado em tecnologia pós-colheita e conhecimento técnico-científico.

Concentração de valor na cadeia de distribuição

O diferencial entre os preços pagos ao produtor e os preços pagos pelo consumidor é bastante elevado como se pode verificar na tabela seguinte. A margem aplicada para três tipos de couves variou entre 231% e 888%, no dia 9 de Junho de 2015. Quanto à cultura do tomate fresco (rama), a margem era de 198%. Durante o mês de Junho a quantidade de abóbora nacional presente no mercado é residual. Esta situação é possibilitada pelo elevado domínio da grande distribuição no mercado de bens alimentares e pela ausência de qualquer regulamentação de preços. As consequências são gravosas para todos os agricultores mas também para os consumidores, limitando a produção e o consumo. Tratando-se de produtos não transformados, o acréscimo de valor real gerado ao logo da cadeia é muito reduzido, pelo que não há justificação para este diferencial (ver esquema abaixo). Aparentemente, o valor de mercado concentra-se tendencialmente no nível da cadeia de valor mais distante do momento de criação original da mercadoria em causa. Assim, a retribuição da atividade distribuição supera a produtiva, condicionando o desenvolvimento da produção e, consequentemente, a criação de valor.


9 – Junho

2015

Produtor

(Leilão)

Consumidor

(Continente)

Margem

Tomate fresco

< 0,60 €

1,79 €

198 %

C. Coração

0,48 €

1,59 €

231 %

C. Lombarda

0,08 €

0,79 €

888 %

C. Brócolo

0,75 €

2,59 €

245,00%

 

Sobre possíveis soluções

A otimização dos sistemas de produção agrários e a procura pela sua sustentabilidade exigem uma grande incorporação de conhecimento. O tecido agrícola nacional está longe de estar preparado para esse caminho, independentemente da dimensão das explorações agrícolas em análise. Existem, grosso modo, duas visões muito distintas e incompatíveis sobre o caminho que devem seguir as políticas agrícolas, sendo a segunda dominante: 1) garantir a integração dos agricultores de pequena e média dimensão nos mercados e a continuidade da atividade agrícola da maioria dos agricultores, que é de alguma forma complementar a outras atividades económicas, mas que apesar disso tem margem para se desenvolver; 2) obrigar à especialização na atividade agrícola, com favorecimento das unidades de grande dimensão e marginalização da maioria dos atuais agricultores. A opção 2 parece já estar em marcha e terá custos sociais e económicos elevadíssimos para o país se prosseguir, no entanto, ambas as vias necessitam da criação de uma rede que seja capaz de capitalizar as explorações agrícolas com conhecimento técnico-científico. Esta resposta poderá passar pela recuperação e modernização da ideia de extensão rural.

A justa valorização no mercado ao longo da cadeia depende mais da intervenção política, através da criação de mecanismos de regulamentação de mercados a nível nacional e internacional, do que de qualquer ação inovadora que os agricultores possam desencadear. No entanto, existem experiências pontais que apesar da impossibilidade de se tornarem uma alternativa global, demonstraram ser capazes de atenuar o problema, através da criação de produtos diferenciados ou de redes alternativas de comercialização.

Artigo de Ricardo Vicente

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro agrónomo, cabeça de lista do Bloco de Esquerda no distrito de Leiria
Termos relacionados Agricultura Portugal, Sociedade
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