Foi lançado na sexta-feira em Lisboa o livro “Mulheres, Terra e Revolução - O 25 de Abril visto pelas mulheres rurais” (ed. Tinta da China), que desenvolve o documentário homónimo lançado no ano passado por Cecília Honório e Rita Calvário. As autoras responderam a algumas questões do Esquerda.net sobre este trabalho de investigação.
O que vos levou a querer contar a história das mulheres rurais na Reforma Agrária no pós 25 de Abril? Como surgiu a ideia para este projeto que conta com um documentário e que sai agora em livro?
O documentário e o livro debruçam-se sobre a participação das mulheres rurais na Revolução e o impacto desta nas suas vidas. O livro sai agora mas foi o ponto de partida deste estudo, donde sai o documentário, estreado no final de 2025 no Festival de Cinema “Olhares do Mediterrâneo”.
O livro parte do património de representações sociais sobre as mulheres rurais, no Estado Novo, nos movimentos de mulheres, na imprensa, no partido, para aferirmos os olhares exteriores sobre as mulheres rurais que as empurravam para a sombra. Daí procurámos desocultá-las, revelá-las, nas lutas antes e durante a Revolução de Abril. Fizemo-lo através da pesquisa da imprensa da época, da literatura disponível, da pesquisa da documentação das cooperativas, da recolha de testemunhos orais. O documentário conta a história do “elas estiveram lá” a partir das suas vozes, que são fortes e claras. Entrevistamos mulheres que participaram nas cooperativas, que foram dirigentes sindicais, e ativistas nos movimentos camponesas; entrevistámos ainda mulheres jornalistas, no reconhecimento histórico do seu papel nas lutas das mulheres. O livro aprofunda a análise a partir de uma perspetiva de género, aprimorando o significado da ação coletiva destas mulheres nas relações de poder entre homens e mulheres e ressaltando as suas perspetivas sobre o que foi a Revolução nas suas vidas a nível de direitos e sociabilidades. A Reforma Agrária surge com destaque porque foi uma das mais importantes conquistas de Abril, onde o poder popular foi expressivo e os trabalhadores rurais conquistaram a capacidade de governar as suas vidas, e onde o papel das mulheres foi determinante.
Como surgiu este projeto? Surge do encontro de duas perspetivas de investigação diferentes, mas onde as mulheres e os seus direitos importam. Nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril e dos 50 anos da Reforma Agrária, havia um grupo social que permanecia invisibilizado e secundarizado. Elas ou não aparecem nas narrativas da Revolução ou aparecem num lugar de opressão. Quisemos trazer ao de cima o outro lado, o da ação política e da participação, da mulher enquanto sujeito histórico e político, fazendo a disputa da memória da Revolução em que o poder popular não se pode construir, nos campos, sem elas.
O filme foi apresentado no Festival Olhares do Mediterrâneo, no Museu do Aljube, que é dedicado à memória da resistência e da liberdade. Qual é a importância de ter sido apresentado neste espaço?
Foi muito importante participar neste festival que visibiliza o cinema no feminino, e sendo este documentário sobre mulheres rurais e a Revolução, pareceu-nos o encontro perfeito. A exibição de estreia no Museu do Aljube foi o lugar certo, pelo seu significado na preservação e divulgação da memória sobre a resistência à ditadura e a conquista da liberdade e democracia, mas também pelo excelente trabalho que foi feito sob direção da Rita Rato nas áreas do feminismo e das mulheres, entre outras. Esperemos que assim permaneça, embora sob outra direção.
Tanto o documentário como o livro representam uma etnografia de emergência, como é que foi o processo de pesquisa? Quantos testemunhos recolheram, qual o critério de seleção e como é que localizaram as mulheres que participaram na investigação?
Nos 50 anos do 25 de Abril, do processo revolucionário e da Reforma Agrária, tornava-se urgente resgatar os testemunhos e histórias de vida de quem participou ativamente na sua construção, indo além da história das elites ou dos dirigentes, que está relativamente estudada, para ir ao relato das “mulheres comuns”, de quem construiu o poder popular e esteve nas suas bases sociais. Fomos à procura dessas histórias, mas também das mulheres que foram dirigentes do sindicato, da cooperativa ou do movimento camponês. Elas não foram maioria, mas houve avanços no plano da participação, quer da organização, quer, nalguns casos, de liderança. Outras tomaram a palavra em vários encontros/iniciativas, tal como se envolveram nas manifestações e noutros protestos ou se auto-organizaram para participarem em “igualdade” nas assembleias da cooperativa. Os testemunhos destas vertentes permitem-nos fazer a inscrição dos seus nomes e dos seus contributos. Também recolhemos o relato de mulheres jornalistas que acompanharam o processo revolucionário e assistiram às dinâmicas no terreno.
Recolhemos um total de 22 testemunhos, dois dos quais de homens, um dirigente de uma cooperativa, outro de um movimento pela defesa dos baldios na região do Vouga. Os restantes são de 17 mulheres que participaram na Reforma Agrária, quer como trabalhadoras, membros ou dirigentes da cooperativa, delegadas sindicais locais ou dirigente do Sindicato de Trabalhadores Agrícolas (STA), de vários distritos, Beja, Évora, Setúbal, Portalegre, Lisboa, Santarém; duas jornalistas, do Avante e do Diário de Lisboa; e uma ativista no Movimento de Agricultores por uma Melhor Previdência Rural (MAPRU) do distrito de Castelo Branco. Perguntámos a pessoas conhecidas, contactámos juntas de freguesia, sindicatos e coletividades, vasculhámos a internet, procurando ter diversidade geográfica, etária e de envolvimento militante. É um número pequeno se considerarmos que há milhares de pessoas que participaram nestes processos, mas julgamos que oferecem um retrato fiel do que foi o papel das mulheres rurais nas transformações económicas, sociais e culturais da Revolução.
No livro procurámos incluir os testemunhos praticamente na íntegra, pela sua relevância na memória histórica, mas também pela sua força narrativa e importância de dignificar o seu contributo e das suas vozes.
Existe alguma história que vos tenha marcado e que tenha sido importante para o processo de investigação e construção tanto do documentário como do livro?
Todas as histórias foram marcantes e marcaram o próprio registo do documentário: há sempre um antes, da vida da fome e miséria, em que “não havia nada”, e um depois marcado pela esperança da Revolução, sobretudo com a “Agrária” e a cooperativa, onde se conquistou “a vida boa”, aquele que foi um “tempo maravilhoso”, “o melhor tempo das nossas vidas”, segundo vários testemunhos. Todos os testemunhos são muito fortes e diretos. Elas sabem bem o que foi a Revolução, não há hesitação, nem incerteza. E isto não significa que não têm críticas a apontar, de processos menos claros ou que podiam ter funcionado melhor. Para elas a Revolução foi ganharem direito ao trabalho, ao salário, à alimentação, à creche, às férias, às oito horas de trabalho, ao descanso, assim como foi o ganhar o direito à palavra, à tomada de decisão, à liberdade de ir ao café, de cortar o cabelo, de largar o xaile, o ter acesso ao planeamento familiar, à pílula, à liberdade sexual. Elas sabem-nos bem e dizem-no sem tibiezas. A Reforma Agrária para elas não foi sobre modelos de cooperativismo ou ideais partidários: foram mudanças concreta nas suas vidas em que ganharam autonomia e reconhecimento pelo que elas eram. Não foi perfeita, muito ficou pelo caminho, o patriarcado não acabou, houve tanto que ficou por fazer. Elas sabem-no, mas não duvidam que foi “muito importante” para os trabalhadores rurais, sobretudo para elas. Elas sabem que a Revolução foi interrompida, que quem vivia do seu trabalho perdeu, teve de voltar a baixar a cabeça, a trabalhar para os ricos ou a ter de emigrar. O fim da “Agrária”, com toda a violência que teve, foi um trauma que ainda hoje persiste. Ao contrário das narrativas muitas vezes oficiais, a Reforma Agrária não foi uma excentricidade ou algo fora do tempo; foi feita por elas e eles, na procura de uma vida melhor e digna, porque “a gente não queria a terra, a gente queria trabalhar a terra”, conforme refere um testemunho.
A narrativa ao longo do documentário está muito ligada a questões em torno do género: de que modo é que o género moldou a forma como estas mulheres vivenciaram a revolução e a Reforma Agrária?
O conceito de género remete para a construção social sobre o que significa ser “mulher” ou ser “homem”. Isto implica olhar para as representações que caíram sobre as mulheres rurais e condicionaram a sua entrada na Revolução. Durante o Estado Novo a mulher estava subordinada ao pai e ao marido, inscrita na lei e na moral social dominante. No caso das mulheres rurais, que sempre trabalharam a terra como assalariadas agrícolas, à jorna, ou como camponesas, este trabalho era visto como uma extensão do trabalho doméstico, um complemento ao salário familiar ganho pelo homem, e, portanto, era desvalorizado. É, por isso, que o salário das trabalhadoras rurais era metade ou 2/3 do do homem. As camponesas eram, muitas vezes, as únicas que trabalhavam a terra, quando o homem emigrava. Com trabalho remunerado ou não, as mulheres rurais era contabilizadas nas estatísticas como «domésticas», «donas de casa» ou «com ocupação familiar». Parte destas representações entraram na Revolução, não se desfizeram com ela. O patriarcado estava, e está, bem incrustado na sociedade. Daí ser relevante perceber como era a vida destas mulheres e como lutaram contra as desigualdades no quotidiano, nas vertentes do trabalho, do salário, dos direitos, da participação, do corpo. O género serve, então, como uma lente para entender o papel das mulheres rurais na Revolução, retirando-as do lugar da vítima, da “outra” que é olhada sempre em relação ao homem, ou daquela que luta em defesa da família. A nós interessava-nos entender a ação coletiva feminina, o seu significado no romper a imagem de subalternidade-domesticidade das mulheres e qual a sua extensão. Interessava-nos também compreender “as portas que a Revolução abriu” na mudança das sociabilidades, dos quotidianos e dos direitos, mesmo que elas não tenham conquistado salário igual, alterado a divisão sexual do trabalho, dentro e fora de casa, ocupado menos lugares de direção, etc. A perspetiva de género permite um olhar mais aprofundado e complexo sobre as transformações da Revolução, entendendo que os quotidianos são moldados por relações de poder e conflito. E para isso, é preciso ir aos testemunhos orais e às histórias de vida, contando com o olhar das próprias mulheres rurais sobre essas mesmas transformações.
Como é que a luta da Reforma Agrária se conecta com as lutas feministas dos dias de hoje?
A Reforma Agrária, como expressão maior do poder popular, da conquista da cidadania e da capacidade de tomar em mãos o governo da própria vida, como refere Fernando Oliveira Baptista, tem vários legados, embora hoje eles pareçam pouco evidentes. Primeiro, é a importância da mobilização social e organização popular para mudar o rumo das coisas e do fundamental das lutas para “ganhar” direitos e evitar “recuos”. Num contexto de crescimento da extrema-direita, do conservadorismo, de um machismo bafiento e perigoso, isso é ainda mais relevante. Segundo, quando o território, em especial o marcado pela Reforma Agrária, da grande propriedade, está a ser tomado de assalto pelo extrativismo agrário, energético e turístico, sem solução para os problemas das populações locais e assente na exploração violenta da mão-de-obra migrante, precária e vulnerável, conhecer o que foi a Reforma Agrária, o que representou na conquista de direitos e outro modelo de desenvolver os territórios, é muito relevante. Para as mulheres também, não só porque em várias destas industrias extrativas elas são a principal mão-de-obra, mas mesmo quando não o são, são elas que permitem a reprodução dessa força de trabalho. Além disso, a luta feminista precisa de olhar para as realidades das mulheres rurais, trabalhadoras agrícolas, camponesas, ou outras, pois as desigualdades que enfrentam e as suas lutas são específicas, e muitas vezes invisibilizadas e menorizadas, pelo próprio movimento feminista que tem leituras sobre o trabalho, a reprodução social, as desigualdades como uma perspetiva urbanocêntrica que não dialoga com as realidades, necessidades e aspirações destas mulheres.
Que impacto esperam que este projeto possa ter tanto a nível social como político?
O filme está a ser exibido pelo país, em salas de cinema, em coletividades, em cineclubes, em associações culturais, etc. Está a servir para animar conversas, debates, oficinas em escolas e com universidades séniores. O livro está disponível para o público em geral, escrito numa linguagem acessível. Esperamos contribuir para incluir as mulheres rurais na memória coletiva da Revolução; renovar as narrativas que existem sobre a Revolução e a Reforma Agrária, trazendo para o centro a sua expressão enquanto mobilização social e poder popular, nas quais as mulheres e as mulheres rurais foram fundamentais; e estimular o interesse da população mais jovem sobre este processo chave da conquista da democracia e liberdade e que as gerações que viveram este período contem as suas histórias e partilhem os seus testemunhos.
Agora com o documentário e o livro feitos, há algo que fariam diferente?
Não. Estamos contentes com o resultado.