“Estamos a experienciar, no Serviço de Urgência, o mesmo fenómeno que observámos na primeira e na segunda vagas que foram as mais significativas na região Norte”, afirmou à agência Lusa o diretor da Unidade Autónoma de Gestão (UAG) de Urgência e Medicina Intensiva do Centro Hospitalar Universitário de São João.
Nelson Pereira fala de um aumento de 40% de casos a chegarem às urgências no espaço de poucos dias. A taxa de positividade passou de 1% a 2% para os 15% e está em crescimento, acrescentou. “O crescimento parece estar a ser explosivo e as estruturas que estiveram montadas para dar resposta a estas situações talvez estejam agora um bocadinho perras e com dificuldade em acompanhar este crescimento rápido. Mas ou se agarra o processo desde o princípio e se põe um travão, ou a situação dispara e o problema torna-se cada vez mais complexo”, concluiu Nelson Pereira.
Variante Delta obriga ao aumento da fasquia para imunidade de grupo
O aumento de casos de covid-19 em Portugal, com a variante Delta a ganhar predominância sobre as restantes, veio comprometer a meta traçada para a imunidade de grupo. A ministra da Saúde, Marta Temido, admitiu esta terça-feira em declarações à Lusa que a meta de 70% da população vacinada para garantir a imunidade de grupo terá de ser revista face a este desenvolvimento.
“Neste momento, o que se sabe é que a variante Delta é mais agressiva quando existe apenas uma dose de vacina administrada. Também sabemos que não basta ter a administração das duas doses de vacina, é necessário que haja um período de tempo que passe sobre a segunda administração”, afirmou a ministra. Mais de metade da população portuguesa (53%) já foi vacinada com pelo menos uma dose, anunciou a Direção Nacional de Saúde esta terça-feira.
Para o médico José Artur Paiva, a emergência da variante Delta irá aumentar a fasquia da imunidade de grupo para os 85% da população com anticorpos contra o vírus. Em declarações à Antena 1, este membro da Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva para a COVID-19 diz que a redução da idade dos internados mostra a eficácia da vacina, mas também critica a lentidão da respostas das autoridades portuguesas ao aparecimento da nova variante, como já tinha sucedido em dezembro com a variante Alfa, então conhecida como “variante britânica”.
À semelhança de outros países, Portugal está a preparar-se para que o esforço de vacinação tenha de ser repetido ou eventualmente integrar o programa nacional de vacinação. Marta Temido diz que será de admitir “que pessoas que tenham uma imunidade mais frágil, os mais idosos, possam precisar mais de uma repetição da vacina do que outros, mas, uma vez mais, não podemos esquecer-nos que estamos a falar de um vírus novo, de uma doença nova, de uma vacina nova e que as respostas pelas quais ansiamos precisam de tempo para ser formuladas pela ciência”. A União Europeia já decidiu fazer uma compra conjunta de cerca de 900 milhões de doses da vacina para 2022 e 2023.
Algarve com transmissibilidade mais elevada
Apesar da região de Lisboa concentrar o maior número de casos ativos, no início da semana o índice de transmissibilidade (Rt) do vírus SARS-CoV-2 no Algarve era de 1.3, o mais elevado do país. Até domingo estavam identificados 32 surtos, sobretudo com origem em contexto laboral, escolar e em festas.
A delegada regional de saúde mandou fechar mais de 120 escolas dos 1º e 2º ciclos nos concelhos de Albufeira, Loulé, Olhão, São Brás de Alportel e Faro até ao final do ano letivo. Ana Cristina Guerreiro disse à Lusa que há mais de 1.300 alunos de 52 turmas em isolamento nos concelhos afetados pelo encerramento.
O efeito do alastrar da pandemia na região preocupa também o presidente da Região de Turismo do Algarve. Entrevistado pelo Dinheiro Vivo, João Fernandes diz esperar que em agosto os britânicos vacinados já possam viajar para os países da lista âmbar, mas a incerteza é grande. “Se há coisa que aprendemos com esta pandemia é que, de uma semana para a outra, os cenários mudam completamente. Portanto, é muito difícil antecipar o que será o verão à luz do que sabemos”, diz o responsável pelo setor do turismo algarvio.
João Fernandes defende também que é necessário reajustar os apoios ao setor do alojamento e restauração, nomeadamente através de apoios a fundo perdido para fazer face às despesas do setor quando se esperava que o verão trouxesse o regresso dos turistas europeus. “Os empresários contrataram pessoas, adquiriam géneros alimentares e equipamentos e, agora, não têm receita para fazer face a esse investimento. Há aqui uma condição que não era esperada”, conclui João Fernandes.