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Coronavírus: Cuidados a ter com a saúde mental

Entrevistada pelo esquerda.net, a psiquiatra Ana Matos Pires fala sobre as estratégias para preservar a saúde mental em isolamento, e dá a conhecer as respostas que existem hoje para lidar com esta questão.
Ana Matos Pires

Ana Matos Pires é psiquiatra, diretora do serviço de psiquiatria do ULSBA (Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo) e docente na Faculdade de Medicina da Universidade do Algarve.

Quais as estratégias para preservar a saúde mental em isolamento?

Começam por ser estratégias para preservar a saúde em geral, naturalmente. A primeira delas todas é a manutenção das rotina. Não é fácil, mas passa por tentarmos mimetizar em casa aquilo que é a nossa rotina habitual fora de casa. Isto significa levantarmo-nos a horas regulares, tomarmos banho, vestirmo-nos, cumprir os horários de refeição e de trabalho, como se estivéssemos fora de casa. Para quem está em teletrabalho, deve ter horários de pausa. 

Além disto, as interações em família têm de ter uma atenção redobrada. Estamos todos muito mais em casa. E se por um lado isso é muito bom, por outro lado pode ser um fator de desgaste e é preciso que os adultos, sobretudo, tenham isso em atenção. Ter noção de que é muito importante estar informado mas não ser intoxicado por informação, muita dela que não vem de sítios fiáveis. Isso é um dos aspectos importantes. 

Todos nós estamos com mais tensos do que o habitual. Não estamos todos doentes nem vamos ficar todos doentes, felizmente, mas de facto a intoxicação noticiosa, muitas vezes de fontes questionáveis, é um fator de ansiogénico, um fator de agravamento dos nossos medos, dos nossos receios, e portanto é preciso ter muita atenção com esse tipo de uso da informação. 

Depois, devemos utilizar tudo o que forem recursos informáticos para nos mantermos em contacto com os amigos e com a família. Isto é particularmente importante no caso de pessoas com mais idade, sobretudo se vivem sozinhas. A preocupação dos familiares em manterem um contacto muito frequente, seja por telefone,  vídeo chamadas, ou as estratégias que puderem, para se manter o contacto social. Porque, de facto, o isolamento físico não é sinónimo de isolamento social. Concluindo, uma boa medida de manutenção da saúde mental é quebrar o isolamento social e as estratégias que temos neste momento são estas.

Quem deve pedir ajuda?

Não querendo patologizar - passe o neologismo - os nossos comportamentos, insisto que, se estivermos numa situação de desespero ou de sofrimento acrescido - e nisto cada um de nós se conhece melhor do que ninguém - então, nesse caso, deve-se recorrer ao pedido de ajuda. Recorrendo ao Serviço Nacional de Saúde, através dos cuidados de saúde primários e dos serviços locais de saúde mental, têm uma resposta organizada neste momento.

Qual o percurso feito por quem tiver queixas de saúde mental?

Alguém que chega ao seu centro de saúde, com alguma queixa que diga respeito ao prejuízo da sua saúde mental, tem disponíveis técnicos de saúde com formação nesta primeira intervenção. Nos primeiros cuidados psicológicos, os psicólogos avaliam a situação e determinam: consigo resolver; está resolvido; esta pessoa não precisa de mais nada. Noutros casos: não, esta pessoa precisa de um acompanhamento ao nível dos cuidados de saúde primários, mantém esse acompanhamento, ou, não, essa pessoa precisa de uma intervenção especializada, e faz-se o encaminhamento para o serviço local de saúde mental. Em traços gerais esta é a resposta articulada da saúde mental no âmbito do SNS, numa articulação entre os cuidados de saúde primários e os serviços de psiquiatria e saúde mental.

Quando foi criado o Plano de Emergência para a Saúde Mental?

Este Plano de Emergência não começou a partir de ontem, já está no terreno. No fundo, do que é que se trata? Na sequência dos incêndios de 2017, o Programa Nacional para a Saúde Mental formulou um conjunto de regras, que depois foram plasmadas em despacho (o despacho 70/59 de 2018), que determinava um estrutura de funcionamento da saúde mental, no contexto do SNS, para uma resposta a catástrofes ou acidentes.  

No início desta pandemia, fomos buscar as regras gerais plasmadas nesse despacho, aplicando-as às particularidades da atual situação. Em seguida, os serviços locais de saúde mental, de todo o país, por indicação dos 5cinco coordenadores nacionais (cada ARS tem um coordenador regional para a saúde mental) colocaram em marcha a reorganização dos serviços, de acordo com o modelo que está plasmado no despacho.

Que modelo é esse?

Em primeiro lugar, é um modelo de intervenção que obriga a uma interligação entre os cuidados de saúde primários e os serviços de saúde, naquilo que é a resposta a situações de crise, a situações de emergência. Responde a  como é que nos devemos articular uns com os outros, tendo por base que a primeira resposta está sempre sediada nos cuidados saúde primários. No fundo, o que o Plano determina é a constituição de dois núcleos, os núcleos locais de cuidados de saúde primários e os núcleos locais de psiquiatria e saúde mental, que no fundo serão os concretizadores deste plano, que tem também, ao nível de cada ARS, um grupo coordenador.

Além desta articulação, o despacho determina também as obrigações dos serviços mínimos de qualquer serviço se saúde mental, nomeadamente a manutenção das consultas, a manutenção das actividades de internamentos, a manutenção das atividades de urgência e a manutenção da psiquiatria de ligação. O que é a psiquiatria de ligação? É a ligação do serviço de psiquiatria aos restantes serviços do hospital.

Qual é a composição de cada grupo?

Do núcleo dos cuidados de saúde primários fazem parte um médico de medicina geral e familiar, um psicólogo, um enfermeiro e um técnico superior de serviço social. Do núcleo dos cuidados de saúde mental fazem parte um psiquiatra, um psicólogo, um enfermeiro especialista em psiquiatria e saúde mental, e um técnico superior de serviço social. 

Portanto, aquilo que é pretendido é que haja uma primeira resposta, que se chama resposta de primeiros cuidados psicológicos, ao nível dos cuidados de saúde primários. Essa primeira intervenção é estruturada no modelo cuja orientação adotada é a da Organização Mundial de Saúde, que determina o encaminhamento pela gravidade do quadro da pessoa que pede ajuda.

Que adaptações específicas foram feitas devido à pandemia?

Primeiro, a necessidade de fazer formação em primeiros cuidados psicológicos, por exemplo a pontos focais das autarquias e a pontos focais das coordenações locais de ação social de cada autarquia. De facto, falo naquilo que foi feito no sítio que conheço melhor, só para servir de exemplo, no serviço local de saúde mental de Beja isso foi feito, o psicólogo do núcleo de cuidados de saúde primários e a psicóloga do núcleo dos serviços de saúde mental fizeram essa formação a pontos focais de psicólogos das autarquias, é uma diferença que não estava completamente prevista e que nos pareceu importante fazer. 

Outra coisa que não estava prevista, porque ninguém fazia ideia que ela fosse necessária, é a obrigatoriedade dos serviços locais de saúde mental terem respostas feitas para os doentes covid-19 e suas famílias. Sempre que quem está a gerir a linha Covid precisar, e neste momento refiro-me a  doentes Covid que quer estejam em internamento, quer estejam em internamento domiciliário, se estas equipas precisarem, nós estamos de retaguarda e há uma linha direta para estas situações.

Por outro lado, existe a obrigatoriedade de haver uma linha de apoio para os próprios profissionais da instituição. Foram os dois acrescentos que nós fizemos para a adaptação para a realidade atual, daquilo que estava previsto para a intervenção na saúde mental, no âmbito do SNS em contexto de catástrofe.

Qual o objetivo do site da DGS dedicado à saúde mental?

A comunicação para o público é de facto muito importante, não vale a pena ter recursos se quem deles precisa não sabe que eles existem e como é que eles funcionam. Portanto, a preocupação do Programa Nacional para a Saúde Mental foi arranjar um canal de comunicação para a comunidade com indicações simples, e, em linguagem não técnica, prestar apoio, no sentido de explicar onde se pode pedir ajuda, como se pode pedir ajuda, e, por outro lado, deixar algumas dicas para situações que nos parecem mais importantes, nomeadamente: o risco de suicídio, o contacto direto e informal com quem é doente mental grave. Tudo com questões muito práticas relativas à obtenção de terapêutica e às eventuais alterações de saúde mental. 

No fundo, foi nossa preocupação arranjar um canal aberto para o público de base informativa. Por outro lado, foi também nosso propósito disponibilizar todos os contactos. Quer ao acesso direto dos cuidados de saúde primários de todo o país, quer aos diferentes serviços locais de saúde mental na sua vertente adulta, e na sua vertente de infância e adolescência.

Além disso, foi uma preocupação do próprio site dar respostas mais específicas para os profissionais, na tentativa de manter o mais possível a saúde mental dos próprios profissionais de saúde, que estão obviamente numa situação de tensão muito grande e de desgaste. Por outro lado, deixar algumas referências científicas recentes sobre o assunto.

Lembro que estamos todos, preferencialmente, a fazer a nossa atividade clínica via telefone, por razões da própria pandemia, o que dificulta ainda mais a estratégia, a articulação tem de ser muito grande, pareceu-nos que era muito importante a comunicar o que se estava a passar para o público, que precisa de nós.

Como se faz esse apoio telefónico e que encaminhamento posterior recebem as pessoas?

Todos os serviços locais de saúde mental têm neste momento linhas telefónicas de contacto dos cuidados de saúde primários e linhas telefónicas para os profissionais. Depois, existe de facto a linha de apoio psicológico integrado no SNS24, que será um fluxograma de encaminhamento das pessoas para os serviços locais de saúde mental, até porque há um pedido que nós fazemos, vou aproveitar para o fazer também aqui, que é o seguinte: o encaminhamento das pessoas não é prioritariamente para a urgência, nós estamos a tentar evitar ao máximo a ida à urgência, e a pedir que o encaminhamento seja feito primeiro por telefone. Isto, para conseguirmos, nos serviços locais, avaliar a necessidade, ou não, da vinda à urgência, até porque muitas das situações, mesmo as mais graves, não precisam de uma avaliação de urgência.

Este não é o percurso final ideal. Peço também que todas as linhas de apoio tenham alguma articulação com os serviços locais de saúde mental, porque tem de haver uma finalização do apoio. Nós, todos juntos, vamos fazer melhor. 

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