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O impacto do isolamento nas perturbações do comportamento alimentar

As pessoas com história de perturbação do comportamento alimentar ou padrões alimentares disfuncionais, representam, nesta altura, um grupo particularmente vulnerável. Publicado por Mafalda Corvacho no blogue Psicovid19.
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Imagem de David Mark/Pixabay

O novo coronavirus chegou e em bem pouco tempo virou o mundo de pernas para o ar. Não bastasse o isolamento social e todos os danos daí resultantes, vivemos ainda na incerteza e imprevisibilidade da data do retorno à normalidade. Assim, cinco semanas passadas desde o primeiro caso identificado em Portugal, é já possível começar a sentir alguns dos estragos da pandemia na nossa saúde mental. 

Um artigo publicado em Fevereiro deste ano na Lancet descreve de forma bastante clara o impacto do isolamento na saúde mental. Os sintomas mais comummente descritos são os depressivos, ansiosos, de stress pós-traumático, perturbações do sono e irritabilidade, apontando-se como principais factores de stress a duração da quarentena, o medo de contrair a infecção, o tédio, a frustração, a escassez de bens essenciais, a insuficiência ou desadequação da informação sobre a doença, a perda financeira e o estigma. 

Entre os factores de risco para pior outcome psicológico durante o período de isolamento social, destaca-se, entre outros, a história pessoal de doença psiquiátrica, associada também a mais sintomas de ansiedade e sentimentos de raiva após a quarentena.

As pessoas com história de perturbação do comportamento alimentar ou padrões alimentares disfuncionais,  representam, nesta altura, um grupo particularmente vulnerável. De facto, verifica-se agora um risco elevado de recaída ou agravamento da sua patologia, não só pelo medo da infecção, mas também pelo impacto da quarentena (nas suas diversas vertentes) e pelas barreiras ao acesso aos cuidados de saúde durante a pandemia.

O medo constante de poder ser infectado pode aumentar a sensação de falta de controlo - que em pessoas com perturbações do comportamento alimentar frequentemente despoleta alguns comportamentos na procura da reaquisição da sensação de controlo -, podendo resultar assim no aumento das restrições alimentares ou de comportamentos extremos de tentativa de controlo de peso (p.e. vómito provocado, uso de laxantes…). Esta sensação de falta de controlo e de constante ansiedade pode também resultar numa maior frequência ou intensidade dos episódios de binge eating – episódios em que a pessoa come de forma excessiva e descontrolada, uma quantidade de alimentos considerada exagerada pela maioria das pessoas e que terminam apenas quando se atinge um estado de intenso desconforto físico.  

Por outro lado, o estado de emergência, quer pelo isolamento social, quer pela restrição da liberdade de circulação a ele associados, pode contribuir também para a manutenção ou agravamento da psicopatologia associada às perturbações do comportamento alimentar, nomeadamente:

- A limitação da prática de exercício pode intensificar o medo de engordar, aumentando consequentemente as restrições alimentares e comportamentos que tenham como objectivo o controlo do peso;

- A exposição constante à comida de casa, e maior acesso a comidas hipercalóricas pode desencadear com maior facilidade episódios de binge-eating, entre as pessoas com perturbação de comportamento alimentar deste tipo;

- A menor variedade e acessibilidade à comida, e dificuldade, por exemplo, de planeamento das refeições ou de cumprir as refeições idealizadas poderá representar um factor de stress significativo para pessoas com perturbação do comportamento alimentar;

- O isolamento social, já comummente associado a este tipo de patologia, acaba por representar um obstáculo ao funcionamento interpessoal, limitando as interações sociais, interações essas que se demonstram, nestes casos, fundamentais no processo terapêutico (como a exposição do corpo e as refeições em público, por exemplo), contribuindo também para a desvalorização do peso e da forma física;

- Ambientes familiares disfuncionais ou conflituosos podem desencadear um agravamento de alguns sintomas;

- Em pessoas que tenham, para além da perturbação do comportamento alimentar, qualquer outro diagnóstico psiquiátrico – depressão, ansiedade, perturbação obsessivo-compulsiva, perturbação de stress pós-traumático, perturbação de abuso de substâncias… – o stress resultante da situação actual de pandemia pode agravar a doença co-mórbida, contribuindo assim para um agravamento da psicopatologia da perturbação do comportamento alimentar.

Sabemos que este é um período difícil para todos, mas poderá ser particularmente mais custoso e com desafios adicionais para algumas pessoas. Assim, realça-se uma vez mais a importância do reforço do acompanhamento destes indivíduos por telemedicina, de modo frequente e atento, quer pelos médicos de família, quer pelos psiquiatras ou psicólogos, de forma a manter a estabilidade clínica.

Mais se acrescenta que quem se encontra em acompanhamento médico no contexto de uma perturbação do comportamento alimentar não deve, em momento algum, interromper a medicação ou psicoterapia por moto próprio e, em caso de sentir agravamento da ansiedade, tristeza, angústia ou dos comportamentos de tentativa de controlo do peso, deve entrar em contacto com o médico, psicólogo ou psiquiatra assistente. 


Artigo publicado por Mafalda Corvacho no blogue Psicovid19, 13/4/2020

 

Referências:

Brooks, S. K., Webster, R. K., Smith, L. E., Woodland, L., Wessely, S., Greenberg, N., & Rubin, G. J. (2020). The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. Lancet, 395(10227), 912-920. doi:10.1016/s0140-6736(20)30460-8

Huremocic, D. (2019). Psychiatry of Pandemics - A Mental Health Response to Infection Outbreak.  Manhasset, NY: The Springer. doi.org/10.1007/978-3-030-15346-5

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