Congresso da CGT: uma central sindical dividida e uma secretária-geral surpresa

11 de abril 2023 - 22:17

A histórica central sindical francesa reuniu no final do mês passado num congresso marcado por votações renhidas e pela eleição, pela primeira vez, de uma mulher para o cargo de secretária-geral. “Mediação” e “radicalidade”, “abertura” e “identidade”, ecologia e feminismo foram temas de debates acesos.

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Imagem de um vídeo da CGT.
Imagem de um vídeo da CGT.

O 53º Congresso da CGT, uma das duas grandes centrais sindicais francesas, que teve lugar entre 27 e 31 de março, no meio da enorme vaga de contestação à reforma das pensões de Macron, não foi como muitos outros. Pelo clima de tensão interna e relação de forças apertada e porque terminou de forma inédita.

Face ao impasse gerado pelo embate das duas principais candidaturas que se perfilaram, de Marie Buisson e de Céline Verzeletti, foi afinal Sophie Binet a escolhida para substituir Philippe Martinez no papel de secretária-geral.

A secretária-geral surpresa

A ex-conselheira escolar, de 41 anos, era desde 2018 a dirigente do UGICT, o sindicato que representa engenheiros, quadros, técnicos e supervisores. Sendo também a responsável pelo tema da igualdade na Comissão Executiva da estrutura sindical, tornou-se primeira mulher a ocupar o cargo desde a sua fundação em 1895. Feminista, assume o protagonismo numa central sindical que tem vindo a ser posta em causa por denúncias de sexismo nas suas fileiras.

E é ainda conhecida por outras facetas como o seu trabalho ambientalista. A partir do seu sindicato criou o “Radar trabalho e ambiente”, descrito como “uma ferramenta destinada a dar ao conjunto dos trabalhadores os meios para pesarem na transformação ecológica da sua empresa ou coletividade”. Também se tem destacado no apoio aos “lançadores de alerta”.

Antes, tinha sido dirigente sindical estudantil no UNEF na altura das mobilizações contra o CPE, o contrato primeiro emprego, e vem da militância no Partido Socialista.

A eleição dos órgãos arrastou a discussão pela madrugada

No final do congresso, Sophie Binet reconheceu: “É preciso que não nos mintamos, o nosso congresso foi muito difícil, violento por vezes. É preciso dizer que esta violência não tem lugar nas relações militantes e é preciso trabalhar para a fazer desaparecer”.

Um discurso que diz muito sobre as feridas deixadas pelo choque que se tinha materializado sobretudo noutros dois nomes. Marie Buisson, da Federação de Educação Nacional e do coletivo ecologista Plus jamais ça, que conta com a colaboração da Greenpeace e Oxfam, representava a continuidade da linha de Philippe Martinez. E Céline Verzeletti, o principal rosto que se lhe opunha, dirigente do sindicato dos funcionários do Estado, era apoiada por várias federações poderosas da central em setores como a indústria mineira, a energia, os funcionários do regionais do Estado, os ferroviários e apresentada como representante de uma suposta “linha dura” pela comunicação social.

Esta divisão, evidente em todo o congresso, ficou plasmada no processo de votações dos órgãos dirigentes. A Comissão Executiva só foi aprovada por 54% dos votos no órgão dirigente mais alargado, o Comité Confederal Nacional (CCN), que esteve reunido desde as 19 horas de quinta-feira até às 4 horas da manhã de sexta-feira para o fazer.

Marie Buisson, apesar de já fragilizada por ter sido relativamente pouco votada para a Comissão Executiva, tentou apresentar uma proposta de secretariado sem membros da oposição interna, mas a sua proposta foi rejeitada no CCN por pouco com 49% dos votos. A sua rival para o cargo, Céline Verzeletti, tentou em seguida constituir um secretariado, mas também falhou porque os apoiantes de Martinez-Buisson recusaram participar na lista. O nome de Sophie Binet foi portanto o que conseguiu reunir o consenso suficiente para criar uma lista que respeitasse os delicados equilíbrios internos da CGT. Uma proposta que só foi aprovada às sete da manhã na Comissão Executiva e logo depois, às 8h15, no CCN.

Ecologia, identidade ou abertura, autoritarismo alguns dos debates internos

Os atribulados momentos finais da reunião magna da CGT espelham o clima de toda a reunião. A 28 de março, quando oficialmente já não era secretário-geral, Philippe Martinez tinha-se declarado numa manifestação favorável a uma mediação com o Governo sobre a reforma das pensões, uma proposta que tinha sido avançada pelo dirigente da outra grande central sindical, a CFDT, mas não tinha sido discutida na CGT nem adotada na “intersindical”, ou seja na plataforma dos vários sindicatos que tem convocado as manifestações.

A oposição criticou duramente estas declarações, assim como o que considera ser uma dissolução da identidade da central na intersindical, a sua institucionalização, a perda de radicalidade e o recurso a métodos de trabalho que diz serem autoritários.

Mas logo ao início, a votação da “comissão de mandatos” já tinha sido polémica, dando o mote para tudo o que se seguiria. Apesar da votação parecer cerrada, a mesa não quis contar os votos de braço no ar. Depois de uma invasão da tribuna, recuou, resultando da contagem 416 votos a favor, 407 contra e 89 abstenções. Um equilíbrio precário que se repetiria várias vezes.

Na terça-feira, a direção de Philippe Martinez acabou mesmo por perder o que costumava ser um voto quase simbólico, o do relatório de atividades. Se geralmente este tipo de documentos atinge no mínimo os 70% dos votos dos delegados, desta feita 50,32% votaram contra.

E se o documento de orientação geral não foi polémico, com 73% dos votos, outra marca da divisão surgiu nas emendas, nomeadamente na que propunha suprimir nesse texto a referência ao coletivo ecologista Plus jamais ça. 50,37% do congresso votou esta emenda, atingindo particularmente Marie Buisson que nele se tem destacado. Em causa estava a não existência de “nenhum debate” no interior da central sindical sobre a sua pertinência. Mas, para além da ideia de que nunca se tinha discutido a sério esta participação, outra questão melindrosa se revelava: as posições anti-nucleares assumidas pelos ecologistas vão em sentido contrário das posições do Partido Comunista Francês que sobre este tema já tinha feito questão de se afastar do texto do acordo da NUPES, a coligação ecologista e de esquerda que foi a votos nas últimas legislativas francesas. Já para não falar nos fantasmas invocados pela defesa da descarbonização da economia e os medos de alguns setores de crescimento do desemprego.

Um dos eixos do debate foi, desta forma, a ideia de “abertura” propalada pela direção de Philippe Martinez contra a da “dissolução da identidade” vincada pela oposição.

Duas leituras do congresso

Sobre a disputa, Robert Pelletier no L’Anticapitaliste escreve que a oposição interna se situa globalmente “à esquerda” da direção “se omitirmos as suas posições sobre sexismo, internacionalismo e ecologia” e que as suas críticas à democracia interna “são justas” mas “não conseguem disfarçar as práticas das próprias federações” que as apoiam e que “frequentemente são tão burocráticas” quanto as da direção que criticavam.

Identifica ainda uma “verdadeira fratura” na questão do feminismo sobre a qual, para além de diferenças de posição sobre paridade e a “opressão específica das mulheres”, existe um “clima detestável” com “diversas intervenções sexistas e violências cometidas durante o congresso”.

Para ele, Sophie Binet não é um meio termo porque “incarna mais continuidade de orientação da direção anterior” mas o seu discurso enterrou de momento a ideia da “mediação” do conflito sobre a reforma das pensões afirmando que “não haverá tréguas, suspensão ou mediação. Não retomamos o trabalho enquanto a reforma não seja retirada”.

Nota ainda um facto que passou despercebido à maioria dos comentadores do evento: ao mesmo tempo que pela primeira se elegia uma mulher para secretária-geral, fazia-se acompanhar esta por um “administrador”, neste caso Laurent Brun, do PCF, que vai desempenhar o papel de número dois. Como “nunca ninguém tinha considerado que um homem teria necessidade de um número dois, o sinal é assim imediatamente reduzir a legitimidade da primeira mulher eleita para o cargo”.

No seu balanço, considera que o congresso marcou “uma viragem à esquerda” mas que “arrisca a limitar-se a tomadas de posição” já que “o debate sobre as dificuldades objetivas, ou seja o recuo da sindicalização congresso após congresso (…), a falha em envolver largas camadas da sociedade nas mobilizações, foi de novo evitado”. Contudo, regista também “recuos”, nomeadamente no crescimento das “componentes sectárias e conservadoras da oposição” no que diz respeito a temas como a unidade sindical ou a emergência climática. Tudo somado, resulta num “equilíbrio precário” que “anuncia provavelmente vários anos de turbulências internas”.

Por sua vez, Matthieu Brabant na página da Gauche Écosocialiste caracteriza as oposições, tanto a que se reuniu à volta de Céline Verzeletti quanto a liderada pelo secretário-geral da UD-CGT des Bouches-du-Rhône, Olivier Mateu, como “refletindo sobretudo a convergência de posições sectárias, anti-feministas e anti-ecológicas”.

Destaca porém como importante o eixo de debate entre a “radicalidade” e a “mediação”, com uma parte dos congressistas a insistir na ideia da “greve geral” em contraponto com a “intersindical” considerada “mole” mas que pouco avançou, para além dos slogans, em termos de estratégias de luta.

Sobre a participação no Plus jamais ça, Brabant considera que houve uma forma “muito autoritária” de a impor mas esta “não deve mascarar que existe uma divergência de fundo sobre as questões ecológicas”, com várias intervenções ao longo do congresso a defender “o emprego” contra as alianças com os movimentos ecologistas. Sintoma disso, quando no discurso final Sophie Binet defendeu o ambientalismo, rejeitando a oposição entre emprego e ecologia, “ouviu alguns assobios”.

Os equilíbrios deste congresso, avalia, fizeram assim vários projetos “não pouco importantes” ficarem suspensos, como a ecologia e questão da unificação sindical, nomeadamente com os Solidaires e a FSU. A questão é saber “até que ponto a CGT não ficará paralisada” pelas divisões “políticas e estruturais” evidentes.