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Confinamento e confinamento

Este confinamento, tão angustiante e cheio de stresse para muitos, não tem nada a ver com o confinamento dos 14 anos que passei na clandestinidade. À época, sabíamos que o tínhamos de manter se queríamos ficar fora das garras da Pide e continuar na luta por um país livre. Por Maria Machado.
Maria Machado com a filha ao seu lado e o filho ao colo.
Maria Machado com a filha ao seu lado e o filho ao colo.

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


Confinamento e confinamento

Os primeiros 8 anos com os meus pais, dos meus 11 aos 18 anos e depois “casada” com Raimundo Narciso, de 1968 a 1974. E até agora teremos que nos confinar. Mas com que diferenças!

Na clandestinidade ia à rua para as compras necessárias, era ir e voltar logo, com olhos de ver ao longe, para ver, antes de ser visto. E ia ao médico se por acaso alguma doença nos batesse à porta, principalmente se ela atingia algum filho, ia à farmácia se necessário fosse. Situações que nos obrigavam a ir à rua e sempre a horas em que supúnhamos haver menos gente e tratarmos de tudo rapidamente e de uma vez só.

Quando chegava o dia da reunião com os camaradas do comando central da ARA, Jaime Serra e Francisco Miguel, e por vezes também com Joaquim Gomes da Comissão Política do PCP, ia à rua para colocar o “sinal” para informar que a casa estava “limpa” e que podiam vir em segurança. O sinal era uma qualquer coisa num sítio previamente combinado. Em Odivelas, por exemplo, usávamos um prego dobrado, no buraco de um velho muro longe da nossa casa. Essa tarefa muitas vezes era da minha responsabilidade. Nesse dia, aí uma meia hora antes da hora da sua chegada, lá ia eu colocar o prego. No caminho, ia com a máxima atenção para ter a certeza de que nada estranho se passava nas redondezas da casa e ter a certeza de que a sua chegada se faria em segurança. E a mesma atenção no regresso.

Também não íamos ao café ou ler o jornal na esplanada, não íamos visitar a família nem os amigos e nem lhes podíamos telefonar. Não íamos ao cinema nem ao teatro, não tínhamos nenhuma actividade lúdica ou outra para ocupar os nossos tempos livres, nem tão pouco podíamos ir correr na rua ou mesmo fazer um passeio higiénico como agora. Falávamos com os vizinhos só em situações estritamente indispensáveis para darmos um ar natural. Este confinamento era necessário e obrigatório e levado a cabo por nossa própria vontade. Sabíamos que o tínhamos de manter se queríamos ficar fora das garras da Pide e continuar na luta por um país livre.

Vivia na clandestinidade com os meus pais onde os ajudava, numa tipografia artesanal a imprimir o Avante e outras publicações. Soube mais tarde que não muito longe de nós habitava um outro clandestino de nome Raimundo que vim a conhecer em 1966/67 no curso da Escola Central do Konsomol, em Moscovo.

Decidimos juntar-nos no regresso a Portugal e casar quando a liberdade chegasse. A Leonor nasceu no meu dia de anos, em 1969 e o José em Março de 1974. Vivíamos na aflição de nos termos de separar deles quando chegassem à idade escolar como sucedeu com tantos outros que foram para a URSS se não tinham familiares que os pudessem criar.

Pouco depois de deixar os meus pais para me juntar com o Raimundo a sua casa foi assaltada e eles foram presos e torturados, a minha mãe quase até à loucura. Foram tempos difíceis sabendo eu que com eles tinha sido presa também a minha irmã mais novinha com apenas 14 anos. Sabia que eles seriam torturados mas o que passaria com ela? E não podíamos fazer nada.

“Casada” vivi em Lisboa na Rua Veloso Salgado. Depois numa vivenda perto de Mafra, a seguir em Vale de Lobos, depois em Alcabideche onde nasceu a nossa filha e por fim em Odivelas a partir de 1971 e nessa casa até 2004. Depois do 25 de Abril informámos os vizinhos do nosso verdadeiro nome deixando-os espantadíssimos. São nossos amigos até hoje.

Quando a PIDE colocou em 8 de Abril de 1973 a foto do Raimundo na TV e nos jornais para o prender fui a casa da nossa vizinha, professora no Convento de Odivelas, para ver se ela teria ligado a foto do Raimundo ao “José Lopes da Silva” que ali habitava a seu lado. Era muito católica e adepta do regime de Salazar mas também muito nossa amiga, sempre com um chocolate ou uma prendinha para a nossa filha. A foto do Raimundo era antiga, do tempo da universidade. E ali ele estava muito diferente!

Mal entrei pediu-me para me sentar a seu lado: então sabe?! Andam aí terroristas. Viu a notícia? Respondi-lhe que não, não tinha visto e ainda acrescentei: sabe eu não ligo à política. Leu-ma no Diário de Notícias. Olhe este e apontava para Jaime Serra, operário e este, Francisco Miguel, sapateiro, querem ser ministros, e um estudante universitário, Raimundo Pedro Narciso, anda enganado. Fiquei descansada não nos ligava a tal notícia e continuamos amigas. Depois do 25 de Abril mudou de residência e não chegou a saber que éramos uns perigosos clandestinos

.Tomávamos todos os cuidados para a PIDE não nos descobrir pois a prisão e a tortura seriam a desgraça mais terrível.

Agora estamos todos, o país inteiro, com estas limitações e não temos outro remédio, se queremos ficar cá mais uns anitos.

Parece estranho, mas faço tudo o que fazia na clandestinidade e faço tudo aquilo que não fazia, apesar das limitações impostas e com os cuidados que temos de ter todos. Mas sem o grande peso de poder em qualquer momento ter a Pide atrás de mim.

Hoje, a maior parte de nós, temos ao nosso dispor meios que amenizam as distâncias e as saudades dos nossos familiares e amigos, mas isso não faz com que não sinta falta dos abraços dos filhos e dos netos, dos encontros e jantares com os meus amigos, sinta falta das reuniões na minha Sociedade Musical Odivelense, sinta falta dos ensaios dos meus coros e que goste da situação que se vive.

Maria Machado Castelhano Pulquério 
5 de Maio de 2020

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