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Como lidar com as debilidades e forças da ciência durante a pandemia

Neste tempo em que a ciência está absolutamente presente no quotidiano e em que estamos treinados para aceder e dispor da informação só com um clique, exige-se-lhe infalibidade quando o que ela tem para nos dar é humildade e ausência de dogmas. Por Inmaculada Yruela Guerrero.
Pandemia e ser humano. Foto de Marco Verch/Flickr.
Pandemia e ser humano. Foto de Marco Verch/Flickr.

Passado um ano do início da pandemia, a ciência é um dos elementos sociais mais presentes na nossa vida. Não apenas devido à relevância de tudo o que tem acontecido nos hospitais, mas também devido à exigência em saber o que está a acontecer com o vírus. A nível biológico e médico, mas também social. Este foi e é um grande tema de estudo sociológico e mediático. Agora sabemos mais do vírus, das estratégias para o combater em várias frentes e como os nossos hábitos podem mudar através de uma certa aprendizagem.

Passado um ano desta presença da ciência na sociedade, talvez seja o momento de avaliar um efeito nada depreciável. Referimo-nos a investigar sobre até que ponto o grande esforço de divulgação penetrou fora do estrito âmbito de cada disciplina científica e do ambiente sanitário. Entendem-se entre si os biólogos, sociólogos, médicos, químicos, psicólogos, economistas, físicos, historiadores e matemáticos? Quais informações básicas permanecerão no público em geral passado algum período de tempo? Passaremos a ser realmente mais científicos?

Se se considera que a ciência abre as portas da verdade e que é infalível, assim que mostra o seu aspeto frágil e inseguro, assim que reconhece que há aspetos que se lhe escapam ou até que são inacessíveis, pode gerar frustração e desencanto a quem precisa de saber tudo em todo o momento. Ainda mais neste tempo que nos coube viver, treinados para aceder e dispor da informação só com um clique. Iríamos sofrer as consequências de pedir à ciência o que esta não pode dar ou, utilizando o ditado popular, estaríamos a pedir peras ao olmo.

Por estes meses vivemos um exemplo disto. Em finais de dezembro, contra todos os prognósticos, chegavam as primeiras vacinas. A necessidade de acabar com a pandemia originou uma expectativa exagerada e um excesso de confiança no sistema científico. Agora, ao depararmo-nos com as suas limitações, com as dificuldades próprias de qualquer processo de produção biotecnológica e com a avaliação ética de quais os grupos prioritários e a ordem da vacinação, surgem a desconfiança e as acusações arbitrárias. Como o desenamoramento depois de um modo de amar demasiado irreal que pode conduzir à recusa, até ao desprezo, da ciência em detrimento de saberes ocultos e de teorias da conspiração paranóicas. É assim como funciona a falácia ad ignoratiam: do que não sabe conclui-se o que mais atraia o ignorante.

Outro exemplo é não poder entender como o vírus SARS-CoV-2 infeta e faz adoecer cada pessoa em concreto, apesar de terem hábitos e constituições similares. Também não é fácil entender como a doença evolui de forma tão desigual. Alguns pacientes são assintomáticos, outros adoecem e respondem de maneira rápida aos tratamentos médicos, outros não superam a infeção e outros ainda ficam com sequelas graves cuja relação causal com o vírus está ainda muito longe de ser conhecida.

Atribuem-se estas diferenças em parte à genética de cada indivíduo, mas a regulação dos genes e a sua atividade epigenética também desempenham um papel importante nestas diferenças, ainda que não o conheçamos com precisão.

Por outro lado, a biologia do vírus e como interage com as células do organismo é um aspeto a ter em conta que ainda não se conhece completamente. A ciência, de momento, não tem uma resposta clara, determinante e fácil de entender para estas questões tão prementes.

A Filosofia como antídoto

Face a esta situação complicada é fácil desesperar. Aqui a Filosofia pode ser um bom antídoto contra este efeito maléfico. Encarar as coisas com filosofia pode ser uma vacina contra esses efeitos nada desejáveis. Em particular, podemos socorrer-nos da Filosofia da Ciência de George Santayana (Madrid, 1863 - Roma, 1952).

Santayana foi contemporâneo do esplendor do positivismo e da ciência, ainda que não tenha sentido necessidade, como outros, de refugiar-se no irracional ou no pseudo-científico como modo de auto-defesa. Foi também contemporâneo do idealismo, soube detetar nele o seu aspeto iniludível, o metodológico, e desmascarar o seu lado falacioso, quando converte a natureza na experiência humana da natureza. Questionou o puritanismo moral e o liberalismo político a partir de dentro. O seu estilo brilhante e fluido liga-se ao de Locke e Hume e a força dos seus argumentos herda-a de Spinoza e Schopenhauer.

Já no seu primeiro sistema filosófico, a vida da razão, dedicou um dos seus volumes à Razão na Ciência (1906). Mais tarde, quando se viveu um outro auge no interesse pela ciência parecido ao atual, ainda que noutro âmbito – o da Física, o contexto das discussões em torno da teoria da relatividade de Albert Einstein e a mecânica quântica –, Santayana escreveu, no seu artigo Revolução na Ciência (1928):

“A condição moral é que o orgulho da ciência deveria tornar-se em humildade, que não deveria imaginar por mais tempo que revela a natureza intrínseca das coisas. E o resultado paradoxal é o seguinte: que os métodos da ciência são opcionais, como linguagens ou formas de notação diversas. Uma pode ser mais conveniente ou subtil que outra, em função do lugar, sentidos, interesses e alcance do explorador; uma reforma da ciência pode tornar antiquadas as teorias antigas, como os costumes de usar togas ou andar nu, mas não pode torná-las falsas ou verdadeiras em si mesmas.” Limbo 22 (2005).

Num livro seu recentemente publicado, Ensaios de História da Filosofia, pode ler-se:

“A existência do mundo – a não ser que voltemos a cair por um momento no insustentável ceticismo – é segura ou, pelo menos, é algo que se assume inquestionavelmente. A experiência pode-o explorar como aventura e a ciência descrevê-lo com precisão, mas, depois de ser percorrido de cima a baixo durante anos e depois de reunir toda a informação que se possa sobre os seus costumes, esse mesmo mundo, dado que existe substancialmente e não é inventado, continua a ser algo estranho e um prodígio para o espírito: incognoscível como o é uma gota de água ou como o é a pessoa amada.”

Concluindo, nós cientistas temos de aprender a comunicar sem ruído, a partir de uma posição de humildade, com diálogo e sem dogmas, por sabermos que qualquer problema científico admite abordagens distintas. Desta maneira, não criaremos falsas expectativas no público e evitaremos que se desencante com a ciência. Com uma boa divulgação, ficará claro que a debilidade da ciência é ao mesmo tempo a sua força face a seguranças religiosas ou pseudo-científicas, ainda mais fracas, apesar de se apresentarem como a verdade, revelada ou esotérica.


Inmaculada Yruela Guerrero é investigadora científica no CSIC, Estación Experimental de Aula Dei (EEAD – CSIC). Artigo elaborado com a colaboração de Daniel Moreno Moreno, membro do conselho de redação de Limbo, Boletín internacional de estudios sobre Santayana.

Artigo publicado originalmente no The Conversation. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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