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O capitalismo está a arruinar a ciência

A mercantilização criou incentivos perversos para os investigadores e uma hipercompetição que ameaça corromper a própria ciência. Por Meagan Day.
"Perigo devido ao capitalismo". Foto de Mary Crandall/Flickr.
"Perigo devido ao capitalismo". Foto de Mary Crandall/Flickr.

A universidade existia antes do capitalismo e por vezes tem resistido à obediência aos ditames do mercado capitalista, buscando não o lucro mas a verdade e o conhecimento. Mas o capitalismo devora o que pode, e à medida que prolonga o seu domínio, não é surpreendente que a universidade moderna se torne cada vez mais subserviente ao que Ellen Meiksins Wood chama "os ditames do mercado capitalista – os seus imperativos de concorrência, acumulação, maximização do lucro, e aumento da produtividade laboral".
Na academia, esse imperativo manifesta-se de formas visíveis: publicar ou perecer, financiamento ou fome.

Sem investimento público, as universidades são obrigadas a jogar pelas regras do setor privado, ou seja, a funcionar como empresas. As empresas, evidentemente, têm sobretudo a ver com o resultado final – e a saúde desse resultado final depende da maximização do lucro, que por sua vez depende da avaliação cuidadosa e constante de entradas e saídas. O resultado para a ciência académica, segundo os investigadores Marc A. Edwards e Siddhartha Roy no seu artigo “Academic Research in the 21st Century: Maintaining Scientific Integrity in a Climate of Perverse Incentives and Hypercompetition”, foi a introdução de um novo regime de métricas quantitativas de desempenho, que rege quase tudo o que os investigadores científicos fazem e tem impactos observáveis nas suas práticas de trabalho.
Estas métricas e padrões de referência incluem "contagem de publicações, citações, contagem combinada de citações-publicações (por exemplo, índice h), fatores de impacto de revistas (JIF), total de dólares de investigação, e total de patentes". Edwards e Roy observam que "estas métricas quantitativas dominam agora a tomada de decisões na contratação, promoção e vinculação nas faculdades, prémios e financiamento". Como resultado, os cientistas académicos são cada vez mais conduzidos por um desejo frenético de ver a sua investigação obter financiamento, ser publicada e citada. "A produção científica, medida pelo trabalho citado, duplicou a cada nove anos desde a Segunda Guerra Mundial", notam Edwards e Roy.

Mas a quantidade não se traduz em qualidade. Pelo contrário, Edwards e Roy analisam o efeito da métrica quantitativa de desempenho sobre a qualidade da investigação científica e descobriram que esta tem um efeito prejudicial. Como resultado dos sistemas de recompensas que incentivam o volume de publicações, os trabalhos científicos tornaram-se mais curtos e menos abrangentes, ostentando "maus métodos e um aumento de falsas taxas de descobertas". Como resposta à crescente ênfase nas citações de trabalhos nas avaliações profissionais, as listas de referência tornaram-se inchadas para satisfazer as necessidades da carreira, com um número crescente de revisores a solicitar que os seus próprios trabalhos sejam citados como condição de publicação.
Entretanto, o sistema que recompensa o aumento das bolsas financiadas com mais oportunidades profissionais faz com que os cientistas gastem uma quantidade excessiva de tempo a escrever propostas para obterem bolsas e a vender em excesso os resultados positivos da sua investigação para captar a atenção dos financiadores. Do mesmo modo, quando as universidades recompensam os departamentos por terem uma classificação elevada, os departamentos são incentivados à "engenharia reversa, a jogar com classificações e burlá-las", corroendo a integridade das próprias instituições científicas.

As consequências sistémicas do aumento da pressão do mercado sobre a ciência académica são potencialmente catastróficas. Como Edwards e Roy escrevem, "a combinação de incentivos perversos e a diminuição do financiamento aumenta as pressões que podem levar a um comportamento pouco ético. Se uma massa crítica de cientistas se tornar não fidedigna, é possível um ponto de viragem em que o próprio empreendimento científico se torna inerentemente corrupto e a confiança pública se perde, arriscando-se a uma nova era negra com consequências devastadoras para a humanidade". A fim de manter a credibilidade, os cientistas precisam de manter a integridade – e a hipercompetição está a corroer essa integridade, minando potencialmente todo o empreendimento.
Além disso, os cientistas que estão preocupados a procurar subsídios e citações perdem oportunidades de contemplação cuidadosa e exploração profunda, que são necessárias para desvendar verdades complexas. Peter Higgs, o físico teórico britânico que em 1964 previu a existência do bosão de Higgs, disse ao The Guardian, ao receber o Prémio Nobel em 2013, que nunca teria sido capaz de fazer a sua descoberta no atual ambiente académico.

"É difícil imaginar como alguma vez teria paz e sossego suficientes no atual tipo de clima para fazer o que fiz em 1964", disse Higgs. "Hoje eu não conseguiria um trabalho académico. É tão simples quanto isso. Acho que não seria considerado suficientemente produtivo".

Mais tarde na sua carreira, Higgs disse que se tornou "um embaraço para o departamento quando faziam exercícios de avaliação da investigação". O departamento de Física da Universidade de Edimburgo enviava uma mensagem a dizer: "Por favor, apresente uma lista das suas publicações recentes". ... Eu enviava de volta uma declaração: 'Nenhuma'". Higgs disse que a universidade o manteve por perto apesar da sua insuficiente produtividade apenas na esperança de ganhar o Prémio Nobel, o que seria um trunfo para a universidade no ambiente contemporâneo de “nadar ou afogar-se”.
Quando os ditames competitivos do capitalismo – vender o seu trabalho se for um trabalhador, maximizar o lucro se for um patrão – reinam sobre tudo o resto, as atividades alternativas são inevitavelmente frustradas, por mais nobres que sejam. Um nobre propósito da academia nas ciências, por exemplo, é fornecer os recursos e o encorajamento para que as pessoas realizem experiências rigorosas que irão melhorar o conhecimento coletivo sobre o mundo em que vivemos. Mas estas aspirações sofrem à medida que governos que defendem a austeridade travam a maré de financiamento federal para universidades e investigação e as instituições reagem alterando os seus modelos de financiamento para se manterem à tona.
Edwards e Roy observam que a hipercompetição causada pela proliferação de métricas de desempenho faz com que os cientistas académicos enfatizem a quantidade em detrimento da qualidade, encoraja-os a arredondar e seleciona académicos com mais espírito de carreira e não com mais espírito científico. Em suma, os ditames do mercado capitalista ("concorrência, acumulação, maximização do lucro e aumento da produtividade laboral") prejudicam a integridade científica e a busca coletiva do conhecimento.

Edwards e Roy recomendam várias reformas, concentrando-se principalmente em facilitar a métrica quantitativa e prevenir a má conduta da investigação. Mas com toda a probabilidade, os problemas continuarão até que se lide com a causa fundamental – ou seja, até que o capitalismo deixe de dominar a universidade, e a sociedade que a sustenta.


Meagan Day faz parte da redação da Jacobin. É a co-autora de Bigger than Bernie: How We Go from the Sanders Campaign to Democratic Socialism.

Texto publicado originalmente na Jacobin. Tradução de Raquel Azevedo para o Esquerda.net.

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