Eletricidade

Como em Espanha se debate o apagão

01 de maio 2025 - 20:31

O primeiro-ministro quer responsabilidades dos privados, a esquerda insiste no controlo público da energia, a direita ataca a gestão da crise e a extrema-direita cai nas notícias falsas. O debate político espanhol é também marcado pelo braço de ferro entre defensores do nuclear e das renováveis. Com os ecologistas a exigirem um novo modelo.

PARTILHAR
Ourense, Galiza. Pessoas convivem num bar à luz de velas.
Ourense, Galiza. Pessoas convivem num bar à luz de velas. Foto de BRAIS LORENZO/EPA/Lusa.

Com um quadro político diferente do português - o PSOE governa em coligação com parte da esquerda -, havendo um debate forte entre os lóbis das energias renováveis e o do nuclear e sendo o país onde teve origem o apagão, o debate sobre a gestão da emergência e as causas do recente apagão na Península Ibérica está ao rubro.

Apesar do cuidado para não se precipitar ao avançar com causas para o apagão, o presidente do Governo, Pedro Sánchez, jogou inegavelmente ao ataque desde muito cedo, prometendo “exigir todas responsabilidades pertinentes aos operadores privados” no que sucedeu e exigindo-lhes a entrega dos dados referentes ao momento em que ele aconteceu.

A questão da origem do problema, essa, continuará a alimentar debates enquanto o executivo criou uma comissão de investigação do Ministério para a Transição Ecológica e pediu um relatório independente à Comissão Europeia e outro ao Instituto Nacional de Cibersegurança para excluir a hipótese de ciberataque.

As grandes empresas energéticas espanholas são de facto privadas. Mas alguns dos detratores de Sánchez fizeram-lhe imediatamente lembrar que o maior acionista da Red Eléctrica, o regulador do sistema elétrico espanhol, é o Estado, com 20% do capital e que os últimos presidentes da empresa vieram do PSOE. Na estrutura acionista da empresa, destacam-se ainda a Pontegadea Inversiones, do milionário galego Amancio Ortega, com 5%, e o fundo de investimento internacional Blackrock com 4,644%. E quem preside à instituição desde 2020 é a ex-ministra da Habitação do PSOE, Beatriz Corredor, que sucedeu a Jordi Sevilla, ex-ministro da Administração Pública do partido que lidera o atual governo.

O que diz a esquerda

À esquerda, a questão da participação do Estado na Red Eléctrica é menos importante do que a sua subjugação às lógicas do mercado em vez de se reger pelo interesse comum, ou do que o domínio das empresas privados no conjunto do setor.

A secretária-geral do Podemos, Ione Belarra, salienta face ao sucedido que “o controlo público do setor da energia e das telecomunicações deve ser uma prioridade absoluta para o nosso país”. Para ela, “ontem ficou mais claro que os setores estratégicos devem estar sob controlo público, sob controlo democrático”.

Sendo oposição à esquerda e crítica determinada da ação deste executivo, Belarra, na sua conferência de imprensa, escolheu não criticar Sánchez pela gestão da emergência, limitando-se a dizer que “logo chegará o momento para avaliar a ação do executivo e ver se há que exigir que se apurem responsabilidades”.

Do lado da esquerda que participa no governo, o Sumar, em comunicado, parece não ir tão longe mas exige um “controlo público” de 100% da rede elétrica que possa garantir o “direito à energia”, ao mesmo tempo leva um pouco mais longe o discurso iniciado pelo líder do PSOE e diz que a responsabilidade do sucedido é do “oligopólio energético”.

Integrada nesta coligação, a Esquerda Unida, também em comunicado, reclamava “todo o poder para o público”, afirmando que a REE deve voltar a ser 100% pública. A formação deixava de lado “debates tecnológicos ou técnicos” sobre as causas para destacar a “importância da planificação pública e limites aos lucros obscenos das elétricas que ano após ano obtêm números recorde à custa da classe trabalhadora”.

Também do campo governamental, o Más Madrid defende, por sua vez, a “necessidade de recuperar o controlo público sobre a rede elétrica” porque uma infraestrutura crítica para a segurança nacional, que “não pode nem deve estar sujeita à lógica de mercado e à maximização do lucro que acompanha a participação privada e a distribuição de dividendos”. Para a formação política de Madrid, é preciso ainda investir mais em sistemas de armazenamento, interligações aceleradas e expandidas com França, assim como legislação e códigos de rede adaptados para permitir que as centrais de geração renovável operem totalmente sem riscos para o sistema.

Quem não pretende poupar Sánchez sobre a gestão do dia do apagão são os catalães da ERC e os galegos do BNG, que querem que este e vários dos seus ministros deem explicações no Parlamento. A ERC critica uma “falta de informação oficial pontual nos momentos imediatos do apagão”. E os valencianos do Compromís, por intermédio do deputado Alberto Ibáñez, exigem “nacionalizar” o que “o bipartidismo privatizou” para “encher quatro multinacionais e colocar um punhado de cargos”, pugnando por maior justiça fiscal que “permita fortalecer serviços públicos, dispor de mais trabalhadores e nacionalizar a gestão de bens básicos como a energia”.

Direita critica da liderança ao “terceiro mundo”

Na sua comunicação sobre o apagão, Alberto Núñez Feijóo, dirigente do Partido Popular, focou-se na crítica sobre a gestão do PSOE do apagão, criticando Sánchez por não ter dado informação sobre a causa do evento ou porque “não assumiu o comando”, ou seja porque não teria centralizado a declaração de emergência, ultrapassando a responsabilidade das comunidades autonómicas. Pediu ainda “responsabilidades” por se ter parado “a quarta economia do euro”.

Para outros membros do partido ficaram críticas mais duras. Como Miguel Tellado, o porta-voz do grupo parlamentar do PP, que disse que o primeiro-ministro tinha lançado o país de volta à Idade Média. Ou a presidente da comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, que afirmou que dava uma “imagem de um país ao estilo venezuelano” e exigiu que se colocasse imediatamente o exército na rua. Ou o secretário-geral das juventudes do partido que escrevia no X: “somos terceiro mundo”.

Extrema-direita prefere teorias da conspiração

A retórica da extrema-direita ia ainda mais longe. O eurodeputado e estrela das redes sociais Luís ‘Alvise’ Perez, que criou recentemente o partido Acabou-se a Festa, foi um dos que mais reforçou as notícias falsas que correram pelas redes sociais e as ideias mais excêntricas, muitas delas contraditórias entre si.

Por exemplo, para ele, assim como para os dirigentes do Vox, o partido mais votado da extrema-direita espanhola com os quais se cruzam muitos dos seus argumentos, a culpa estaria ligada a Marrocos, isto apesar de ter vindo deste país a ajuda necessária para restaurar a capacidade elétrica espanhola.

Santiago Abascal, líder daquele partido, exigia a demissão do chefe de governo que acusou do “fanatismo climático” que teria causado o apagão e tornaria a energia “mais cara”, para além de assegurar que omitia informação: “Sanchez sabe o que se passou, como a origem do vírus da Covid e censurou isso à imprensa”.

Aproveitou ainda para jurar que o Governo tinha planos para “acabar com o dinheiro em numerário” e para “substituir o parque automóvel para ser tudo elétrico e chinês” e questionar o que teria acontecido durante o apagão se estes estivessem “mais avançados”. Questionou ainda “quem está a enriquecer” com o apagão, porque “de todas as tropelias sacam lucros”, referindo-se ao Governo, ao mesmo tempo que insinuava uma ligação, não se percebendo qual fosse, com um caso judicial sobre David Sánchez, irmão de Pedro: “porque, antes de as luzes se apagarem, já sabíamos que o irmão do Presidente estava a ser acusado”, escreveu de forma deliberadamente dúbia.

Grandes empresas deixaram a Península Ibérica às escuras, diz especialista

Mas não são apenas os partidos que debatem o tema. Antonio Turiel, cientista que integra o Conselho Superior de Investigações Científicas, disse ao Canal Red que o apagão está intimamente ligado à “ganância das grandes empresas”, apontando o dedo à falta de investimento em sistemas de estabilização que teriam sido fundamentais para que a eletricidade não caísse massivamente. Defende que foi o facto de estas empresas não terem tido as suas centrais de ciclo combinado prontas a operar na capacidade mínima, de forma maximizar lucros, que levou ao descalabro. Um “ato incrível de imprudência que não deveria ser tolerado, uma vez que a regulamentação é bastante clara sobre o assunto, e aqui, para ganhar um pouco mais de dinheiro, deixaram o país às escuras”.

Para este especialista, a solução da maior parte destes problemas não é espetacular. Teria acontecido se as empresas de eletricidade cumprissem as normas aprovadas em 2022: “só isso já seria suficiente para evitar os problemas atuais. Mas as empresas de eletricidade vão sempre opor-se porque isso implicaria um desembolso financeiro que não querem fazer, mas a segurança do Estado e da população deve estar à frente desses interesses”, garante.

Turiel é um dos que já tinha avisado antes sobre este tipo de problemas. Em janeiro de 2025, no programa Economía Directa, denunciava que Espanha tinha vivido cinco apagões de emergência no ano passado. Na altura, apontava já o modelo de crescimento atual como insustentável e dizia que as renováveis não eram a solução única, mas havia que diminuir consumos.

Lóbi nuclear aproveita apagão, ecologistas contestam a teoria do “excesso de renováveis”

A movimentação de interesses de que ele falava é também forte noutro sentido. Para além da direita, também o lóbi nuclear está a aproveitar a situação para advogar o recuo no encerramento de centrais atómicas no país e para defender a implantação de mais. Uma das suas vozes, Alfredo García, que se apresenta no X com a conta Operador Nuclear, seguida por 245.000 outras contas, escrevia nessa rede social que a situação mostrou que “encerrar as centrais nucleares é um suicídio energético” porque teria sido a falta de geração de energia síncrona que “dificultou a estabilização da rede”, esta é proveniente de centrais nucleares, a carvão, a gás, das hidroelétricas e da energia térmica renovável.

A teoria subjacente a esta crítica começou a circular muito cedo ainda durante o apagão. A partir do facto de, no momento do apagão, a geração elétrica em Espanha ser em 56,86% de origem solar fotovoltaica e 10,87% eólica. O problema teria sido, precipitaram-se logo alguns a partir daqui, um “excesso de energias renováveis” que, por serem instáveis, teriam feito tudo ir abaixo.

O próprio Pedro Sánchez se posicionou contra essa teoria, afirmando que as centrais nucleares, pelo contrário, durante o apagão foram parte do problema: “os cidadãos devem saber que, durante esta crise, as centrais nucleares, longe de serem uma solução, representaram um problema quando foram desativadas. Grandes volumes de energia tiveram de ser desviados para manter os seus núcleos estáveis”. Não foram elas que permitiram a recuperação do abastecimento mas as ligações a Marrocos e França, as centrais de ciclo combinado a gás e as centrais hidroelétricas, defendeu.

Ecologistas defendem renováveis para além do modelo económico vigente

Também os Ecologistas em Acción contestaram a teoria. Em comunicado, explicaram que a energia nuclear não pode aumentar ou diminuir a sua distribuição à rede de forma rápida para que se recupere o equilíbrio do sistema, recordando que “as nucleares foram as primeiras a desconectar, as centrais demoram bastante tempo para poder incrementar ou reduzir a sua produção. Assinalar a continuidade das nucleares como medida para enfrentar crises deste tipo é falacioso, oportunista e interesseiro”.

Esta ONG defende que a liberalização do setor “deixou nas mãos dos lucros e do mercado a ubicação e dimensionamento da produção renovável”, faltando uma “planificação adequada da rede elétrica” que faz com que “em determinadas regiões se esteja a apostar tudo na energia solar ou tudo na eólica, o que debilita a capacidade de resposta ante oscilações do abastecimento elétrico”.

Ao El Salto, Mario Sánchez-Herrero, da Plataforma por um Novo Modelo Energético, é categórico: “uma grande quantidade de energia renovável no sistema não é a causa do apagão; de facto é uma boa notícia porque essa penetração permite evitar toneladas de emissões”. Lembra-se que o sistema elétrico conta com os chamados curtailments, isto é com os cortes da produção por ordem da Red Eléctrica quando se considere que haja excesso de produção.

Não tendo havido, para ele, uma redução real na produção energética de 60%, como foi afirmado, “o problema é de informação”, havendo um “dado erróneo” que desequilibrou o sistema.

E a Greenpeace escreveu que “à falta de investigações mais detalhadas, existem já várias lições chave que alertam para a necessidade urgente de tornar o sistema atual mais resiliente face a perturbações imprevistas, para garantir que que a transição nos conduza ao único sistema energético exequível, acessível e sustentável que será 100% renovável, eficiente, justo, democrático e suficiente”.

Setor das renováveis e especialistas também contestam ofensiva nuclear e culpabilização

A UNEF, federação patronal do setor fotovoltaico, também defende, por outros motivos, a produção de energias renováveis, esclarecendo que a energia a injetar na rede “estava a cumprir-se de acordo com a programação prevista” e que o que aconteceu não foi que as centrais fotovoltaicas se tenham desconectado voluntariamente mas “foram desconectadas da rede”, garantindo ainda que noutros momentos já tinham abastecido mais energia ao sistema do que na segunda-feira.

Outra representante do lado mais institucional que defende o setor das renováveis, a Fundação Renováveis, assegura que o que se passou foi devido ao “garantismo” do sistema e ao cumprimento dos requisitos da Red Eléctrica. Para o seu presidente, Fernando Ferrando, “não se pode culpar, sem fundamento algum, a geração elétrica renovável, nem de outro tipo, como causa exclusiva do apagão”.

Este prevê que as respostas sobre o que se passou vão “tardar bastante” mas sabe que entretanto os ataques a esta fonte de energia se vão intensificar por parte de interesses concorrentes. Identifica como uma vulnerabilidade do sistema o facto de a energia fotovoltaica “estar a entrar no mix a preço zero e muitas fábricas são consideradas como um freio à economia porque não dão rentabilidade”. Isto para além de não se ter investido “em armazenamento ou hibridização de centrais de armazenamento com centrais fotovoltaicas”-

Di-lo em declarações ao Público e ao El País, tendo este último contactado ainda com especialistas como Mar Reguant, doutorada em Economia pelo MIT e especialista nos mercados de eletricidade, que dá conta da preocupação com estes ataques. Acrescenta que “sem sermos talibãs das renováveis, compreendemos que os benefícios destas tecnologias são muito importantes e não se pode andar para trás”.

Xavier Cugat, especialista em energia fotovoltaica, reitera que cabe à Red Eléctrica “determinar os requisitos que têm de cumprir as tecnologias renováveis se quiserem aumentar a segurança do sistema”, também ele enfatizando a rápida capacidade de recuperação da energia solar face à nuclear.

A mesma insistência na necessidade de “adaptar a regulação e os sistemas de operação de rede e na capacidade de reiniciar o sistema elétrico caído através das renováveis vem de José Luis Domínguez, do Instituto de Investigação de Energia da Catalunha.

O Público.es falou com outro grupo de investigadores, entre os quais Fernando Valladares, também membro do CSIC, que refere as contradições de querer desenvolver um sistema energético renovável numa economia capitalista que não quer assumir os custos de tornar este tipo de tecnologia mais segura. Ou seja, de querer fazer “uma transição energética num sistema que social e economicamente não se transformou”.

Ele diz igualmente que “os políticos têm sido muito negligentes ao pressionar o setor privado para cobrir a maior segurança exigida pelas energias renováveis, que, logicamente, são intermitentes, o que gera certas situações de risco. Estas situações eram tradicionalmente cobertas com gás, mas agora o gás está mais caro do que antes, e o setor privado já não está disposto a assumir o custo para proporcionar maior segurança”.