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Como é que o nosso corpo se defende dos vírus?

Como é que o nosso corpo reage aos coronavírus e aos vírus em geral? Para que serve uma vacina? Explicações para além do “barulho mediático” pelos cientistas Marcelo de Carvalho Bittencourt e Marie Christine Béné.
Linfocitose. Imagem de Bobjgalindo/Wikimedia Commons.
Linfocitose. Imagem de Bobjgalindo/Wikimedia Commons.

Saturando de forma impressionante os serviços de reanimação e espalhando-se como um rastilho de pólvora em todo o planeta, o coronavírus SARS-CoV-2, que está na origem da pandemia da Covid-19, desorganizou brutalmente as nossas sociedades globalizadas.

Mediatizado como nunca, este acontecimento deu lugar a mil e uma opiniões sobre todos os aspetos da pandemia e sobre as formas de lhe fazer face. No meio deste barulho mediático, um tópico em particular merece a nossa atenção: a forma como o nosso sistema imunitário faz face ao SARS-CoV-2 e aos vírus de uma maneira geral.

O que se passa no nosso corpo quando um invasor aí penetra?

Antes de mais, a imunidade mucosa

Da ponta do nosso nariz aos nossos alvéolos pulmonares e da nossa boca à extremidade do nosso tubo digestivo, as nossas mucosas estão em contacto permanente com o ambiente. Elas estão perfeitamente equipadas para localizar, tolerar ou destruir os elementos que transitam pela sua superfície. De facto, a maioria dos potenciais invasores (vírus, bactérias, fungos, parasitas, partículas diversas etc.) penetra no organismo pelo nariz, a boca ou os olhos e uma grande parte deles acaba por chegar ao tubo digestivo antes de serem eliminados.

Esta “eliminação” utiliza as vias naturais para tudo o que não é absorvido pelas mucosas. Estas últimas “triam” os elementos de base dos nutriente que o organismo necessita e deixam no lúmen do tubo digestivo o que não é utilizável. É também ao nível das mucosas que se iniciam as respostas imunitárias contra os micro-organismos.

A primeira barreira de proteção faz intervir a “imunidade inata”. Esta abrange não apenas barreiras físicas como o muco que recobre as mucosas e enreda certos invasores (chamados “antígenos, termo que designa qualquer elemento estranho ao organismo capaz de desencadear uma resposta imunitária) mas também células capazes de detetar rapidamente sinais de perigo. Trata-se essencialmente das células dendríticas e das macrófagas que são capazes de ingerir os elementos estranhos para os destruir (esta internalização chama-se “fagocitose”).

A flora microbiana variada, e globalmente benéfica, que vive permanentemente em todas as superfícies do nosso corpo participa igualmente na imunidade. Esta fauna usa-nos para se abrigar mas participa igualmente na produção de certos derivados da alimentação de que precisamos (por exemplo a vitamina K, fabricada por bactérias presentes no intestino). Impede também a proliferação de micro-organismos patogénicos, sendo tolerada pelo sistema imunitário.

Numerosos antígenos detetados ao nível das mucosas são desta forma rapidamente eliminados. Contudo, quando esta barreira se mostra insuficiente, a imunidade sistémica, por vezes chamada imunidade “adquirida” ou “adaptativa” põe-se em funcionamento. Esta faz intervir elementos do sistema imunitário que se encontram no sangue: os linfócitos B e os linfócitos T (que fazem parte dos “glóbulos brancos” específicos dos vertebrados), imunoglobinas (os célebres anticorpos) e citocinas.

Sentinelas prontas ainda antes do nascimento

Existem dois grandes tipos de linfócitos, os linfócitos B, que produzem os anticorpos, e os linfócitos T, que intervêm por sua vez na destruição das células infetadas, na coordenação da resposta imunitária e na memorização das infeções.

Todos os linfócitos nascem na medula óssea, mas enquanto que os linfócitos B aí terminam a sua maturação (o B é de “bone marrow” em inglês), os linfócitos T terminam a sua maturação no timo (o T é de “thymus”).

Para além da sua origem, um outro ponto comum existe entre linfócitos B e linfócitos T: todos têm a capacidade de reconhecer especificamente um, e apenas um, padrão molecular presente na superfície de potenciais invasores. Na superfície dos linfócitos encontra-se um tipo de recetor particular, “o recetor de antígeno” (chamado BCR para os linfócitos B e TCR para os linfócitos T). Este é complementar de um dado antígeno: é capaz de se juntar a este, um pouco como duas peças de um puzzle são capazes de se encaixar, ou como em carpintaria uma espiga entra numa caixa.

O que é extraordinário é que ainda antes de ter encontrado qualquer invasor, o organismo de um recém-nascido já é capaz de reconhecer potencialmente todos os antígenos existentes. Antes do nascimento, milhões de linfócitos são dotados cada um de um recetor de antígeno aleatório, capaz de reconhecer especificamente um único padrão molecular. Dado o grande número de linfócitos, todos os antígenos existentes são potencialmente detetáveis: o organismo gerou um enorme reportório capaz de reconhecer tudo, para qualquer eventualidade!

No momento do nascimento, estes milhões de jovens linfócitos não encontraram ainda nenhum antígeno. Chamamos-lhe até linfócitos “ingénuos”... A sua aprendizagem imunitária começa nos primeiros dias de vida, através dos encontros fortuitos com os antígenos presentes no ambiente. Neste período, enquanto acontecem as primeiras multiplicações de linfócitos no seu corpo, o recém-nascido continua protegido pelos anticorpos contidos no leite da sua mãe, enquanto espera que os seus possam assumir o controlo eficazmente.

Quando um antígeno penetra no organismo, por vezes chega à circulação sanguínea ou entra nos canais linfáticos que drenam a linfa (um líquido presente entre as células que lhes faz chegar nutrientes e evacua os seus dejetos). Nos dois casos, o estranho vai encontrar no seu caminho muitos linfócitos B e T estacionados quer no baço (órgão que filtra o sangue), quer nos gânglios linfáticos.

Quando um linfócito “ingénuo” encontra o seu antígeno atribuído, começa a multiplicar-se. O número de linfócitos capazes de reconhecer este antígeno aumenta portanto também, o que é necessário para atacar os invasores, que raramente penetram isolados no organismo (e que aí se multiplicam por vezes rapidamente).

Uma parte destes novos linfócitos ataca os “intrusos” e contribui para os eliminar: são as células “efetoras”. Uma outra parte permanece em repouso, pronta a multiplicar-se de novo, rapidamente, aquando de um próximo contacto com o mesmo antígeno: são as células “memória”, que permitem ao organismo guardar a lembrança da infeção.

Os linfócitos B, fábricas de anticorpos

Quando, no baço ou nos gânglios linfáticos, um linfócito B reconhece um invasor graças ao seu recetor de antígeno, o BCR, começa a multiplicar-se. As suas numerosas cópias põem-se a fabricar e segregar exemplares solúveis do seu BCR: trata-se dos anticorpos (ou imunoglobinas). Produzidos em muito grandes quantidade, derramam-se nas secreções das mucosas ou no sangue.

Estas imunoglobinas têm a mesma complementaridade específica que o BCR. Podem assim por si reconhecer o antígeno que induziu a sua secreção, onde se encontrar, até muito longe dos gânglios linfáticos ou do baço. Contribuem desta forma eficazmente para a sua eliminação. Por outro lado, a cada nova estimulação pelo antígeno, a taxa de anticorpos aumenta proporcionalmente ao número de linfócitos em proliferação que não pára de crescer.

Nos primeiros tempos após um contacto com um invasor, são produzidas as imunoglobinas M. São menos específicas do referido invasor que os outros tipos de imunoglobinas e a sua concentração diminui rapidamente. Mas vão alertar o sistema imunitário da chegada de um novo “invasor”, prendendo-o num complexo imune (designa-se com esta expressão o resultado de uma interação entre um anticorpo e um antígeno):

O primeiro nível de resposta “específica”, ou seja, a ativação dos linfócitos específicos do antígeno, resulta na produção de anticorpos particulares, as imunoglobinas A (IgA), que são derramadas em algumas horas nas secreções mucosas pelos linfócitos B que se espalham no organismo depois de terem sido ativados.

Um pouco mais tarde serão produzidas imunoglobinas G, que constituem a maior parte dos anticorpos presentes no sangue. Participam na luta contra os invasores, interagindo nomeadamente com o sistema do complemento, uma componente da resposta imunitária inata. São também capazes de atravessar a placenta e assim proteger o feto.

Os IgA e os IgG são capazes de se ligar aos invasores, de os impedir de entrar nas células, nomeadamente no caso dos vírus. Fala-se então de anticorpos “neutralizantes”. Estes chamam também a atenção de outras células do sistema imunitário, como os macrófagos que vão comer os vírus presos por exemplo pelas imunoglobinas.

A vigília dos linfócitos T

Os linfócitos T possuem também um “recetor de antígeno”, o TCR, mas este difere do recetor dos linfócitos B: não é uma imunoglobina. O seu TCR permite aos linfócitos T reconhecer o antígeno quando este está associado a uma das moléculas do sistema HLA (acrónimo de “human leukocyte antigen”), que constitui o “complexo maior de histocompatibilidade”. Explicações: à superfície de todas as células do nosso corpo, com exceção das hemácias, encontram-se moléculas HLA de classe I (existem três classes de proteínas HLA). Estas constituem uma espécie de “bilhete de identidade” que indica às células imunitárias que estas células pertencem ao organismo.

Quando um vírus penetra numa célula, multiplica-se. Esta reprodução não é perfeita: gera erros e certas proteínas virais são mal fabricadas. São então cortadas em pequenos pedaços por uma maquinaria celular. Uma parte destes pequenos pedaços de vírus (também chamados “epítopos”) associa-se às moléculas HLA de classe I e o conjunto emerge na superfície da célula,

Se um linfócito T passa por aí, vai constatar que a molécula HLA de classe I foi modificada (uma vez que está agora associada a um epítopo viral). Tudo se passa como se a célula lhe apresentasse um bilhete de identidade falsificado: o linfócito T vai então reagir e destruir esta célula infetada.

Na espécie humana como nos outros mamíferos, o sistema de histocompatibilidade é extremamente variado, tornando cada indivíduo quase único. Isto significa que cada um de entre nós tem uma forma pessoal de apresentar os epítopos virais ao seu sistema imunitário, alguns fazem-no de forma mais eficaz que outros.

Como os linfócitos B, no baço e os gânglios, os linfócitos T específicos proliferam no seguimento do reconhecimento de um antígeno pelo seu recetor de antígeno. Contrariamente aos linfócitos B, não se vão contentar em gerar uma só categoria de linfócitos, mas três sub-populações: os linfócitos T auxiliares, os linfócitos T citotóxicos e os linfócitos T reguladores.

Depois de ter sido ativada pelo reconhecimento de uma célula infetada, cada uma destas sub-populações reage de forma diferente. Os linfócitos T auxiliares segregam numerosas “citocinas”, mensageiros químicos do sistema imunitário, que vão ampliar a resposta de outros linfócitos, T e B. Entre estas citocinas figuram moléculas, algumas das quais intervêm na luta antiviral e anti-bacteriana, como os interferões ou várias interleucinas. Os linfócitos T citotóxicos são capazes nomeadamente de matar as células infetadas por um vírus. Por fim, os linfócitos reguladores controlam as respostas imunitárias eliminando ou inibindo os linfócitos T e B efetores que já desempenharam o seu papel.

Sistema imunitário e SARS-CoV-2

Face ao SARS-CoV-2, que é um novo vírus, encontramo-nos todos na situação de um bebé. Os linfócitos ingénuos específicos de antígenos transportados pelo vírus existem no seio do nosso organismo. É preciso que se multipliquem para o eliminar e gerar uma memória imunitária, a qual terá por seu lado necessidade de se amplificar para que as respostas sejam cada vez mais eficazes.

É assim teoricamente possível ser “reinfetado” pelo SARS-CoV-2, até mesmo com sintomas, uma vez que o coronavírus persiste no ambiente e que o nosso sistema imunitário não é ainda rápido o suficiente para o eliminar rapidamente em caso de novo contacto. Contudo, os diferentes mecanismos da resposta imunitária são, as mais das vezes, eficazes, sobretudo em sujeitos que foram já imunizados. Podem então ser totalmente silenciosos e o indivíduo nem se dará conta que esteve em contacto com o vírus.

Este é o objetivo da vacinação: permitir um encontro dos padrões virais ou bacterianos na ausência de uma infeção para treinar o sistema imunitário para a potencialidade de um encontro com o verdadeiro agente patogénico. Quando este acontecer, os linfócitos estarão prestes a reagir rapidamente e eficazmente...


Marcelo de Carvalho Bittencourt é professor no Laboratório de Imunologia de Nancy da Universidade de Lorraine.

Marie Christine Béné é chefe de serviço de Hematologia Biológica na Universidade de Nantes.

Texto publicado no The Conversation. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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