Classe social também dita a capacidade de estudar em casa

08 de maio 2020 - 15:00

Estudo internacional afirma que quanto mais pobre for o agregado familiar, maior a dificuldade sentida pelos estudantes em acompanhar o ensino à distância.

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Estudo lembra que não basta ultrapassar obstáculos no acesso aos meios digitais, há que ensinar os estudantes a utilizá-los de forma independente.
Estudo lembra que não basta ultrapassar obstáculos no acesso aos meios digitais, há que ensinar os estudantes a utilizá-los de forma independente. Fotografia de Paulete Matos.

Mais de 40% dos estudantes de famílias mais pobres terão menos de dois computadores em casa, algo que tem um impacto direto na forma como conseguem acompanhar o ensino à distância em tempos de pandemia de Covid-19. O valor consta do relatório do Estudo Internacional de Alfabetização em Informática e Informação (ICILS) agora divulgado.

O número de equipamentos informáticos disponíveis em cada lar tem maior peso numa altura em que passaram quase dois meses desde o encerramento das escolas e da promoção do teletrabalho. Por esse motivo, o ICILS, da Associação Internacional para a Avaliação do Desempenho Educacional (IEA), lança conclusões claras sobre a desigualdade de acesso ao ensino à distância.

Como termo de comparação, foram apenas 21% os estudantes portugueses pertencentes a agregados familiares com maiores rendimentos que afirmaram ter menos de dois computadores em casa. Já entre as famílias com menores rendimentos, são 42% os alunos que relatam estar nesta situação.

As conclusões aliás não diferem muito entre países. A nível internacional, 24% dos alunos de meios mais favorecidos têm menos de dois dispositivos em casa, sendo que há 41% na mesma situação entre os agregados familiares mais pobres.

O estudo inquiriu mais de 46 mil estudantes de um total de 14 sistemas de ensino diferentes sobre os dispositivos digitais ao seu dispor, “incluindo laptops e computadores de mesa, tablets e e-readers".

A conclusão do estudo não é surpreendente, mas serve para lembrar o impacto da desigualdade económica também no acesso ao ensino em tempos de pandemia: a disponibilidade de dispositivos tecnológicos está diretamente ligada ao estatuto socioeconómico dos pais.

A agência Lusa cita Dirk Hastedt, diretor executivo da associação responsável pela coordenação do estudo, quando diz que estas conclusões fazem-nos perceber quão difícil pode ser para alguns alunos estudar quando as escolas encerram, “principalmente se os seus pais e irmãos também precisarem de acesso a um computador para trabalhar em casa”. Hastedt alerta para a possibilidade de os filhos de famílias mais pobres correrem “o risco de ficar para trás, comparativamente aos seus colegas”.

E embora a disponibilização de mais computadores ou demais dispositivos digitais aos estudantes nesta situação possa ter um impacto positivo, é também preciso garantir que estes conseguem utilizá-los.

"Enquanto muitos países estão a fazer esforços significativos para garantir a continuidade das oportunidades de educação, aumentando o acesso aos dispositivos, também é vital que garantam que os alunos sabem realmente como usá-los efetivamente", frisa Dirk Hastedt.

Segundo o mesmo estudo, apenas 20% dos estudantes portugueses que foram inquiridos "demonstraram que podem ser utilizadores independentes de um computador", enquanto a vasta maioria "necessita de instruções diretas para concluir tarefas básicas".