Zohran Mamdani foi eleito Presidente da Câmara de Nova Iorque, derrotando um peso pesado naquele Estado numa disputa com garantidas repercussões a nível nacional, nomeadamente dentro do Partido Democrata. Ao longo dos últimos meses, a popularidade da sua campanha passou fronteiras e captou a atenção da esquerda pelo mundo fora, em procura de respostas para a crise que atravessa.
Parece-me que não é controverso dizer que Mamdani é um talento político geracional, talvez o mais carismático e com melhor comunicação política que a esquerda americana (e atrevo-me até dizer ocidental) produziu nas últimas décadas. E é inegável que o seu estilo de comunicação digital tem sido um trunfo forte na campanha eleitoral e que há lições a retirar nesse aspeto também. Mas, para lá das qualidades individuais e das redes sociais, o que podemos verdadeiramente aprender e adaptar da campanha de Mamdani?
Lição 1: Uma candidatura de militância
Por muito eficazes e cativantes que tinham sido os vídeos e as publicações nas redes sociais, desengane-se quem ache que investir numa estratégia de comunicação digital deste género é o suficiente. Se há algo que a campanha de Mamdani mostrou é que uma campanha se faz, acima de tudo, pela mobilização da militância de base. Todas as operações de campanha serviam a campanha de rua.
Já durante as eleições primárias do Partido Democrata em junho se notava que esse era o motor da campanha: ao longo de oito meses de primárias, a estrutura de campanha contou com mais de 50 mil voluntários que bateram a mais de um milhão e meio de portas em todos os cinco burgos da cidade de Nova Iorque.
Na campanha para as eleições gerais, estes números foram superados em todos os sentidos. O número de voluntários superou os 90 mil, e a campanha de Mamdani sozinha chega perto do recorde de portas batidas em eleições anteriores por todos os candidatos. Nos dias antes das eleições, a campanha contou com quase 200 eventos diários de porta-a-porta espalhados em todos os bairros da cidade. Só no último domingo de campanha, bateram a mais de 157 mil portas. A este trabalho de militância e voluntariado junta-se ainda toda uma operação de phone-banking que fez centenas de milhares de chamadas para eleitores.
Lição 2: A importância de uma mensagem centrada na luta de classes
A campanha de Zohran focou-se maioritariamente numa agenda transformadora e afirmativa, meticulosamente preparada em torno de um tema claro, fácil de perceber e com que a maioria se identificava: o enorme aumento do custo de vida. As principais bandeiras e propostas da campanha eram, portanto, uma resposta a esta crise. O programa incluiu propostas como o congelamento de rendas em apartamentos com renda estabilizada, creches gratuitas, construção de 200 mil casas a custos acessíveis, autocarros gratuitos, um projeto-piloto de mercearias municipais com preços mais acessíveis de bens essenciais, o aumento do salário mínimo, entre outras.
A escolha minuciosa das propostas facilitou as operações de campanha, pois estes eram transmitidos numa linguagem simples e funcionavam de forma simbiótica, criando um programa coerente que era facilmente absorvido pelos eleitores. A isto juntou-se uma importante disciplina de mensagem. No meio de todos os ataques que a campanha recebia, a resposta de Mamdani passava sempre por recentrar a conversa na sua agenda e em falar sobre as suas propostas, não permitindo assim aos seus adversários e à comunicação social que ditassem os termos da conversa e a agenda da campanha.
Todas estas medidas, e toda a campanha no geral, foram transmitidas de forma a tornar visível as linhas de classe, demonstrando quem sofre com o aumento do custo de vida e quem beneficia disso, assim como as dinâmicas de poder existentes por detrás dessa relação.
Também aqui há uma lição mais específica a tirar sobre como moldar e adaptar propostas neste sentido, ao mesmo tempo que se tem em conta o domínio da cultura liberal individualista e a falta de consciência de classe do eleitor comum. Neste contexto, parece-me claro que propostas de justiça fiscal e taxação dos mais ricos não devem ser apresentadas como um fim em si mesmo nem como uma bandeira programática por si só, como fez o Bloco nas últimas legislativas. Em vez disso, Mamdani apresentou a taxação dos mais ricos como um meio para pagar uma agenda transformadora que beneficiava a gigantesca maioria de população da cidade, em detrimento de quem tanto acumula e beneficia do sistema económico vigente.
Lição 3: Identidade e princípios não foram bandeira, mas também não foram cadastro
Apesar do foco numa mensagem de populismo económico, isso não significou qualquer recuo na luta interseccional contra todas as formas de opressão e de discriminação. Durante toda a campanha, posicionou-se pela expansão e defesa dos direitos LGBTQ, do feminismo e dos direitos dos imigrantes, e abordou frequentemente como defenderia estes últimos da Administração Trump caso fosse eleito. Em nenhum momento Mamdani tentou esconder aquilo que era e o que defendia: socialista, muçulmano, racializado, nascido no Uganda, pró-Palestina. Pelo contrário, são elementos centrais da sua identidade que defendeu com orgulho ao longo de toda a campanha, a par de uma visão claramente multirracial, multicultural e multilíngue da cidade, das instituições e das comunidades que representa.
Tudo isto refuta a teoria de que existe uma escolha necessariamente binária entre luta de classes e “identitarismos” e que a esquerda para recuperar tem de abandonar por completo o segundo. Nova Iorque, tal como outros casos, mostra-nos que é possível redirecionar o foco programático e de mensagem para uma agenda transformadora centrada na luta de classes sem recuar em qualquer uma destas lutas.
Lição 4: Transformar e recuperar o eleitorado
Numa altura em que o Partido Democrata desespera sobre como recuperar eleitorado perdido para o Partido Republicano, a campanha do Zohran mostrou várias estratégias de como o fazer, algo que pode também ser adaptado pela esquerda fora dos Estados Unidos.
Enquanto que as campanhas democratas tradicionais focam-se em eleitores com elevada propensão para votar, nomeadamente nos ‘triple primes’ (eleitores que votaram nas últimas três primárias consecutivas), a campanha de Mamdani procurou desde o início alargar a tenda e redirecionar os esforços para eleitores ocasionais e abstencionistas. A ideia é simples de perceber: uma mensagem centrada no custo de vida pode ter efeito junto daqueles que se sentem abandonados pelo governo e pelas instituições. O foco cirúrgico de algumas das propostas, tal como o congelamento de rendas em apartamentos com renda estabilizada, permitiu também focar a campanha em bairros com maior concentração desse tipo de apartamentos.
Além disso, o foco na agenda económica, a capacidade de comunicação digital, as estratégias de mobilização e uma defesa incansável da Palestina face aos ataques dos meios de comunicação social e da direita, permitiram também uma mobilização sem precedentes de voto jovem. Não só as primárias democratas tiveram uma participação recorde de jovens, como este fenómeno se intensificou para as gerais: só no voto antecipado que terminou no domingo, a participação dos eleitores entre os 18 e os 29 já tinha ultrapassado em 30% a votação total desse mesmo grupo na eleição passada.
Lição 5: Uma candidatura não nasce do vácuo
Em 2020, Mamdani foi eleito para a Assembleia Estadual de Nova Iorque, em representação de um distrito de Queens, e endossado pela Secção da Cidade de Nova Iorque dos Democratic Socialists of America (NYC-DSA), no qual já militava há vários anos. Antes de concorrer em 2020, já contava com muitos anos de participação e organização ativa dentro de movimentos e de campanhas eleitorais na sua comunidade. Por exemplo, enquanto voluntário e militante da NYC-DSA, esteve envolvido na famosa vitória de Alexandria Ocasio-Cortez, que representa no Congresso alguns dos mesmos bairros que Mamdani representou na Assembleia. Trabalhou também como gestor de campanha do palestiniano-americano Khader El-Yateem também para a Assembleia em 2017, e de Ross Barkan para o Senado Estadual em 2018. Participou durante anos, também no seio das atividades de organização da NYC-DSA, na contínua mobilização de comunidades em tornos de movimentos sociais e de sindicatos, e em campanhas de defesa dos direitos dos inquilinos ou de distribuição alimentar, por exemplo.
A sua candidatura para a Assembleia Estadual em 2020, coordenada pela NYC-DSA, tinha os mesmos pilares fundamentais da campanha de 2025: um programa socialista baseado em linhas de classe e de solidariedade interseccional, organizado em torno do enraizamento comunitário e da mobilização militante de base nas ruas. Ao longo do seu mandato na Assembleia, tanto Mamdani como a NYC-DSA conseguiram vitórias importantes, como o perdão de dívida para taxistas, um teste-piloto de um autocarro grátis em cada burgo, a aprovação do Build Public Renewables Act, entre outros.
A candidatura de Mamdani para a Câmara de Nova Iorque, tal como essa primeira em 2020, não foi apenas fruto de uma decisão individual, mas de um entendimento comum dentro da liderança da NYC-DSA de que ele seria um representante digno do movimento. O objetivo inicial da campanha para as primárias nunca foi sequer ganhar, mas sim utilizar a eleição como uma oportunidade para aumentar a capacidade de organização e de recrutamento da secção local.
Não querendo de qualquer maneira descreditar o perfil e as suas qualidades individuais, que foram obviamente fatores importantes na eleição, parece-me que há uma conclusão essencial a retirar que vai além da personalização que alguns tentam fazer: a vitória de Zohran Mamdani é, acima de tudo, uma vitória da NYC-DSA. É resultado de esforços coletivos e cumulativos ao longo da última década, da contínua expansão da capacidade de organização e das lições aprendidas ao longo de várias eleições, tais como as de Alexandria Ocasio-Cortez, Julia Salazar, Jabari Brisport e Kristen Gonzalez.
É a prova de que políticos socialistas com sucesso não emergem no vácuo apenas pelas suas qualidades individuais ou prestação nas televisões, mas sim enquanto representantes de uma cultura política coletiva praticada em continuidade e enraizada nas comunidades.