Chatear o Camões

28 de junho 2024 - 21:50

Comemora-se este ano o 5º centenário do nascimento de Camões, supostamente já que o grau de incerteza e de fantasia que rodeia o poeta torna tudo algo nebuloso. O 3º Centenário da sua morte, em 1880, foi um momento de exaltação nacionalista, em que foi elevado à categoria de símbolo nacional.

porNuno Pinheiro

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No ano de comemoração do 5º centenário do seu nascimento, a polémica começou por ser sobre a falta de iniciativas, para agora ser sobre uma moeda comemorativa, baseada num busto de José Aurélio que está no parlamento, desde os anos 90

Comemora-se este ano o 5º centenário do nascimento de Camões, supostamente já que o grau de incerteza e de fantasia que rodeia o poeta torna tudo algo nebuloso. O 3º Centenário da sua morte, em 1880, foi um momento de exaltação nacionalista, em que foi elevado à categoria de símbolo nacional. Nessa altura o corpo foi levado para os Jerónimos, levando à boleia Vasco da Gama. Numa polémica, entretanto, esquecida, foi posta em causa a veracidade dos restos mortais de ambos. Talvez venha daí esta expressão “chatear o Camões”.

Camões é tão importante como símbolo nacional que o 10 de junho, que tem passado por várias metamorfoses, seja também o “Dia da Camões”. A razão para isso é uma delícia de exemplo de como se molda a história. 10 de junho seria a data da morte de Camões, coincidindo com a entrada das tropas de Filipe II, em Portugal. Nessa data as últimas palavras de Camões teriam sido (numa versão simplificada) “Morro, mas morro com a Pátria”, ou numa versão mais extensa, verdadeira, mas anterior e não pretendendo ser as últimas palavras: “Enfim acabarei a vida e verão todos que fui tão afeiçoado à minha Pátria que não só me contentei de morrer nela, mas com ela.” É tudo muito conveniente para a criação do mito, mas pouco plausível, começando numa data de morte que hoje é posta em causa, não só no dia, como também no ano.

No ano de comemoração do 5º centenário do seu nascimento, a polémica começou por ser sobre a falta de iniciativas, para agora ser sobre uma moeda comemorativa, baseada num busto de José Aurélio que está no parlamento, desde os anos 90. Esta polémica faz lembrar a que aconteceu à volta do D. Sebastião de Cutileiro que está numa praça de Lagos, desde os anos 60. Está em causa a semelhança com o homenageado, semelhança que, aliás, ninguém conhece, mas todos julgam conhecer pelas representações românticas do século XIX. D. Sebastião representado como uma criança inocente e guerreira, ou Camões de feições disformes, mas reconhecível pela pala, a coroa de louros (que nunca teve) e a gola, são representações simbólicas.

Camões é sagrado, ai de quem ponha em causa a sua sagrada imagem, ai de quem ponha em causa o ensino de Os Lusíadas a crianças de 14 anos que não os conseguem compreender e os ficam a detestar. O que está em causa não é a qualidade literária, mas sim a exaltação nacionalista. Afinal era preciso ter jovens que de bom grado lutassem pelo Mapa Cor de Rosa em 1890 (não chegaram a lutar), nas trincheiras de 1916/18 ou na Guerra Colonial. Diga-se que nas primeiras poucos eram os letrados e, mesmo na Guerra Colonial, chegar até ao 5º ano de então era para poucos.

Camões também é uma invenção romântica. A estátua do largo que tem o seu nome é de 1867, mas foi 1880 e o terceiro centenário da sua morte que o tornaram num símbolo nacional. Geralmente é visto como a exaltação da expansão e do seu auge, mas creio que isso é uma leitura desatenta. Camões é erigido em símbolo nacional pela geração dos vencidos da vida, talvez por ser o primeiro dos vencidos da vida. A sua vida parece ser um exemplo do ideal romântico, aventurosa, apaixonada, patriótica e com uma morte na miséria. Algo teria que ser moldado, mesmo a miséria final que talvez não fosse tão má, afinal tinha uma tença do rei. Nem Saramago (Que farei com este livro?) escapou a isto.

Os Lusíadas são, de facto, a primeira obra do decadentismo que se tornaria numa marca da cultura portuguesa desde então. Não é só no episódio do Velho do Restelo que isso é patente, é também nas proclamações iniciais e finais. Repare-se nas estrofes 6, 7 e 8, dedicadas a D. Sebastião.

E vós, ó bem nascida segurança

Da Lusitana antiga liberdade,

E não menos certíssima esperança

De aumento da pequena Cristandade;

Vós, ó novo temor da Maura lança,

Maravilha fatal da nossa idade,

Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,

Pera do mundo a Deus dar parte grande;

Vós, tenro e novo ramo florecente

De ũa árvore, de Cristo mais amada

Que nenhua nascida no Ocidente,

Cesárea ou Cristianíssima chamada

(Vede-o no vosso escudo, que presente

Vos amostra a vitória já passada,

Na qual vos deu por armas e deixou

As que Ele pera si na Cruz tomou);

Vós, poderoso Rei, cujo alto Império

O Sol, logo em nascendo, vê primeiro,

Vê-o também no meio do Hemisfério,

E quando dece o deixa derradeiro;

Vós, que esperamos jugo e vitupério

Do torpe Ismaelita cavaleiro,

Do Turco Oriental e do Gentio

Que inda bebe o licor do santo Rio:

D. Sebastião, o desejado, era a esperança em que o império não se afundasse, e tivesse novas glórias contra o infiel, esperança, aliás, gorada, porque na altura já novos concorrentes ocidentais tinham surgido, como a recomposição de poderes na Ásia punha em causa o papel de Portugal. Mais gorada seria ainda a esperança quando em 1578, morreu sim, mas devagar, com a fina flor da nobreza portuguesa, abrindo caminho à sucessão por Filipe II, visto pela história nacionalista como o início da decadência de Portugal. Camões era mais clarividente que os historiadores nacionalistas, via já a “decadência” do império nas décadas anteriores. Estará aqui mais próximo de obras críticas do império como o “Auto da Índia” de Gil Vicente, ou mais cruas e realistas como a de Fernão Mendes Pinto (aliás acusado de fantasista).

O 25 de abril destruiu o império, mas não os seus mitos, esses continuaram vivos. O mito imperial fazia (faz) parte da identidade nacional, mais do que em qualquer outro país, e Camões é uma sua pequena, mas simbólica parte. A verdade é que 50 anos depois do fim do império, os mitos não só perduram, como se fortalecem. Há 30 anos o busto de Camões por José Aurélio não colocou problemas, hoje a moeda, baseada no mesmo busto é um escândalo nacional, mais um entre os que envolvem tudo o que possa parecer que vai remover o mofo e a naftalina dos símbolos nacionais. Conservadorismo estético ou político? Os dois costumam andar associados.

Não, caro Luís Vaz, não se mudam nem tempos, nem vontades.

Nuno Pinheiro
Sobre o/a autor(a)

Nuno Pinheiro

Investigador de CIES/IUL