Na primeira tarde do período oficial da campanha, a campanha presidencial de Catarina Martins escolheu o Salão Ático do Coliseu do Porto para uma sessão pública onde intervieram também o sociólogo João Teixeira Lopes e a consultora de comunicação Paula Cosme Pinto.
O ataque da véspera dos Estados Unidos à Venezuela e a reação dos candidatos presidenciais foi um dos temas presentes no discurso de Catarina Martins. “Temos candidatos ao centro todos unidos na desvalorização de um dos mais graves precedentes da política internacional dos últimos tempos. Para lá de generalidades, nenhum foi capaz de condenar mais uma barbaridade de um tirano perigoso que nem sequer se deu ao trabalho de disfarçar as suas intenções”, afirmou a candidata, referindo-se a Marques Mendes, António José Seguro e Gouveia e Melo, lembrando também que Ventura apoiou o ataque de Trump.
“Querem ser Presidente da República e nem sequer têm a coragem para defender um mínimo de direito internacional perante um rufião”, prosseguiu Catarina, concluindo que “a lei do mais forte é a política dos fracos e é a tragédia dos nossos dias”.
Catarina Martins contrapôs a necessidade de uma Presidente da República que tenha “a coragem de chamar ocupação a uma ocupação, colonialismo ao colonialismo e genocídio ao genocídio”. E que a par da “coragem de não desistir da paz”, traga também a coragem do combate pela igualdade num mundo onde oito oligarcas da tecnologia “têm mais riqueza do que três mil milhões de pessoas do nosso planeta e controlam todo o acesso à informação”.
A candidata referiu ainda o “ping-pong” dos ataques entre os candidatos e a ideia de que o próximo Presidente da República “será quem no turno tratará dos negócios e dos interesses do costume”. Para evitar, propôs em alternativa que “que em vez de negócios de ocasião, tenhamos uma Presidente da República que defenda valores”.
Uma vez que os candidatos do centro “não têm coragem de dizer que a Constituição escreve que a habitação é um direito” ou que um salário em Portugal não paga uma casa para viver, Catarina defende que uma Presidente possa “abrir o debate para desbloquear Portugal” e a economia de baixos salários. E conclui que “responder por esses valores é ter na Presidência quem equilibre o jogo contra os negócios do costume que têm afundado Portugal”.
Quebrar a “bolha da solidão” com solidariedade e cuidados
Para vencer a “vertigem do individualismo” e quebrar a “bolha da solidão”, é preciso reconhecer que o Estado está a falhar quando boa parte do território não tem serviços públicos, o acesso à saúde está comprometido e a escola não responde a todos os que dela precisa. Catarina propõe-se abrir o debate sobre “reinventar o SNS para fazê-lo mais forte”, pegando no trabalho de António Arnaut e João Semedo, sobre fortalecer a escola pública “porque a educação é democracia” e sobre criar um serviço nacional de cuidados que garanta o direito à creche para todas as crianças e “que todas as pessoas têm de ter o apoio de que precisam no seu envelhecimento se precisarem de cuidados, e que esse cuidado será com dignidade”.
Presidenciais
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Catarina Martins falou ainda da atualidade do relatório “Cuidar do futuro”, da autoria de Maria de Lourdes Pintasilgo e que colocava como prioridades travar a pobreza e a degradação ambiental. E o cravo que agora é uma das imagens gráficas da sua campanha também é inspirado na campanha presidencial de Pintasilgo em 1986. Duas campanhas que partilham outro objetivo comum: provar que o “tabu mais enraizado na nossa política está errado: uma mulher pode ser Presidente e é bem precisa”.
“As mulheres têm uma consciência aguda profunda de quem paga a fatura de cada decisão, quem paga a fatura do tempo para viver, da segurança de um teto e de ser livre na rua e em casa”, prosseguiu Catarina, concluindo que “uma Presidente da República não legisla nem governa, mas pode perguntar quem paga a fatura de cada decisão e como essa fatura é paga”.