Habitação

Casos de bebés retidos nas maternidades por falta de casa disparam

28 de março 2025 - 21:21

Mães que não têm soluções habitacionais são separadas dos filhos. Casos extremos incluem casos de pessoas sem abrigo, a viver em garagens ou em sítios sem condições.

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Hospital
Fotografia de Paulete Matos.

Os casos de recém-nascidos que ficam retidos em maternidades porque as mães e pais não têm casa aumentou no último ano. Os números de hospitais e maternidades em Lisboa e na margem sul indicam que o fenómeno pode ser transversal à sociedade portuguesa, devido à crise de habitação.

Na Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa, foram 28 recém-nascidos. Mais 9 do que em 2023 e o quádruplo de 2022. No Hospital de São Francisco de Xavier são mais oito e no Garcia da Orta mais cinco do que em 2023. Em nov dos 30 casos em Almada, os menores foram separados das mães e encaminhados para instituições ou famílias de acolhimento.

Ao Expresso, a assistente social Filomena Almeida explica que houve uma “grande degradação das condições de vida das famílias” a partir de 2022, relacionada com os preços da habitação. “Até há dois ou três anos não era comum as famílias viverem em casas partilhadas. As casas podiam ser melhores ou piores e até podia ser uma barraca, mas cada núcleo familiar vivia no seu espaço. De então para cá começaram a aparecer muitos casos de famílias que vivem num quarto alugado, em casas sobrelotadas onde residem muitas outras pessoas”, diz.

Habitação

Ana Paula, vítima da crise da habitação

20 de março 2025

Fátima Xarepe, responsável pelo Serviço Social na MAC, confirma. “A crise habitacional contribuiu bastante para este aumento. As mulheres estão a chegar à maternidade numa situação social cada vez mais complexa e mais frágil”, sublinha. Dos 28 bebés que acabaram por ficar retidos nessa maternidade, metade eram filhos de mulheres em situação de sem-abrigo e, nesses casos, a gestação também não foi acompanhada.

Para além da situação de sem-abrigo, há mulheres a viver em casas sobrelotadas, em garagens e espaços sem condições e até uma grávida a viver num vão de escada de um prédio, pagando 150 euros mensais ao senhorio por um colchão e um cobertor.

Para todos estes casos, não há respostas sociais. As soluções têm passado por manter as mães na MAC, mas acabam por ter sempre de sair. E nesse caso, se não tiverem uma casa para onde ir, os filhos acabam por ser separados das mães.

Recentemente, os movimentos pelo direito à habitação têm acompanhado o caso de Ana Paula dos Santos, uma mãe que recentemente teve o terceiro filho, mas que apesar de trabalhar não tem casa. Devido aos preços das rendas, Ana Paula recorreu à auto-construção para arranjar abrigo, mas a sua casa foi destruída pela Câmara Municipal de Loures.