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A caminho de uma nova guerra mundial permanente?

Com o novo conceito estratégico, a NATO aumenta e agrava as múltiplas crises que já enfrentávamos antes da injustificável e inaceitável guerra de ocupação da Ucrânia pela Rússia, inserindo-as agora no quadro de uma ameaça crescente do uso da força militar contra a sua lista indefinida de inimigos e ameaças. Por Jaime Pastor.
Joe Biden e Pedro Sánchez na última Cimeira da Nato. Foto: Nato/Flickr,
Joe Biden e Pedro Sánchez na última Cimeira da Nato. Foto: Nato/Flickr,

Após o dispendioso e patriarcal espetáculo de uma cimeira realizada para glória maior de Joseph Biden e Pedro Sánchez, a principal conclusão a tirar é que a NATO formalizou um novo salto em frente no seu antigo projeto de se estabelecer como polícia global do planeta ao serviço do bloco capitalista ocidental. De facto, o seu "novo conceito estratégico" constitui uma redefinição dos seus inimigos e ameaças muito superior à que levou ao seu nascimento, em 1949, ou ao que ficou conhecido como a "segunda guerra fria", na década de 1980.

Agora, não só a guerra global contra "o terrorismo em todas as suas formas e manifestações" continua na sequência do 11 de Setembro [1], mas, após o hiato de 2010, a Rússia é novamente apresentada como "a ameaça mais significativa e direta à segurança"; A China é vista como um "concorrente estratégico" a todos os níveis, a médio e longo prazo, (representando "desafios sistémicos" à "nossa segurança, interesses e valores") e, o mais grave, a "imigração ilegal" é descrita como uma "ameaça" à "soberania e integridade territorial" dos seus estados membros. Um elenco, a propósito, ao qual se acrescentam os novos candidatos, Finlândia e Suécia, desde que aceitem as exigências do regime turco, outro vencedor desta cimeira, em detrimento dos residentes curdos nos seus próprios países.

Como se tudo isto não fosse suficiente, o documento está cheio de menções a "atores autoritários", "concorrentes estratégicos" e "potenciais adversários" recorrendo a "estratégias de guerra híbridas" - incluindo "campanhas de desinformação, instrumentalização da imigração, manipulação do fornecimento de energia e o recurso à coerção económica" – e que "o conflito, a fragilidade e a instabilidade em África e no Médio Oriente afetam diretamente a nossa segurança e a dos nossos parceiros".

O documento acordado também não mostra quaisquer reservas em reconhecer que o seu alegado caráter "defensivo" é mera retórica, pois "embora a NATO seja uma Aliança defensiva, ninguém deve duvidar da nossa força e determinação em defender cada centímetro do território aliado, em preservar a soberania e integridade territorial de todos os aliados e em prevalecer contra qualquer agressor". Tudo isto reafirmando ao mesmo tempo as armas nucleares como a sua "garantia suprema de segurança".

Ao serviço dessa militarização geral, para além do espaço europeu ser particularmente privilegiado com o reforço da presença dos EUA no Leste e o crescimento das forças de reação rápida de 40.000 para 300.000 militares, o compromisso de todos os estados-membros de aumentar as suas despesas militares para pelo menos 2% do PIB aparece apenas como "um patamar, não um teto", como assegurou o Secretário-Geral, Jens Stoltenberg. Estas propostas servirão, portanto, para aumentar os lucros do velho complexo militar-industrial que o ex-presidente Eisenhower denunciou e para relançar a corrida aos armamentos, incluindo a corrida aos armamentos nucleares, à escala global.

Em suma, utilizando o álibi da invasão russa da Ucrânia, os EUA conseguiram fazer esquecer muito rapidamente os efeitos da derrota sofrida no Afeganistão, frustraram qualquer indício de autonomia da União Europeia e transformaram a grande maioria dos países europeus em servidores fiéis do projeto de recomposição da sua hegemonia contra os seus principais inimigos estratégicos – a Rússia a curto prazo e a China a médio e longo prazo –, mas também contra tudo o que possa representar uma ameaça aos seus interesses geo-económicos e políticos em qualquer parte do mundo, intimamente associado à defesa da supremacia branca ocidental.

No caso de Espanha, este novo cenário de belicismo é euforicamente ratificado por Pedro Sánchez, que se apressou a mostrar uma vez mais o seu servilismo ao amigo americano através da "declaração conjunta entre o Reino de Espanha e os Estados Unidos da América". Nele, juntamente com declarações para o auditório sobre a "defesa da democracia", ambos os líderes reafirmam-se como "aliados, parceiros estratégicos e amigos" e concordam com "o estacionamento permanente de navios de guerra dos EUA em Rota", aumentando o número de navios de guerra dos EUA de quatro para seis.

A isto acresce a vontade comum de colaborar na "gestão dos fluxos migratórios irregulares", por outras palavras, na necropolítica migratória; tarefa que por sua vez delegam no seu amigo comum, o regime marroquino, recentemente responsável pelo brutal massacre de Melilla, que violou os mais elementares direitos humanos e, não o esqueçamos, com o qual são cúmplices na ocupação ilegal do Sahara.

Rumo a uma (des)ordem global mais militarizada e insegura

Esta proclamação sem rodeios da NATO como uma força ofensiva, tanto a Leste como a Sul, e olhando para a área geopolítica chave da Ásia-Pacífico, não é nova, mas tem agora lugar no contexto geral de crise definitiva da globalização feliz capitalista e de maior competição inter-imperialista em quase todas as áreas, com a tendência de formação de novos blocos comerciais e militares.

Estamos assim perante uma transição para uma nova (des)ordem global multipolar e assimétrica [2] que desafia a centralidade do Ocidente, apesar do facto deste se empenhar em mantê-la por todos os meios à sua disposição, agora com um maior recurso à força militar. Esta nova fase decorre no contexto de uma "policrise" [3] na qual interage uma longa lista de desafios e que foram acelerados e agravados pela guerra na Ucrânia.

Estes incluem a crise climática e energética, as crises alimentares num número crescente de países e os consequentes movimentos migratórios, a estagflação e a ameaça de recessão, a perspetiva duma nova crise da dívida global, a hipótese duma nova onda de pandemias e crises de saúde e cuidados de saúde, e, por último mas não menos importante, o risco duma escalada militar que conduza a uma guerra nuclear.

Um conjunto de crises que contribuirá para reforçar os atuais neoliberalismos autoritários (entre os quais a fronteira entre liberais e iliberais se tornará confusa, tendo como referências a Turquia, Hungria e Polónia), confrontados com protestos e revoltas de diferentes sinais e sob a pressão de uma extrema-direita capaz de estabelecer a agenda em muitos países centrais.

Assim, não nos devemos deixar enganar pela propaganda falaciosa, agora em voga, daqueles que, graças a Putin, fingem apresentar a NATO como um baluarte da democracia contra o autoritarismo, tentando fazer-nos esquecer a própria história desta organização militar [4] e, sobretudo, dos EUA.

Com o seu "novo conceito estratégico", a NATO apenas faz aumentar e agravar as múltiplas crises e desigualdades de todo o tipo que já enfrentávamos antes da injustificável e inaceitável guerra de ocupação da Ucrânia pela Rússia, inserindo-as agora no quadro de uma ameaça crescente do uso da força militar contra a sua lista indefinida de inimigos e ameaças.

Por um anti-imperialismo internacionalista e solidário

"O movimento pelo desarmamento nuclear europeu não se oferece para apaziguar ninguém, nem quer esquecer nada. A sua oferta é opor-se à militarização de ambos os blocos". (Edward P. Thompson, Opção Zero, 1983: 139).

Apesar do facto de hoje irmos contra a corrente dominante na opinião pública ocidental e numa grande parte da esquerda institucional, há muitas razões para a esquerda alternativa denunciar abertamente a nova estratégia imperialista ocidental acordada na Cimeira de Madrid e a ameaça real que ela representa para os povos do mundo. Uma denúncia que não tem de estar em contradição com a condenação da invasão russa e o apoio ao povo ucraniano no seu legítimo direito de se defender, com e sem armas, sem ter de se identificar com o discurso pró-atlantista do seu líder Zelenski.

Para além do neo-campismo duns e do neo-atlantismo doutros, a nossa tarefa deveria ser sempre colocar em primeiro plano o apoio aos povos sob ataque e a todos aqueles que reclamam o seu direito a refúgio e asilo ou simplesmente a uma vida digna, qualquer que seja a sua origem ou condição. Só assim poderemos construir um movimento transnacional capaz de enfrentar a NATO e todos os imperialismos – sejam eles maiores ou menores – e forjar uma alternativa à conceção militarista de segurança que todos eles partilham e aplicam nas respetivas áreas geopolíticas em que procuram alargar o seu domínio.

Face a esta visão estreita ao serviço dos seus vários interesses, devemos opor uma ideia multidimensional de segurança global, capaz de responder ao conjunto de crises acima mencionadas, colocando a defesa da vida e dos bens públicos e comuns no centro, face à emergência global crónica. E sabemos que este último é incompatível com a sobrevivência do capitalismo sob qualquer das suas versões, seja ela ocidental, oriental ou do sul.

E a esquerda?

Para concluir, não creio que seja necessário dizer muito sobre as implicações de tudo isto para Espanha, mas uma delas parece óbvia: o alinhamento de Pedro Sánchez com o líder dos EUA e o seu discurso belicista não conhece agora limites. Isto foi amplamente verificado nesta cimeira com o seu compromisso de duplicar o orçamento militar e a sua aceitação do reforço da base militar da Rota. Estas decisões foram recentemente precedidas por um comportamento tão ultrajante como o do primeiro-ministro em relação ao povo saharaui ou, mais recentemente, a sua cumplicidade no massacre de pessoas do Sudão, Chade e outros países africanos, em Melilla.

Por conseguinte, não pode haver dúvidas, neste momento, de que o PSOE está a tornar-se mais de direita na sua disputa aberta pelo extremo centro com o PP de Feijóo, ambos, por sua vez, estão a assumir uma agenda cada vez mais neoliberal, racista e militarista. Face a esta deriva e à crescente agitação social que pode gerar, é provável que aumente o desinteresse pela política entre as classes populares, mas também é provável que um novo descontentamento mobilizador possa irromper em cena.

A questão é prever em que direção podem evoluir os novos protestos que possam surgir, tendo em conta o esgotamento definitivo do ciclo 15M-Podemos e o enorme vazio político que existe à esquerda do PSOE, pelo menos a nível estatal. É portanto urgente abrir um processo de recomposição de uma esquerda alternativa e autónoma em oposição a este governo e em permanente confronto com a direita. Uma esquerda pronta a promover, juntamente com os sectores mais ativos dos movimentos sociais, uma nova onda de mobilizações e a contribuir para lhes dar um significado anti-neoliberal e radicalmente democrático.


Jaime Pastor é politólogo e editor de Viento Sur.

Publicado originalmente no Viento Sur. Traduzido por António José André para Esquerda.net.


Notas:

[1] Para uma análise do que significou aquela fase, remeto-me à minha contribuição “Geopolítica, guerras e ‘balcãs globais’” numa obra coletiva que coordenei com José Ángel Brandariz: Guerra global permanente. A nova cultura da insegurança, Catarata, Madrid, 2005, pp. 15-51.

[2] Ashley Smith, “After Russia’s invasion of Ukraine”, Against the current, 26/06/2022

[3] Adam Tooze, “Definir a policrise: da imagen à matriz da crise”, sinpermiso, 26/06/2022

[4] Veja alguns dos trabalhos publicados em Informe 53 do Centro Delàs “A NATO construindo insegurança global”.

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