Call-centers: mais trabalhadores com ensino superior, salários em queda

17 de maio 2023 - 13:38

Segundo um inquérito da associação patronal do setor, a percentagem de trabalhadores que frequentam ou concluíram o ensino superior aumentou num ano de 36% para 45%. O salário médio caiu para os 890 euros em 2022.

PARTILHAR
Call-Center
Foto Secretaría de Movilidad de Medellín/Flickr

O inquérito promovido pela Associação Portuguesa de Contact Centers, (APCC), que realiza uma conferência no Estoril, é citado esta quarta-feira pela agência Lusa e baseia-se nas respostas obtidas de 1.182 linhas de atendimento, que envolvem mais de 52 mil trabalhadores, cerca de metade do total no setor dos call-centers. Segundo este inquérito, a percentagem de trabalhadores em 'call-centers' com ensino superior ou que frequentam este grau de ensino subiu para 45% em 2022, face a 36% no ano anterior. Já o número de trabalhadores com ensino secundário completo caiu de 59% em 2021 para 50% em 2022.

Mas o aumento das qualificações destes trabalhadores não correspondeu ao aumento de salários nos call-centers. Pelo contrário, os patrões do setor apontam uma queda de 0,78% na remuneração média bruta em relação a 2021, para 890 euros no ano passado. Uma queda que surpreende os próprios autores do inquérito, ao referirem que “mesmo admitindo que existam diferenças na amostra (…), seria de esperar um aumento assinalável das remunerações, pelo efeito conjunto do aumento da inflação e da necessidade de aumentar a retenção de pessoas”. Quem viu o salário médio aumentar, mas longe dos valores da inflação - apenas 1,6%, para 1.101 euros -, foram os supervisores.

No entanto, esta realidade não surpreende quem lá trabalha. Há três meses, em declarações ao Esquerda.net, um trabalhador de call center desde 2004 e na Teleperformance desde 2009, afirmava que o seu salário base nesta empresa nunca foi superior ao salário mínimo nacional. "Progressão salarial é algo inexistente, sempre foi e tem tendência a piorar. E não é só nesta empresa, é assim em todas as empresas do sector se estivermos a representar "clientes " (isto é, marcas) nacionais", explicou José Abrantes, ativista sindical no SINTTAV.

Quanto à taxa de rotatividade dos operadores e supervisores, ela mais do que duplicou em 2022 face a 2021, com 48,2% e 21%, respetivamente. Mas os patrões continuam a argumentar que este não se trata de um "setor de precários", afirmando que mais de metade (55%) têm contrato sem termo, que o recurso ao trabalho temporário desceu para 5,6% e o número de trabalhadores a recibos verdes é inferior a 2%.

O regime de trabalho entre os inquiridos encontra-se dividido quase em partes iguais, com 30% a trabalharem 100% remotamente em 2022, 32% em regime 100% presencial e 38% em regime híbrido. Quanto aos setores com mais linhas de atendimento destacam-se as seguradoras (15,4%), a assistência em viagem (13,4%), os bancos e outras instituições financeiras (12,0%) e a saúde pública ou privada (11,6%).