Os 104 mil trabalhadores do setor não o sentem nos seus bolsos, mas o negócio dos call centers em Portugal é milionário. De acordo com o jornal online Eco, a atividade gerou um volume de faturação de 3.000 milhões de euros em 2022 e tem crescido 10% ao ano.
Este é um negócio cada vez mais internacional. Estima-se que mais de metade dos call centers localizados em Portugal estejam a trabalhar para outros países, ou seja a atender clientes estrangeiros em várias línguas. A isto se dedicam empresas portuguesas mas também, e na sua maioria, empresas de outros países como a Webhelp, a Teleperformance e a Intelcia.
A razão do sucesso é descrita pelo presidente da Associação Portuguesa de Contact Centers, Pedro Miranda, em declarações àquele órgão de comunicação social, na linguagem cifrada “empresarial”: o segmento internacional cresce mais do que a média e ganha peso porque tem “maior valor acrescentado e uma unidade de faturação por pessoa que é superior”. Mas não será preciso grande esforço para decifrar o que quer dizer.
O dirigente da associação patronal diz ainda que continuam a entrar novas empresas “com muita frequência” e que 35 mil destes trabalhadores sejam estrangeiros alegadamente porque “o mercado nacional não consegue fornecer a quantidade de pessoas necessárias”.
Para ele, “esta indústria é uma escola para a vida. Não é fácil, mas realmente dá estrutura, nomeadamente a nível de liderança e de trabalho em equipa”. A peça e as suas declarações não esclarecem os detalhes do que “não é fácil” nesta profissão. Os lucros, esses, não parecem estar a ser difíceis.
"Progressão salarial é algo inexistente"
Em declarações ao Esquerda.net, José Abrantes, trabalhador de call center desde 2004 e na Teleperformance desde 2009, afirma que o seu salário base nesta empresa nunca foi superior ao salário mínimo nacional. "Progressão salarial é algo inexistente, sempre foi e tem tendência a piorar. E não é só nesta empresa, é assim em todas as empresas do sector se estivermos a representar "clientes " (isto é, marcas) nacionais", explicou o activista sindical no SINTTAV.
Mesmo no caso das chefias, o aumento do valor do salário mínimo nos últimos anos "apanhou" agora o seu salário base, com a atualização para os 760 euros, enquanto o CEO internacional da empresa, Daniel Julian, "em 2020 ganhou 17 milhões de euros", prossegue este trabalhador, classificando de "obscenos" estes números.
Lê aqui o Boletim "Em Comum", uma publicação de trabalhadores do Bloco de Esquerda envolvidos nas lutas dos setores das telecomunicações e do audiovisual.