Em Petrópolis, o balanço da tragédia provocada pelas fortes chuvas e pelo deslizamento das terras aponta já para 152 pessoas mortas e 165 desaparecidas, segundo a Lusa. As operações de busca e salvamento prosseguem, envolvendo mais de 500 bombeiros, mas os trabalhos são dificultados pelas más condições no terreno e pelo risco de mais deslizamentos de terra.
Tragédia de Petrópolis poderia ter sido evitada
A Greenpeace Brasil apontou, no dia seguinte ao das chuvas intensas, que a tragédia poderia ter sido evitada pelo estado.
Segundo a Revista Fórum, a ONG lembra que "o estado do Rio de Janeiro é suscetível a eventos climáticos extremos por conta de suas características biofísicas, como o relevo montanhoso, a descaracterização de rios e córregos, a ocupação desordenada da zona costeira e o intenso desmatamento da Mata Atlântica".
Tendo analisado o Plano de Adaptação Climática, elaborado em 2018 pela prefeitura do Rio de Janeiro e por instituições como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e que tinha como objetivo apresentar planos para conter os impactos dos eventos extremos climáticos, a ONG constatou que não foram tomadas as medidas previstas nas políticas públicas para evitar tragédias como a de Petrópolis.
“O risco decorrente da crise do clima é presente e historicamente negligenciada pelo governo do estado, que precisa urgentemente criar medidas de prevenção, adaptação e desenvolver ações estruturais de enfrentamento a este cenário. Por isso, precisamos pressionar para que os estados brasileiros decretem emergência climática, para trazer soluções em constante diálogo com a sociedade civil”, afirma Rodrigo Jesus, porta-voz do Greenpeace Brasil.
“Fortes chuvas escancaram negligência do Brasil diante da crise climática”
Em comunicado da Greenpeace sobre as fortes chuvas no Brasil neste início de 2022, a ONG assinala que as “tragédias socioambientais expõem ausência completa de planos de adaptação e mitigação dos eventos extremos”.
“As imagens que retratam a grave situação de emergência de populações do Maranhão, Tocantins, Piauí, Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais, principalmente, afetadas por alagamentos, deslizamentos e desmoronamentos, também denunciam o descaso político e negligência do Brasil com a crise climática”, salienta a organização ambiental. E, critica os governantes e gestores públicos que “insistem em ignorar o que a realidade impõe e o que diz a ciência” que alerta que o aquecimento global torna os eventos climáticos extremos mais frequentes e intensos.
O comunicado refere que embora o “alto volume de chuvas tenha origem na conjunção de fenómenos como o La Niña e a chamada Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), o aumento da temperatura do planeta influencia diretamente na intensidade em que eles ocorrem”.
A organização ambientalista aponta ainda que, para além das chuvas intensas, as ondas de calor extremos, como a que está a atingir o sul do Brasil, a Argentina e o Uruguai, também são reflexos deste quadro.
Decretar Emergência Climática
Face à situação que se está a viver, a ONG considera que o primeiro passo necessário é “reconhecer a emergência climática”, para implementar “mudanças estruturais que garantam a sobrevivência das populações em situação de vulnerabilidade, afetadas desproporcionalmente pelos eventos extremos”.
A Greenpeace defende que é urgente que “os governos dos estados que padecem com as atuais tormentas decretem estado de Emergência Climática e desenvolvam ações de enfrentamento a esse cenário”.
Essas ações envolvem planos de adaptação climática, que “são a maneira mais eficaz e estratégica para preparar as cidades brasileiras a repensar e adaptar sua infraestrutura, saneamento básico, acessibilidade e assistência técnica a fim de garantir a redução da vulnerabilidade e exposição perante os efeitos danosos das catástrofes”.
A Greenpeace defende a necessidade de planos de adaptação climática em cada estado, só existindo atualmente em sete estados, e aponta a necessidade de garantir planeamento e ações efetivas, em diálogo com a sociedade civil organizada e com garantia orçamental. A organização sublinha ainda que é necessário “mapear as principais áreas de vulnerabilidade no interior dos municípios a fim de solucionar as contradições e problemas socioambientais associados a padrões de desenvolvimento e transformação no espaço urbano e rural”.
“A constante impermeabilização do solo, o desmatamento, a especulação imobiliária em regiões litorâneas, as mudanças no uso da terra para a agropecuária, a ocupação criminosa de áreas protegidas e terras públicas, assim como a violação dos direitos dos povos originários, são elementos de um projeto de desenvolvimento que está a serviço da destruição da natureza e que deve ser deixado para trás”, realça ainda a Greenpeace.