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Brasil: Cai o 2º ministro da Saúde em menos de um mês

Nelson Teich ficou 28 dias no cargo e demitiu-se em choque com o presidente devido a medicamento cujo benefício não é comprovado pela ciência. Durante a sua estadia no governo, a covid-19 escalou descontroladamente. Agora, Bolsonaro ainda quer piorar a situação. Por Luis Leiria.
Nelson Teich: mal entrou já saiu. Foto de Marcello Casal Jr. - Agência Brasil
Nelson Teich: mal entrou, já saiu. Foto de Marcello Casal Jr. - Agência Brasil

As grandes crises políticas trazem à tona, por vezes, personagens que parecem ter saído diretamente de um filme ou até de uma ópera bufa. Nelson Teich é um desses personagens. Segundo ministro da Saúde demitido em menos de um mês, ele nunca chegou verdadeiramente a assumir o ministério. Não tomou uma única decisão relevante. Foi rodeado de secretários vindos do meio militar que provavelmente nunca vira na sua vida, andou semanas a dizer que era preciso reunir dados para não andar às cegas e fazer um plano de combate à pandemia que levasse em conta as desigualdades regionais, mas a sua estratégia nunca foi apresentada. No dia em que seria, a conferência de imprensa foi cancelada em cima da hora.

Estatística sinistra

Quando Teich tomou posse como ministro, o Brasil já contava o número apreciável de 2.141 mortes causadas pela covid-19. No dia em que sai, o número oficial de óbitos da doença é de 13.993. Mas não se pense que Teich sai por causa do descontrole com que se espalha a pandemia. Esse nunca poderia ser o critério do presidente Bolsonaro, que procura, por todos os meios, boicotar os esforços dos governadores dos principais estados para conter a progressão do novo coronavírus. Aos que o acusam de não ter qualquer plano para enfrentar a doença, Bolsonaro dá duas respostas: 1) Que a doença só irá desaparecer quando 70% da população for infetada: “Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre.” 2) Que é preciso usar um remédio mágico, a cloroquina. Foi justamente este segundo ponto que levou Nelson Teich a bater a porta. Médico oncologista, consultor de instituições privadas de saúde, Teich terá dito que não pretendia manchar o seu currículo por causa da cloroquina.

Acontece que Bolsonaro já tinha defendido a mudança dos protocolos do uso dessa droga, que por enquanto só é ministrada aos pacientes em situação muito grave. Bolsonaro quer que seja ministrada desde o início do internamento hospitalar. Estudos já realizados apontam que a cloroquina, que chegou a parecer promissora, não traz qualquer vantagem aos pacientes; pelo contrário, pode até ser perigosa, no caso de pacientes com problemas cardíacos. Na manhã desta sexta-feira, o ainda ministro da Saúde terá procurado os hospitais que conduzem as principais pesquisas sobre o uso da cloroquina e pedido atualizações. A resposta foi que não é recomendável o uso do medicamento na fase inicial da covid-19, mas apenas em casos graves. Teich avisou então Bolsonaro que não poderia mudar o protocolo porque não havia a comprovação científica da eficácia da cloroquina, e pediu demissão.

Fritura” já vinha de antes

Mas a verdade é que Teich já vinha a ser “fritado” pelos bolsonaristas nas redes sociais, por não alinhar plenamente com o “chefe” e não defender o fim incondicional do isolamento social. É verdade. Neste país insano em que o Brasil se transformou, num momento em que a pandemia no Brasil chegou à fase do descontrole, com mais de 800 mortes por dia (na verdade são muitas mais, há subnotificação), a obsessão do presidente é impor o fim da única medida que ainda pode fazer baixar o crescimento exponencial da doença e dos óbitos. E para isso, não hesita, como fez na quinta-feira, em convocar os empresários “à guerra” contra os governadores que procuram ampliar o índice de isolamento.


Bolsonaro convocou os empresários “à guerra” contra os governadores que procuram ampliar o índice de isolamento. Foto de Marcello Casal Jr., Agência Brasil

Na última segunda-feira, Teich já pensara na demissão, quando passou por mais uma situação caricata: foi informado, numa conferência de imprensa, pelos jornalistas, da decisão anunciada momentos antes por Bolsonaro de acrescentar à lista de serviços essenciais, a abrir de imediato, os salões de beleza e academias de ginástica. O ministro não sabia de nada e reagiu atordoado: “Tratar isso como não essenci..., como... como não essen... como essencial é um passo inicial. Foi decisão do presidente... que decidiu isso aí. Saiu hoje isso? Manicure, academia... barbearia? Não... Isso aí... não é atribuição nossa.” Teich já tinha demonstrado que não tem o dom da palavra e que não prima pelas reações rápidas. Mas, convenhamos, o peso da humilhação deixaria balbuciante o melhor orador.

País pendente da decisão da Justiça sobre vídeo

A demissão de mais um ministro da Saúde em tempos de pandemia mundial seria, em qualquer país do mundo, o facto principal do dia. Mas não será: o Brasil está pendente da decisão de um juiz do Supremo Tribunal Federal sobre se torna pública a gravação em vídeo de uma reunião do conselho de ministros realizada em 22 de abril, onde ficaria provado que Bolsonaro anunciou a interferência na nomeação e demissão das chefias da Polícia Federal para acautelar os seus interesses pessoais. Essa interferência ilegal é a acusação central do ex-ministro Sérgio Moro ao presidente, alvo de um inquérito aberto a pedido do Procurador-geral da República. O inquérito, se concluir com a denúncia de Bolsonaro, pode levar ao seu afastamento se for aprovado pelo Legislativo e pelo STF. Ou pode condenar Moro por falso testemunho. No Brasil, alguns amigos, confinados em casa, já me disseram: “pelo menos, a gente não morre de tédio neste isolamento”. Dava para rir, se o assunto não fosse tão grave. E fúnebre.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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