Boris Johnson sai do Parlamento por entre mentiras e ameaças

11 de junho 2023 - 18:21

Johnson sempre acreditou que há leis para as "pessoas pequenas" e outro código destinado à elite. Até a sua lista final de condecorações, divulgada na sexta-feira antes de se demitir, incluía os seus companheiros do "Partygate". Por Charlie Kimber.

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Boris Johnson
Boris Johnson. Foto Presidência da Ucrânia

Boris Johnson anunciou na sexta-feira à noite que vai abandonar imediatamente a Câmara dos Comuns. Saltou fora antes de ser empurrado.

Johnson tinha recebido há pouco tempo o esboço das conclusões do inquérito do Comité de Privilégios. O inquérito analisou se Johnson mentiu sobre o que disse acerca da violação das regras de confinamento durante o auge da pandemia.

Johnson disse na hora da despedida: "É muito triste deixar o parlamento - pelo menos por agora - mas, acima de tudo, estou perplexo e chocado por poder ser forçado a sair, antidemocraticamente, por um comité presidido e gerido por Harriet Harman, com uma parcialidade tão flagrante".

Como é seu apanágio, esta declaração mistura fanfarronice, falsidades e ameaças. Não é de surpreender que o comité, mesmo com a sua maioria conservadora, o tenha presumivelmente considerado culpado - como descobriremos na segunda-feira.

É acusado de fazer declarações falsas sobre as farras em série no Nº10 [a residência oficial e gabinete do primeiro-ministro], enquanto as pessoas comuns não eram autorizadas a encontrar-se, assistir a funerais ou visitar os seus familiares moribundos. Ele não se livrou do fedor das salas de Downing Street manchadas de vómito, nem à sua vontade de "deixar os corpos empilharem-se" em vez de interferir com os lucros.

Em muito menos de quatro anos, passou de uma vitória eleitoral quase esmagadora a ser expulso como deputado.

Johnson nunca se afastou da sua convicção de que havia um conjunto de leis para as "pessoas pequenas" e outro código destinado à elite. Até a sua lista final de condecorações, também divulgada na sexta-feira, incluía os seus companheiros do "Partygate".

Decretou uma Ordem do Bath para o seu antigo secretário particular principal, Martin Reynolds, que supervisionou uma festa no jardim durante as restrições de confinamento em 2020.

Também concedeu um título de nobreza ao seu chefe de gabinete, Dan Rosenfield, e a Ordem do Império Britânico a Jack Doyle, o seu antigo diretor de comunicação. Ambos estavam em funções durante parte da era do Partygate no Nº10 e das investigações sobre o escândalo.

Shelley Williams-Walker, que terá sido a DJ responsável pela seleção musical num encontro em Downing Street na véspera do funeral do príncipe Philip, foi nomeada dama, enquanto Rosie Bate-Williams, antiga assessora de imprensa, que divulgou alguns dos desmentidos sobre a violação das regras, foi condecorada com o grau da Ordem do Império Britânico.

Para além das mentiras, a ameaça na declaração de saída de Johnson está na parte em que diz que vai deixar o parlamento "por agora". Ele e os seus acólitos mais próximos sonham com um cataclismo em que tudo será tão destruído que Johnson será recebido como um salvador. O primeiro passo nesse sentido é destruir Rishi Sunak.

Durante a sua intervenção, Johnson atacou Sunak dizendo que o governo conservador estava "claramente em risco" sob a sua liderança e que o governo precisava de ser "devidamente conservador". Johnson também acusou Sunak de ter "abandonado passivamente" a procura de um acordo comercial entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, bem como de ter "deitado por terra" as medidas destinadas a abolir todas as leis da UE, a ajudar as pessoas a obter habitação e a promover o bem-estar dos animais.  

A saída de Johnson irá desencadear uma eleição suplementar que os Tories não irão aguardar com grandes expetativas. E, no início do dia, Nadine Dorries, uma aliada próxima de Johnson, anunciou que ia deixar o cargo de deputada "com efeito imediato". Esta medida significa também uma eleição intercalar. [NT: Já no sábado, outro aliado de Boris Johnson, Nigel Adams, anunciou a sua saída, desencadeando uma terceira eleição intercalar.]

Boris Johnson apresentou-se como um "homem do povo" anti-establishment. Na realidade, sempre serviu os ricos e, acima de tudo, a si próprio. Recorreu ao racismo, ao nacionalismo e ao apoio entusiástico às guerras imperialistas para tentar salvar a sua pele.

Quando Johnson se demitiu do cargo de primeiro-ministro, o Socialist Worker escreveu: "Boris Johnson demitiu-se - agora vamos ao resto. A sua saída como líder dos conservadores deve ser um estímulo para todos os que querem expulsar os conservadores e mobilizar a oposição nos piquetes e nas ruas."

Enquanto Sunak enfrenta mais uma crise conservadora, é altura de traçar um limite. É um momento para os trabalhadores e ativistas lutarem - e continuarem a lutar até ganharem. Porque é que esta cambada conservadora há-de ter um momento de paz?


Charlie Kimber é secretário nacional do SWP. Artigo publicado em Socialist Worker. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.