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Bolsonaro quer fim do confinamento contra “gripezinha”

Presidente defende a reabertura das escolas e dos comércios, insistindo na tese de que a epidemia do coronavírus não passa de uma “gripezinha” e que a prioridade do Brasil é manter o emprego. Marcelo Freixo acusa-o de “jogar com a vida dos brasileiros”. Por Luis Leiria.
Bolsonaro mais uma vez desdenhou da epidemia
Bolsonaro mais uma vez desdenhou da epidemia

A grande maioria dos brasileiros ficou estarrecida ao ouvir o presidente Jair Bolsonaro, na noite desta terça-feira, defender na televisão o fim do “confinamento em massa” dos cidadãos, a reabertura das escolas e do comércio, medidas estas que foram adotadas pelos governadores dos Estados para combater a epidemia do novo coronavírus. Aliás, medidas que também foram recomendadas pelo próprio ministro da Saúde do governo Bolsonaro.

À medida que o presidente avançava na sua argumentação, o “panelaço”, que já começara, intensificou-se. Os brasileiros foram para as janelas protestar contra um presidente irresponsável que comparou mais uma vez os efeitos do covid-19 a uma “gripezinha”, ou a um “resfriadinho”, afirmando que o único grupo de risco é o das pessoas acima de 60 anos. Mais uma vez responsabilizou a imprensa por espalhar a “histeria” e defendeu: “Devemos sim voltar à normalidade”.

O “panelaço” foi ensurdecedor em muitos bairros de cidades como São Paulo, Brasília, Recife, Porto Alegre, Curitiba, Aracaju, Vitória, Goiânia, Belém, Florianópolis e Maceió, aos gritos de “Fora Bolsonaro”. Nalguns locais, os “panelaços” têm ocorrido todos os dias na última semana.

A estratégia por trás do discurso

Como é habitual em Bolsonaro, o discurso foi tosco, mal lido, desconexo. Mas o pensamento que está por trás não é o da loucura, como parece à primeira vista. Bolsonaro vinha sendo alertado pelo filho Carlos, responsável pela sua estratégia nas redes sociais, que os seus defensores estavam a desmobilizar-se, o que foi confirmado por estudos de empresas dedicadas a acompanhar os fenómenos online. A corrente bolsonarista precisa de um alvo de ódio para se manter coesa e atuante; mas esse alvo não pode ser um vírus que todos combatem. Bolsonaro não quer união nacional, quer polarização porque sabe que só assim se pode manter à tona.

Na semana anterior, a sua estratégia em relação ao combate ao coronavírus foi ziguezagueante. Ora aparecia rodeado de ministros, todos envergando máscaras cirúrgicas, para dar a impressão de estar na primeira linha do combate à epidemia, ora participava nas manifestações a favor do seu governo, sem máscara nem qualquer proteção, cumprimentando fisicamente centenas de participantes.

O pronunciamento desta terça-feira marca uma opção. Bolsonaro desdenha a epidemia. Aposta num progresso da doença mais lento que noutros países. Acredita que o Brasil não se compara com a Itália, por diferenças climáticas e porque a Itália tem mais idosos. Prevê que será melhor evitar uma recessão que se avizinha mantendo a economia funcionando, nem que isso se dê à custa da morte de milhares de pessoas.

O The Intercept teve acesso a um relatório da agência de informações do governo, a Abin, que projeta dois cenários para a progressão da doença. No pior deles, em que acompanharia a curva de progressão da China, Itália e Irão, o Brasil chegará a 6 de abril com 5.571 mortos e 207.435 casos da doença. No mais otimista, a epidemia cresceria com as taxas da França e Alemanha, mas mesmo assim chegará a 6 de abril com 2.062 mortes. Bolsonaro conhece, evidentemente, esta análise. Provavelmente parecer-lhe-á um estrago pequeno. Ao “comprar a briga” com os governadores, entre eles o de S. Paulo, João Dória, e o do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que o apoiaram entusiasticamente nas eleições presidenciais e depois romperam com ele, o presidente de ultradireita joga as responsabilidades para cima deles e aposta em ganhar de qualquer forma: se o vírus realmente progredir mais lentamente (há estudos científicos ainda não validados que afirmam que o covid-19 não se dá bem em ambientes quentes e húmidos), ele dirá que se confirma a sua opinião de que a epidemia não passava de uma gripezinha; mas se as medidas de isolamento social tiverem efeito e conseguirem achatar a curva de progressão da doença, Bolsonaro dirá igualmente que afinal ele tinha razão, que a epidemia, em vez de um tsunami, não passou de uma “marolinha” (uma pequena ondulação).

Mas Bolsonaro não parece prever um terceiro cenário: o da progressão acelerada, milhares de mortos, muitos mais que a China, a Itália ou a Espanha, porque o sistema de saúde do Brasil não se compara ao destes países. Não esqueçamos que o isolamento social promovido pelos governadores não inclui fábricas, oficinas mecânicas e todos os serviços essenciais.

Já na manhã desta quarta-feira, a guerra entre Bolsonaro e o governador João Dória prosseguiu: numa reunião em videoconferência entre o presidente e os governadores do Sudeste, Dória criticou abertamente o pronunciamento de Bolsonaro do dia anterior, afirmando que a prioridade dos governadores é “salvar vidas”, seguindo as recomendações do Ministério da Saúde e da OMS.

Bolsonaro reagiu de forma destemperada: “Subiu à sua cabeça a possibilidade de ser presidente do Brasil. Não tem responsabilidade. Não tem altura para criticar o governo federal”, disse o presidente ao tucano. “Se você não atrapalhar, o Brasil vai decolar e conseguir sair da crise. Saia do palanque”, afirmou.

Condenação quase unânime

A resposta ao discurso do presidente não tardou. O deputado Marcelo Freixo, do PSOL, acusou Bolsonaro de declarar guerra ao Brasil e de “jogar com a vida dos brasileiros”. Os presidentes do PSOL, do PT, do PcdoB, do PCB e da Rede divulgaram uma nota em que acusam Bolsonaro de desestimular os “seus simpatizantes e apoiadores a se somarem aos esforços que toda a sociedade brasileira está envidando para salvar vidas”, de ignorar “os apelos de médicas e enfermeiros em favor do isolamento social voluntário”, de ignorar também “os resultados das pesquisas científicas”.

Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, disse que o pronunciamento de Bolsonaro foi “equivocado”, e exortou os brasileiros a seguirem as normas da OMS.

O presidente e o vice-presidente do Senado publicaram nota em que afirmam que “neste momento grave, o País precisa de uma liderança séria, responsável e comprometida com a vida e a saúde da sua população”.

O ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso aconselhou Bolsonaro a “calar-se, senão será o seu fim”.

Fernando Haddad, que disputou o 2º turno das eleições presidenciais com Bolsonaro, escreveu: “Bolsonaro apostou milhares de vidas e a própria presidência nesse pronunciamento. Qualquer que seja o desfecho, vai custar caro ao país”.

Mesmo entre a direita mais extrema, a condenação ganhou força. Kim Kataguiri, deputado e fundador do MBL, movimento que se destacou nas manifestações que levaram ao afastamento da presidente Dilma Roussef, considerou o discurso de Bolsonaro oportunista e irresponsável.

A deputada estadual Janaína Paschoal, uma das autoras do pedido de impeachment de Dilma e que recentemente rompeu com Bolsonaro justamente pela sua postura em relação à epidemia, escreveu: “Os brasileiros deveriam anotar os nomes dos empresários, dos apresentadores de TV e dos políticos que, em meio a contaminações, mortes, velórios sem abraços, cremações isoladas... tiveram a ousadia de dizer que estão acima dos demais… que não são passíveis de contaminação.”

Bolsonaro só teve o apoio dos seus incondicionais.

Segundo os últimos dados (até às 18h de terça-feira), o Brasil registou já 46 mortes e 2.201 casos de pessoas infetadas com o novo coronavírus.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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