Os trabalhadores dos CTT já tinham anunciado que a administração pretende encerrar 200 estações de Correios, 70 das quais até ao fim desta semana. Dezenas de moradores do bairro lisboeta da Ajuda, na maioria idosos, concentraram-se esta terça-feira junto à estação da Rua das Mercês, uma das que os CTT querem fechar até sexta-feira. A empresa diz que há duas estações a menos de dois quilómetros de distância que podem servir de alternativa, mas o dirigente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações (SNTCT) não se convence com esse argumento. "Gostava de ver o senhor presidente do conselho de administração dos CTT quando tiver 80 anos e tiver de andar mais um quilómtero até à estação mais próxima", disse Vítor Narciso ao semanário Expresso, depois de garantir que "este encerramento não se justifica".
"Esta é uma freguesia com 17 mil habitantes, com mais de metade dos habitantes com mais de 50 anos, uma população envelhecida e carenciada. Não é esta estação que vai dar rentabilidade aos CTT, que já tem uma rentabilidade de milhões no geral, mas tem de prestar serviço público", acrescentou o secretário-geral do SNTCT.
Bloco quer travar privatização dos CTT
O Bloco de Esquerda vai levar o tema ao Parlamento esta sexta-feira, com um projeto de resolução a ser votado pelos deputados. "O encerramento de estações e a retirada de valências à empresa é uma decisão errada que trará impactos muito negativos para a qualidade de vida das comunidades e do tecido económico local. A reação indignada das populações é disso mesmo sinal", dizem os deputados do Bloco.
O projeto de resolução lembra ainda que para muitos portugueses, os CTT, para além dos serviços postais, funcionam como uma pequena entidade financeira de proximidade, onde têm acesso às suas pensões e reformas. E alertam que "esta proximidade ficará em causa se a privatização for executada".
"O Governo pretende entregar esta empresa, que é de todos, ao capital privado até ao final deste ano. O que é de todos passará a ser apenas de alguns", denuncia o Bloco, acrescentando que entre 2005 e 2012, o número de trabalhadores dos CTT foi reduzido em 27%. No mesmo período, a empresa acumulou lucros de 438,7 milhões de euros, o que faz da sua privatização "uma decisão extremamente lesiva dos interesses dos cidadãos" e que "agudiza a situação financeira do país" e favorece a fuga de capitais.
O Bloco estudou as consequências da privatização dos serviços postais noutros países europeus: "Na Suécia foram cortadas 25% das estações, em Itália os empregos no setor caíram de 220 mil para 150 mil e na Alemanha foram cortados a metade. Mesmo fora da Europa, na Nova Zelândia, a privatização levou a uma redução de 43% dos postos de trabalho", aponta o projeto em debate na próxima sexta-feira em São Bento.
"Entregar os serviços públicos à lógica do mercado é programar a sua destruição. Os CTT públicos continuam a dar provas e se o Estado der à empresa os meios necessários, continuará a satisfazer as necessidades da população", conclui o grupo parlamentar do Bloco antes de propor que o Governo cancele o processo de privatização da empresa e os encerramentos de estações dos Correios e dê à empresa "os meios necessários para expandir a sua atividade em Portugal, para recuperar a capacidade perdida nos últimos anos e para reforçar o número de trabalhadores, reduzido constantemente nos últimos anos".