Giuseppe Valditara, ministro da Educação do governo de extrema-direita liderado por Giorgia Meloni, anunciou que se prepara para mudar vários conteúdos dos programas escolares desde a escola primária até ao secundário.
Aquele que mudou o nome do cargo para “ministro da Instrução e do Mérito”, todo um programa ideológico por si só, pretende fazer regressar o estudo do latim, que era obrigatório até 1978, a partir do ensino preparatório, fazer os alunos decorarem poesia e incluir a Bíblia como “fonte de inspiração” da cultura italiana e como “fundamento da nossa civilização”. O executivo alimenta a especulação sobre como isto se irá concretizar com Paola Frassinetti, secretária de Estado da Educação, a limitar-se a dizer à agência Ansa que a Bíblia estará presente “de alguma forma” nos programas.
Em causa está ainda retirar o ensino da história do resto do mundo e focar apenas na Itália e no Ocidente. Quer-se ainda dar mais espaço aos povos itálicos originais, à Antiguidade Clássica e aos cristianismo inicial. O ensino da música também se centrará nos grandes nomes da música clássica italiana. No caso da literatura, há uma preferência pela épica clássica, a mitologia grega mas também as “sagas nórdicas”.
Trata-se por enquanto de um anúncio público que se seguiu a reuniões de uma “comissão de peritos” e que ainda não se converteu em nenhuma medida legislativa. Mas avisa-se que as mudanças deverão concretizar-se até ao ano letivo de 2026-27.
Autoritarismo, pensamento retrógrado e falta de investimento diz a oposição
Do lado da oposição, Partido Democrático, Movimento Cinco Estrelas e Aliança Verde Esquerda são unânimes nas críticas, sublinhando que está em causa a imparcialidade do ensino, caminhando-se no sentido de uma doutrinação dos estudantes.
Elisabetta Piccolotti, da Aliança Verde Esquerda, considera que se estão a fazer “anúncios incoerentes e contraproducentes com os quais se quer fazer publicidade, em vez de se ir buscar mais recursos económicos para melhorar as atividades educativas, reduzir o número de alunos por turma e aumentar os salários dos professores”.
Elly Schlein, dirigente do Partido Democrata, acusa Valditara de ter uma visão desatualizada da realidade, de ser um “nostálgico do tempo das estaladas na mão” e de “confundir autoritarismo com autoridade”.
Com estas palavras, a líder do maior partido da oposição, de centro-esquerda social-liberal, critica para além destas mudanças as que foram já aplicadas em setembro e que introduziram o princípio de que a “conduta” dos alunos influencia a passagem de nível. Os alunos que tiverem menos de cinco, numa escala até dez, serão chumbados independentemente do resto do desempenho académico. Esta retomar uma medida introduzida pelo ditador fascista Benito Mussolini em 1924.
O Movimento Cinco Estrelas divulgou uma posição em que acusa o ministro da educação de ter uma “visão retrógada” e de “em vez de acompanhar os estudantes no novo milénio parece ter a intenção de os fazer regredir aos anos 1950. O que se segue? Trazer de volta as televisões a preto e branco?”
Também muitos estudantes se opõem a este tipo de mudanças. Tommaso Martelli, coordenador nacional da União de Estudantes, diz, citado pelo Il Fatto Quotidiano que “a introdução da Bíblia no programa é uma clara escolha política alinhada com as ideias reacionárias e conservadoras do governo que tentam esconder sob o pretexto de estudar as ‘raízes da cultura italiana‘ que sabemos serem muito mais amplas”.
Para além disso, um grupo de uma centena de estudantes manifestou-se esta quinta-feira em Lecce. Receberam Valditara com uma imagem dele enquanto “xerife” e emitiram um comunicado em que declaravam: “as nossas escolas estão a cair, o dinheiro é gasto em armas em vez de em educação… mas face a todos os problemas a única resposta do ministro e do governo Meloni é a repressão”.