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Berlinale: "Taste", de Le Bao

Num estilo sedutor, o filme de estreia do realizador vietnamita Li Bao traz um choque com a natureza e uma aguçada visão fotográfica e de luz. Como se Apichatpong ou Tsai Ming-Liang se cruzasse com o cinema de Pedro Costa. Artigo de Paulo Portugal.
Imagem de "Taste", de Le Bao.
Imagem de "Taste", de Le Bao.

É tão bom quando somos totalmente surpreendidos por imagens deslumbrantes e oblíquas, quadros vivos ligados a narrativas disponíveis ao encantamento. Sobretudo percebendo que tal inspiração vem numa primeira obra e, algo que acrescenta ainda mais expectativa, quando surge de uma cinematografia tão inesperada quanto a do Vietname. Sim, Le Bao estreou-se com Taste (o original é Vị). Ele que nasceu apenas em 1990, nos subúrbios degradados junto ao rio, em Ho Chi Minh.

Um filho do cinema na internet que se tornou cinéfilo por conta própria, como informam as notas de produção. Coisa rara. Um cinema que se inscreve nos elementos, de resto confirmado pelas duas curtas Coal (carvão) e Scent (essência), bem como Taste (paladar, gosto), que poderá ter gerado esta longa com o mesmo nome, já depois de Unconsoled (2019). Ou seja, uma produção constante que justifica a maturidade que vemos nas suas imagens.

Taste | Official Trailer | Berlinale 2021.

Bao parece segredar-nos para que tomemos atenção às múltiplas dimensões que nos poderão escapar. Talvez, na verdade, tudo seja possível. O que estará escondido numa pequena toca de rato numa parede que serve de baliza a um campo de futebol do tamanho do Subbuteo.

Talvez neste buraco exista o mundo de um jogador de futebol nigeriano que foi despedido de uma equipa vietnamita após uma lesão numa perna. Um espaço habitado por mulheres idosas e solteiras disponíveis para um ritual de corpos. Aliás, este é um cinema de celebração do corpo, encarado quase na sua vertente performativa, em que as palavras são dispensadas – escutaremos não mais do que duas dezenas de frases ao longo de todo o filme. Numa dessas cenas, o emigrante nigeriano fala com o filho olhando um ecrã, em que vão comendo à vez uma melancia.

A geografia, tal como o tempo, também está em suspenso: tudo acontece como numa ponte indefinida entre umas termas, mas que pode também ser uma prisão, algures entre um passado se cruza com o presente. É assim que nasce uma espécie de império interno, inacessível a qualquer pessoa do mundo exterior. Aqui, passando um ritual de purificação, em que estas mulheres comem, são massajadas e, por vezes, copulam.

Várias ações ocorrem em paralelo em simultâneo, mas em que nada verdadeiramente acontece. Mais do que tentar explicar ou interpretar, apetece viver um filme como Taste. Pelo menos, oferece-nos um amplo campo de raciocínio, mas ao mesmo tempo a liberdade incrível de significados e códigos, ou a imaginar novas formas de expressão. O tempo dirá quem Li Bao realmente é: se um imitador habilidoso ou uma nova voz do cinema asiático.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista de cultura e cinema, autor do site insider.pt
Termos relacionados Berlinale 2021, Cultura
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