Berlinale: "Bad luck banging or loony porn", de Radu Jude

03 de março 2021 - 18:00

O título apimentado prometia alguma polémica e o endiabrado realizador romeno não fez a coisa por menos, servindo-se da pornografia para uma caricatura ácida da sociedade do seu país. Artigo de Paulo Portugal.

porPaulo Portugal

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Imagem de "Bad luck banging or loony porn".
Imagem de "Bad luck banging or loony porn".

O título apimentado prometia alguma polémica, e o endiabrado realizador romeno não fez a coisa por menos. Bad luck banging or loony porn é a sua corrosiva tirada contra os podres da sociedade romena, que dificilmente se desliga do seu passado de ajuda aos nazis, que não resiste a usar a corrupção ou tráfico de influência para atingir os seus fins. Aliás, um dos seus últimos filmes, usava também orgulhosamente o título infame I do not care if I go down in History as barbarians, de 2018, mas saiu vencedor do festival de Karlovy Varyao retratar como a barbárie anti-semita conseguiu alastrar-se para fora do regime nazi.

Talvez tudo isso tenha alimentado um pouco a tremenda verve do cinema romeno, de que o experiente Radu Jude parece tirar o maior partido nos últimos anos. Aliás, no próprio trailer do filme, Jude não resiste a pintar de humor ácido a forma como o cinema é ‘embalado’ nos dias de hoje.

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No caso do filme que irá fazer furor nos próximos festivais por onde passar, serve-nos uma bem apimentada sex tape doméstica que chega à net e acaba por virar do avesso a vida de uma professora com alguma reputação a manter. Mas, e se a sex tape, ao som de Lilly Marlene, ou a pornografia for apenas uma forma de Jude captar a atenção do povo para aquilo que se passa na vida dos nossos conterrâneos europeus romenos?

É que Bad luck banging (mas que título!) é uma expressiva colagem de tudo aquilo que Jude foi observando, bruscamente o verão passado, em plena pandemia. E, bruscamente, porque percebe-se aqui uma certa urgência de filmar. Aliás, o filme, dividido em três partes (e ainda três finais alternativos) parece mesmo empenhado em encenar cenas do quotidiano popular. Expliquemo-nos. Depois da tal sequência, digna de figurar em qualquer site da especialidade, e da autora se aperceber que a sua performance já circulava na net, a câmara acompanha a “porn teacher” nas ruas de Bucareste, em longos planos-sequência, aparentemente descritivos com que preenche a primeira parte, decorada com um plano rosa-choque a intitular “via de sentido único”. Por essa via vamos apercebendo-nos de alguns dados antropológicos e sociológicos dos romenos (que serão até, de certa forma, comuns a outros povos latinos), seja a usar o seu comodismo em proveito próprio: como peões, automobilistas, em filas de supermercados…

No entanto, assim que chegamos à Parte II, Radu parece servir-se do caixote do lixo das misérias do seu povo (mas não só), usando imagens de época, factos históricos, provérbios, anedotas, deboche e muito kitsch que não repugnaria o estilo popular muito usado pelo artista plástico Jeff Koons – muito menos à sua mulher, Ilona Staller, também conhecida por Cicciolina. Uma das frases que não resistimos em reproduzir (aliás, é essa uma das vantagens de dispormos do acesso ao filme durante 24 horas, podendo analisá-lo com mais detalhe): aparentemente, no dia 23 de Agosto de 1944, diante a entrada das tropas russas no território, um jornal preparou duas manchetes: uma dizia “Viva Stalin!”, no caso das tropas russas avançarem; a outra, dizia “Viva Hitler!”, no caso dos até ali aliados manterem o controlo…

Radu Jude funde assim o enlevo histórico com uma profunda acutilância e humor negro diante o envergonhado cinismo anti-semita do seu povo, nunca totalmente apagado. No fundo, algo que percebemos que é, isso sim, de um conteúdo pornográfico. Tal como o regime de Ceaucescu, que passou de líder herói comunista, em 1964, a ditador executado pelo povo, em 1989. Aliás, uma personagem visada por Radu Jude no seu filme anterior, Uppercase Print (exibido o ano passado no Fórum da Berlinale), sobre um jovem de 16 anos que escreveu, em 1981, o singelo grafitti a giz, ”estamos fartos de esperar em filas intermináveis”. Acabaria perseguido e torturado pela polícia. Isto num país em que recentemente a palavra mais procurada da net foi “blow job” e a segunda foi “empatia”. É, portanto, a pornografia de que se serve para explicações de foro mais sociológico, como para explicar a sondagem em que 55% da população concordava com a violação, desde que fosse motivada por consumo de álcool ou drogas, ou que fosse justificada pelo traje ousado da vítima.

Quando chegamos à Parte III, e aos seus três finais alternativos, já temos algum conhecimento para apreciar o julgamento da Professora depois de ser chamada à escola para ouvir os pais. É num registo de teatro cínico que Jude motiva o confronto de uma mulher exposta na mais profunda intimidade e aproveita para reunir alguns estereótipos da sociedade local – como o misógno, o militar, o padre, o emigrante silencioso, o gay, a oportunista, etc – por forma a proceder a um derradeiro exorcismo. Ou apenas uma brincadeira. Uma coisa é certa: em tempos de pandemia, vai ser difícil esquecer a pornopandemia de Jadu Jude. Um filme que ficará por certo dashort listpara os candidatos a prémios. Mas, atenção, há outros.

Paulo Portugal
Sobre o/a autor(a)

Paulo Portugal

Jornalista de cultura e cinema, autor do site insider.pt
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