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Bairro 2 de Maio foi ocupado há 40 anos por centenas de pessoas

A história do bairro 2 de Maio, em Lisboa, pode começar a ser contada com um poema do brasileiro Vinicius de Moraes: “Era uma casa muito engraçada/Não tinha teto, não tinha nada”
Tal como Osvaldo, Mariano, Maria Ivone e Ausenda, muitos outros ali se mantiveram nas últimas quatro décadas. “A maior parte da altura da ocupação ainda cá vive”, garantiu Mariano. Foto de Manuel Almeida/LUSA

A história do bairro 2 de Maio, em Lisboa, pode começar a ser contada com um poema do brasileiro Vinicius de Moraes: “Era uma casa muito engraçada/Não tinha teto, não tinha nada”.

Foi nesse estado que, a 2 de maio de 1974, centenas de pessoas ocuparam os prédios que estavam a ser construídos na Ajuda pela Fundação Salazar, entretanto extinta.

Há 40 anos, Mariano Marques Maia, de 53 anos, trocou a barraca onde morava com a família, na Rua do Cruzeiro, por uma casa no bairro, que “nem sequer tinha paredes, só o esqueleto, a estrutura”.

“Vim com os meus pais, os meus familiares, tios, tias e vizinhos que viviam nas barracas. Eram centenas de famílias. Viemos todos e ocupámos”, recordou, em declarações à agência Lusa.

Mariano mudou-se para o 2 de Maio no mesmo dia que Ausenda Moreira, de 70 anos. “Ouvimos na rádio que este bairro era da PIDE [polícia política do antigo regime] e estava a ser ocupado. Juntámo-nos todos da Rua do Rio Seco, viemos por aí fora e ocupámos as casas”, contou.

Também Ausenda Moreira recorda as casas que “não tinham janelas, nem portas, nem casas de banho, nem chão”.

“Andávamos aqui sem água, sem nada. Os despejos eram feitos na mata, com baldes”, disse.

Maria Ivone, de 67 anos, também foi das primeiras a ocupar o bairro. Há 40 anos mudou-se para ali com o marido e quatro filhos, o mais novo com 15 dias.

“A casa não tinha condições nenhumas, não tinha portas, janelas, nem chão. Água não havia, luz não havia. Vínhamos lavar a roupa onde agora é a creche. Havia lá um chafariz, onde também íamos buscar água”, disse.

Para ocuparem o bairro da Fundação Salazar, os moradores foram pedir ajuda a alunos do Instituto Superior Técnico (IST).

Osvaldo de Sousa, hoje com 59 anos, era um desses estudantes. O agora presidente da comissão de moradores do bairro explicou que a 2 de maio de 1974 estava numa assembleia de estudantes no IST quando “apareceu um grupo de pessoas, que vivia nas barracas na área da Ajuda, a pedir ajuda para ocuparem estas casas”.

Acabada a assembleia, os estudantes foram ter com os moradores a Santo Amaro, em frente à Carris, e daí partiram juntos em direção ao bairro.

“E cá fiquei também. Acabei por ficar durante 40 anos”, revelou.

Os “esqueletos” foram aos poucos transformados em lares pelos próprios moradores.

“Havia aqui homens das obras contratados pela Fundação e barracas com o material. O povo arrombou as portas, tirou os tacos, torneiras e avançou em luta para pôr as casas em condições”, relatou Ausenda Moreira, descrita como “uma mulher de armas” que tudo fez pelo 2 de Maio.

Depois das ocupações, formou-se a comissão de moradores, da qual fizeram parte Ausenda Moreira e Osvaldo de Sousa, para “exigir” à Fundação Salazar que lhes desse contratos e legalizasse as casas.

“Disseram-nos que ao fim de 25 anos as casas iriam ser nossas. Mas não ficou nada escrito. Ou se ficou, desapareceu quando a fundação foi extinta”, referiu Osvaldo de Sousa, lembrando que “com a passagem de toda a documentação para a Câmara, houve muita coisa que desapareceu”.

Tal como Osvaldo, Mariano, Maria Ivone e Ausenda, muitos outros ali se mantiveram nas últimas quatro décadas. “A maior parte da altura da ocupação ainda cá vive”, garantiu Mariano.

Atualmente, o bairro é composto por 39 lotes construídos pela Fundação Salazar e 25 pela Câmara Municipal de Lisboa. Há cerca de 10 anos, a Gebalis, empresa municipal, assumiu a gestão do bairro. É a esta empresa que os moradores pagam as rendas.

Os estabelecimentos comerciais contam-se pelos dedos de uma mão.

Os moradores queixam-se de viverem num bairro que foi abandonado. “Em 40 anos nunca fizeram nada”, lamentou Maria Ivone, secundada por Mariano: “Nunca meteram aqui a mão”.

Ainda assim, há coisas que começam a mudar. Nas ruas há máquinas e homens a trabalhar.

“Agora é que estão a lutar por aquilo que há 40 anos os moradores andam a lutar e nunca conseguiram”, afirmou Ausenda Moreira, nomeando as ajudas da junta de freguesia da Ajuda, da câmara e da Gebalis.

O 2 de Maio “precisa das obras que estão a ser feitas”, que, do que Osvaldo de Sousa viu nas plantas, vão tornar o bairro “diferente”. Mas, para os moradores, fica a faltar muito mais.

Ausenda Moreira acredita que ainda há “muito que lutar, em prol dos filhos e dos netos”.

Artigo publicado no portal da Lusa sobre os 40 anos do 25 de Abril.

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